
O Vaticano parece ter suavizado a sua posição contra a cirurgia de afirmação de género e a “teoria de género”. O Vaticano publicou esta semana um discurso do chefe de doutrina, Cardeal Victor Manuel Fernández, onde abordou a questão das intervenções de afirmação de género. Esta mudança vem após uma posição mais rígida expressa em 2024.
No discurso, o Cardeal reconheceu a existência de situações excecionais. Ele mencionou que “há casos fora da norma, como disforias severas que podem levar a uma existência insuportável ou até ao suicídio. Estas situações excecionais devem ser avaliadas com grande cuidado“. Esta declaração marca uma abertura para considerar casos individuais com mais empatia e atenção.
Fernández, falando numa conferência de teologia na Alemanha, explicou: “Não queremos ser cruéis e dizer que não compreendemos a condição das pessoas e o sofrimento profundo que existe em alguns casos de ‘disforia’ que se manifesta até desde a infância“. Esta abordagem mostra uma maior sensibilidade para com as experiências das pessoas que lidam com disforia de género.
Mudança de posição face às últimas declarações do Papa Francisco
Em 2024, o Vaticano emitiu um aviso contra a “teoria de género”, também conhecida como “ideologia de género” dentro de grupos conservadores, e afirmou que qualquer “intervenção de mudança de sexo” poderia ameaçar “a dignidade única” de uma pessoa. O documento, assinado pelo Papa Francisco, abordou várias ameaças à dignidade humana, incluindo a pobreza, a pena de morte, a guerra, a morte assistida, o aborto, o abuso sexual e o abuso de mulheres. O texto de 2024 afirmava que as tentativas de obscurecer “a diferença sexual entre homem e mulher“, incluindo a cirurgia de afirmação de género, deveriam ser rejeitadas.
A publicação mais recente do Vaticano reconhece a possibilidade da disforia de género, mas mantém a sua oposição à ideia de que “a identidade sexual-corporal pode ser objeto de mudança radical, sempre sujeita aos próprios desejos…“. O Papa Francisco, no passado, acolheu uma comunidade de mulheres trans nas suas audiências gerais semanais e aprovou um documento do Vaticano que permitia às pessoas trans serem madrinhas.
A importância das cirurgias de afirmação de género
As cirurgias de afirmação de género são procedimentos médicos que alinham a aparência física e as capacidades funcionais de uma pessoa com a sua identidade de género. Estas cirurgias são reconhecidamente importantes tanto do ponto de vista médico como psicológico para as pessoas trans e não binárias que as desejem.
Apoio das principais entidades de saúde
As principais entidades de saúde mundial, incluindo a Organização Mundial de Saúde, a Associação Médica Americana, a Academia Americana de Pediatria e a Associação Americana de Psicologia, reconhecem a necessidade médica de apoiar as pessoas na afirmação da sua identidade de género.
Impacto positivo nas vidas das pessoas trans
Estudos mostram que as taxas de complicações pós-cirúrgicas são baixas entre pessoas trans e cisgénero que recebem o mesmo tipo de cirurgia. Além disso, a satisfação das pessoas com os resultados das cirurgias de afirmação de género é elevada. Estes procedimentos ajudam a reduzir a disforia de género e melhoram significativamente a sua qualidade de vida.
A nova posição do Vaticano representa um passo adiante na abordagem da Igreja às questões de género que nem sempre estão alinhadas com o progresso. Ao reconhecer a complexidade e a dor associadas à disforia de género, o Vaticano mostra uma maior disposição para considerar cada caso individualmente. Esta mudança pode ter implicações importantes para a comunidade LGBTQ+ e para o diálogo contínuo sobre identidade de género na Igreja Católica.

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