
Mais de 50 mil pessoas encheram as ruas de Lisboa no sábado, 7 de junho, para a 26.ª edição da Marcha do Orgulho LGBTI+. Foi uma demonstração de força, diversidade e resistência. Mas, apesar da dimensão do evento e do seu impacto cívico, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) falhou redondamente nos compromissos assumidos com a organização.
A Comissão Organizadora denunciou em comunicado oficial o incumprimento por parte da vereadora dos Direitos Sociais, Sofia Athayde, que havia garantido os meios técnicos para a realização da marcha — nomeadamente palco com acessibilidade, som e eletricidade. Nada disso se concretizou.

No Terreiro do Paço, onde os manifestos finais seriam lidos, a autarquia instalou apenas um pequeno estrado de 30 cm [ver imagens acima]. Sem acessibilidade, sem som, sem eletricidade, as intervenções finais ficaram assim comprometidas.
A leitura dos manifestos foi garantida por um simples megafone que não permitia a audição devida à distância além de quem estava junto ao palco/estrado. As pessoas discursantes não foram assim ouvidas nem vistas, nomeadamente por pessoas surdas que dependiam da interpretação em Língua Gestual Portuguesa, além da primeira fila.
Pior: a Comissão só foi informada da ausência de som na véspera e soube da inexistência de eletricidade já no próprio dia, quando a Marcha partia do Marquês de Pombal.
Organização fala em promessas quebradas e desvalorização de 26 anos de história
A Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa é um protesto político com 26 anos de história, organizado por dezenas de associações e coletivos com trabalho direto e voluntário nas comunidades LGBTI+. A falta de condições básicas não é apenas um erro técnico: é um gesto político de desvalorização e desrespeito.
A Comissão destaca que este comportamento por parte do Executivo de Carlos Moedas demonstra não só uma rutura com os compromissos assumidos em reunião camarária, como uma atitude reiterada de afastamento das associações e da sua intervenção na cidade.
“Este Presidente não comunica, não se relaciona e, sobretudo, menospreza o trabalho das várias associações e coletivos, bem como diminui a relevância da enorme massa de gente que, no passado dia 07 de junho, saiu à rua pelos Direitos Humanos”, lê-se no comunicado.
A cidade que se quer livre e plural exige respostas
A Comissão Organizadora enviou perguntas formais ao Presidente da CML e à vereadora responsável, que continuam sem resposta. Entre elas:
- Que apoio efetivo é prestado à Marcha, tal como previsto no II Plano Municipal LGBTI+?
- Por que razão não foi assegurado um palco digno e acessível?
- Por que continua a Câmara a negar sistematicamente recursos públicos a quem defende os Direitos Humanos LGBTI+ todo o ano?
Estas falhas tornam-se ainda mais gritantes quando, no mesmo período, a CML aprovou um apoio financeiro de 170 mil euros ao EuroPride, evento criticado por excluir organizações de base e desrespeitar princípios fundamentais de participação e transparência.
A luta continua nas ruas — e também nas instituições
Num momento em que assistimos ao crescimento da retórica anti-direitos e à instrumentalização política da comunidade LGBTI+, é fundamental exigir responsabilidade e coerência às instituições públicas.
A Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa não é apenas um evento cultural, nem apenas um desfile festivo. É, também e acima de tudo, um protesto que exige igualdade, justiça e respeito. E a cidade de Lisboa merece uma câmara que reconheça e respeite isso — com palavras, mas sobretudo com ações.

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