Nova sondagem reforça como poucas pessoas trans destransicionam, e não é por arrependimento

Nova sondagem reforça como poucas pessoas trans destransicionam, e não é por arrependimento

Dados do maior inquérito de sempre sobre pessoas trans mostram que pressões externas, como rejeição familiar, são os principais motivos para a destransição.

O maior inquérito de sempre sobre pessoas trans nos EUA veio confirmar o que a comunidade, a ciência e ativistas têm dito há anos: a destransição é rara e, quando acontece, é quase sempre motivada por pressões externas — e não por arrependimento.

O U.S. Trans Survey 2022, publicado a 11 de junho de 2025 pela Advocates For Trans Equality (A4TE), recolheu respostas de mais de 84 mil pessoas trans, não binárias e com identidades de género diversas. Apenas 9% afirmaram ter destransicionado em algum momento. Entre estas, apenas 4% indicaram como motivo o arrependimento em relação à sua identidade de género. Ou seja, entre todas as pessoas trans inquiridas, só 0,36% afirmaram ter destransicionado por sentirem que a transição “não era para si”.

“Razões sociais e estruturais dominaram as explicações de quem voltou a viver como o sexo atribuído à nascença”, refere o relatório. O isolamento e a rejeição familiar foram dos fatores mais apontados.

Inquérito só vem reforçar o que já se sabia: a rejeição familiar e social ainda são os maiores fatores para a destransição

Estas conclusões reforçam dados já antes conhecidos. Um estudo científico de 2022, conduzido pelo Instituto Fenway e pelo Hospital Geral de Massachusetts, mostrou que 13,1% das pessoas trans inquiridas haviam destransicionado em algum momento das suas vidas. Destas, 82,5% atribuíram a decisão a fatores externos, como pressão familiar, contextos escolares hostis ou aumento da vulnerabilidade à violência, incluindo agressão sexual.

“Essas descobertas mostram que a destransição e o arrependimento da transição não são sinónimos”, explicou Jack Turban, psiquiatra e autor principal do estudo.
“Para a maioria das pessoas, a destransição é-lhe imposta.”

Tanto o inquérito como o estudo científico expõem a distância entre a realidade e o discurso político e mediático que tenta explorar a destransição como “prova” contra os direitos trans. Esta distorção tem servido para justificar políticas anti-trans nos EUA e noutros países, apesar dos próprios dados mostrarem que 94% das pessoas trans se sentem mais satisfeitas com as suas vidas após a transição.

O apoio familiar é essencial para o bem-estar das pessoas trans

O relatório da A4TE reforça ainda o papel essencial do apoio familiar e social para o bem-estar mental e físico das pessoas trans. Entre quem recebe esse apoio, os níveis de saúde mental são muito superiores. Ainda assim, 44% das pessoas trans inquiridas revelaram sinais de sofrimento psicológico grave — um número dez vezes acima da média nacional.

“Ter dados concretos sobre as realidades do dia-a-dia das pessoas trans é vital para combater estereótipos e falsas narrativas”, afirmou Olivia Hunt, diretora de política federal da A4TE.

A realidade que importa e que salva vidas

Num contexto em que, desde 2025, o regresso de Donald Trump à presidência dos EUA impulsionou ataques políticos e legislativos contra pessoas trans, a existência e divulgação destes dados são mais urgentes do que nunca.

Também por isso, é essencial avançar com medidas concretas de proteção. Uma delas é a proibição das chamadas ‘práticas de conversão’, que continuam a ser promovidas sob o falso pretexto de “curar” pessoas LGBTQIA+. Estas práticas — denunciadas por instituições internacionais como formas de tortura — estão enraizadas no preconceito e na transfobia. A sua proibição é não só um imperativo ético, como um passo necessário para garantir que ninguém seja forçado a negar a sua identidade para sobreviver. Portugal criminalizou estas hediondas práticas em 2023.



A esQrever no teu email

Subscreve e recebe os artigos mais recentes na tua caixa de email

Deixa uma resposta

Apoia a esQrever

Este é um projeto comunitário, voluntário e sem fins lucrativos, criado em 2014, e nunca vamos cobrar pelo conteúdo produzido, nem aceitar patrocínios que nos possam condicionar de alguma forma. Mas este é também um projeto que tem um custo financeiro pelas várias ferramentas que precisa usar – como o site, o domínio ou equipamento para a gravação do Podcast. Por isso, e caso possas, ajuda-nos a colmatar parte desses custos. Oferece-nos um café, um chá, ou outro valor que te faça sentido. Estes apoios são sempre bem-vindos 🌈

Buy Me a Coffee at ko-fi.com