
Progressista, socialmente liberal e abertamente gay, Rob Jetten está prestes a fazer história nos Países Baixos. Aos 38 anos, o líder do partido Democratas 66 (D66) poderá tornar-se o mais jovem e o primeiro primeiro-ministro assumidamente homossexual do país. Uma vitória inédita — e carregada de significado — num cenário europeu em que a extrema-direita cresce e os direitos humanos enfrentam novos ataques.
As eleições parlamentares neerlandesas de 2025 terminaram num empate técnico entre o D66, de Jetten, e o Partido da Liberdade (PVV), de extrema-direita e de Geert Wilders. Ambos obtiveram 26 assentos, mas as contagens oficiais colocam o D66 ligeiramente à frente. Essa vantagem, embora curta, é suficiente para dar a Jetten a iniciativa de tentar formar governo — algo que dependerá de complexas negociações de coligação.
“Mostrámos não só aos Países Baixos, mas também ao mundo, que é possível derrotar os movimentos populistas e de extrema-direita”, afirmou Jetten após conhecer as projeções.
O D66 surge agora como eixo de um “regresso ao centro” — o campo político onde Jetten tenta construir pontes entre liberais, sociais-democratas e ecologistas, num Parlamento altamente fragmentado.
Cordão sanitário à extrema-direita
Geert Wilders viu o seu partido perder quase um terço dos assentos parlamentares, de 37 para 26, depois de um breve período no poder. Apesar do resultado renhido, os restantes partidos já declararam que não negociarão com o PVV, impondo um cordão sanitário à extrema-direita.
Esse isolamento de Wilders abre espaço a entendimentos entre o D66 e partidos como o CDA (centro-direita), o GroenLinks-PvdA (esquerda verde-socialista) e, possivelmente, o VVD (liberal-conservador). Ainda assim, formar uma maioria estável exigirá uma delicada engenharia política — e provavelmente meses de negociações.
Entre o pragmatismo e a esperança de Rob Jetten
Antigo ministro do Clima e da Energia, Jetten foi inicialmente apelidado de “Robô Jetten” pelo seu discurso técnico. Hoje é visto como uma figura otimista, empática e moderna, que fala com clareza sobre os desafios do país: crise na habitação, transição ecológica, educação e imigração. “Sim, conseguimos!” foi o seu mote.
O seu programa propõe construir dez novas cidades junto a grandes eixos de transporte, para responder à escassez habitacional, e investir fortemente na educação, com mais bolsas e limites nos juros dos empréstimos estudantis.
Defensor de uma economia “que prospere dentro dos limites do planeta”, Jetten combina políticas liberais com forte consciência ambiental e social — uma combinação que parece ter mobilizado tanto jovens como o eleitorado cansado do discurso de medo.
Visibilidade LGBTQ+ que importa
Se for confirmado como primeiro-ministro, Rob Jetten marcará um momento histórico: o primeiro chefe de governo abertamente gay de um país que, há 25 anos, foi o primeiro do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Jetten juntar-se-á assim a outros exemplos como a antiga Primeira-Ministra Johanna Sigurdardottir da Islândia em 2010; Xavier Bettel, do Luxemburgo em 2015, ou ainda Gabriel Attal de França em 2024.
A sua orientação sexual não dominou a campanha — e isso, por si só, é revelador. Mostra o grau de aceitação social nos Países Baixos e a maturidade política de um país onde a diversidade é vista como parte da sociedade.
Ainda assim, o simbolismo é inegável: num continente onde forças anti-LGBTQ+ voltam a ganhar fôlego, a possível liderança de Jetten reforça que os valores democráticos, a inclusão e os direitos humanos continuam a ter expressão política concreta.

Mas Jetten não é apenas símbolo político — é também uma figura pública próxima e autêntica. A sua relação com o hóquista argentino Nicolas Keenan, atleta olímpico e abertamente bissexual, tornou-se parte dessa imagem de normalização e visibilidade. O casal anunciou o noivado em 2024 e planeia casar no próximo verão.
Keenan afirmou em entrevista que “não sente estar a fazer nada de especial, apenas a viver a vida como quer vivê-la”.
Ao lado de Jetten, Keenan tornou-se símbolo de como o afeto e a visibilidade podem coexistir com a vida pública e a liderança política — uma imagem rara e inspiradora num tempo em que o ódio e a desinformação ainda tentam silenciar as pessoas LGBTQ+.
Um futuro ainda por escrever
Rob Jetten terá pela frente um duplo desafio: governar e inspirar. Governar um país politicamente dividido, mas também reafirmar o papel dos Países Baixos como referência de direitos humanos na Europa.
Jetten terá a possibilidade de transformar o discurso vigente num novo tom de esperança, um líder que aposta no diálogo e na inclusão em vez do medo e da exclusão. E, ao fazê-lo, envia a mensagem de que é possível derrotar o populismo sem abdicar da empatia e dos valores da liberdade, da igualdade e da democracia.
Num tempo em que a extrema-direita cresce, o caminho de Jetten é, ao mesmo tempo, uma vitória pessoal e um sinal coletivo de resistência — de que a política pode, ainda, ser feita com coragem, compaixão e convicção. O futuro escrever-se-á também por aí.
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