O mito do macho alfa: como uma falácia sustenta a masculinidade tóxica e oprime mulheres e comunidade LGBTQ+

O mito do macho alfa: como uma falácia sustenta a masculinidade tóxica e oprime mulheres e comunidade LGBTQ+

Durante décadas, a ideia do “macho alfa” dominou discursos sobre masculinidade. Um homem supostamente dominante, competitivo e agressivo, que lidera pela força e impõe respeito. Este estereótipo foi popularizado a partir de estudos antigos sobre lobos em cativeiro e acabou absorvido por discursos conservadores e misóginos, muitas vezes promovidos por influencers, gurus de masculinidade e incels. Mas há um problema: é tudo uma falácia.

A origem e o desmentido

O termo “macho alfa” foi criado por Rudolf Schenkel nos anos 40, num estudo sobre lobos em cativeiro. Mas mais tarde, o biólogo David Mech, um dos maiores especialistas em lobos, percebeu que o conceito não se aplicava a lobos selvagens. Ele próprio escreveu que o termo era errado e prejudicial, porque se baseava em observações de animais em contextos não naturais. Os lobos, em liberdade, vivem em grupos familiares cooperativos [.pdf] — não em hierarquias brutais dominadas por um macho dominante.

Então, como é que os lobos e lobas determinam a ordem da alcateia, se não for através da luta, da violência e do domínio psicológico?

A resposta é fácil, segundo Kira Cassidy, uma investigadora associada do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos. Tudo se resume não à força e à violência, mas antes à sabedoria e à experiência. “Não se trata de uma luta para chegar à posição de topo. São simplesmente os animais mais velhos ou progenitores. Ou, no caso de crias do mesmo sexo, é uma questão de personalidade“.

Apesar disso, o conceito ganhou vida própria. Foi aplicado a seres humanos como uma “lei da natureza”, e transformou-se numa justificação para comportamentos machistas e autoritários, como se fossem instintivos e inevitáveis.

A ciência desmonta o mito

Um estudo recente publicado na PNAS, liderado por equipas do Instituto Max Planck e da Universidade de Montpellier, analisou 253 estudos sobre 121 espécies de primatas. A conclusão? A dominância masculina não é a regra.

Apenas 17% das espécies analisadas mostram dominância clara dos machos. Em 13% dominam as fêmeas. E a maioria — 70% — vive em estruturas de poder ambíguas ou partilhadas.

É difícil, mesmo para cientistas, libertarem-se dos seus próprios preconceitos culturais”, explicou Élise Huchard, co-autora do estudo. Ou seja, as ideias de poder masculino absoluto refletem mais as visões humanas do que a realidade animal. “As relações de poder entre homens e mulheres são muito mais flexíveis do que se supõe”, explica Dieter Lukas, co-autor do estudo.

O impacto social: do mito à violência

Este mito do “macho alfa” tem alimentado uma masculinidade tóxica que se traduz em comportamentos de dominação, agressividade e desvalorização do cuidado e da empatia. No plano cultural, reforça estereótipos de que homens “verdadeiros” devem ser duros, rudes e superiores — e que todos os outros (homens sensíveis, LGBTQIA+, feministas) são “fracos”.

O problema vai além do estigma. Esta ideologia tem sido usada para justificar discursos de ódio e violência, especialmente contra pessoas LGBTQIA+ e mulheres. Plataformas digitais estão repletas de criadores de conteúdo que promovem esta visão, associando masculinidade ao domínio, à submissão feminina e ao desprezo pelas identidades diversas.

As vítimas do “alfa”

Para quem não se enquadra neste modelo, as consequências são graves. Jovens LGBTQIA+, ou percecionados como tal, são alvo frequente de bullying e violência escolar com base nestes estereótipos. Homens gays e bissexuais são julgados por não se comportarem de forma “viril”. Homens trans enfrentam pressão para provar a sua masculinidade. Mulheres lésbicas e pessoas não binárias são invalidadas por não se submeterem à lógica da masculinidade dominante.

Também o movimento feminista é alvo constante dos autoproclamados “alfas”. Para eles, a igualdade de género é uma ameaça à sua autoridade. Mas o que estes discursos ignoram é que o verdadeiro poder reside na diversidade, na colaboração e no cuidado mútuo — valores que muitas vezes são invisibilizados porque não encaixam na narrativa da força bruta.

Uma alternativa possível

Desconstruir o mito do macho alfa é essencial para promover modelos de masculinidade mais saudáveis, plurais e inclusivos. Esta não é apenas uma tarefa académica, é também uma urgência social. Enquanto continuarmos a romantizar a dominação e a força bruta como sinónimos de valor, continuaremos a perpetuar violências, desigualdades e exclusões. É tempo de rejeitar rótulos ultrapassados e abrir espaço para novas formas de existência, onde todas as masculinidades — e todas as identidades — possam florescer com liberdade, cuidado e dignidade.

Agora cabe-nos a nós, como sociedade, desligar-nos dos estereótipos e criar novas formas de ser homem — ou simplesmente ser — em liberdade.



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Uma resposta a “O mito do macho alfa: como uma falácia sustenta a masculinidade tóxica e oprime mulheres e comunidade LGBTQ+”

  1. Maravilhoso artigo! Obrigado! Não podia concordar mais. Sofro desde que me lembro, preso aos preconceitos que me moldaram e ainda hoje tento romper para ser livre, livre dessa masculinidade falsa e pejorativa. Através dos meus filhos tentarei mudar o mundo. Farei o meu melhor! Abraço forte!

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