
Durante anos, o acesso de pessoas trans a casas de banho e outros espaços públicos tem sido apresentado como um risco iminente para mulheres e raparigas. No entanto, os dados continuam a desmontar essa narrativa.
No Reino Unido, apenas quatro queixas formais relacionadas com a presença de mulheres trans em casas de banho foram registadas desde 2022. A conclusão surge num relatório da TransLucent, baseado em centenas de pedidos de acesso à informação dirigidos a 382 entidades públicas, incluindo autarquias, hospitais do NHS e serviços de apoio a vítimas de violência doméstica.
Em instalações públicas como piscinas, centros de lazer e edifícios municipais, a esmagadora maioria das respostas indicou zero queixas. Num dos raros casos registados, a reclamação dizia respeito a uma pessoa cisgénero num espaço considerado “errado”, e não a uma pessoa trans. Noutra investigação, abrangendo uma área com mais de 16,5 milhões de habitantes, surgiram apenas duas queixas, nenhuma delas baseada em factos confirmados.
Estes números expõem o essencial: o chamado “problema das casas de banho” é, na prática, um não-assunto. A sua persistência resulta menos de incidentes reais e mais de uma construção política alimentada por setores da direita radical e por plataformas mediáticas abertamente hostis às pessoas trans.
A principal ameaça à segurança das mulheres é o homem cisgénero
A retórica repete-se. Em nome da “segurança das mulheres”, exigem-se exclusões, restrições e políticas punitivas. Contudo, a própria investigação criminológica no Reino Unido mostra que a principal ameaça à segurança das mulheres continua a vir de homens cisgénero. Em média, uma mulher é morta por um homem a cada três dias no país.
Ainda assim, grupos ditos “críticos do género” distorcem estes dados, equiparando falsamente mulheres trans a homens e usando a violência masculina como arma retórica contra uma minoria já vulnerabilizada.
O relatório da TransLucent identifica um mecanismo recorrente: a criação de uma perceção de crise onde ela não existe. Cenários hipotéticos são tratados como factos consumados, e o desconforto ideológico de alguns grupos é elevado à categoria de risco público. Perante esse ruído, instituições sentem-se pressionadas a agir, não com base em dados empíricos, mas no medo de polémicas fabricadas e das perceções.
Importa sublinhar outro ponto central do relatório. O conceito de “espaços de sexo único” não tem uma definição legal clara no Reino Unido, mas tornou-se um símbolo político. Deixou de servir discussões práticas sobre segurança e passou a funcionar como marcador ideológico, frequentemente mobilizado para legitimar exclusões.
“Por trás das estatísticas estão pessoas reais“, reitera a associação. Elas são mulheres trans que usam casas de banho, acedem a cuidados de saúde ou procuram proteção contra a violência doméstica não estão a fazer ativismo. Estão a tentar viver em segurança e dignidade.
Portugal não está imune à instrumentalização da comunidade LGBTQ pela direita radical
Esta instrumentalização não se limita ao contexto britânico. Em Portugal, a violência contra as mulheres continua a ser uma realidade estrutural e letal. Em 2025, pelo menos 24 mulheres foram assassinadas até 15 de novembro, a maioria em contextos de violência doméstica. Nenhum destes crimes teve como origem a presença de pessoas trans em espaços públicos. Ainda assim, o debate mediático insiste em desviar atenções, criando bodes expiatórios convenientes.
Quando o medo é fabricado e direcionado, quem perde são todas as mulheres. Perde-se foco na violência real, perdem-se recursos para a prevenção eficaz, e reforça-se um clima de suspeição que atinge, em particular, mulheres trans, mas que acaba por policiar corpos, comportamentos e existências femininas em geral.
Os dados não mentem: a violência contra as mulheres exige respostas sérias, estruturais e baseadas na realidade. Tudo o resto é ruído político com consequências muito concretas.
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