Presidenciais e a cobardia política: quando a neutralidade rima com cumplicidade

Presidenciais e a cobardia política: quando a neutralidade rima com cumplicidade

Na imagem: António José Seguro Presidenciais 2026 (via Facebook)

Há momentos em que a neutralidade deixa de ser prudência. Passa a ser cumplicidade. Este é um desses momentos.

A segunda volta das presidenciais não é uma escolha confortável. Mas é uma escolha simples. Entre António José Seguro e André Ventura, não está em causa apenas uma ideologia. Está em causa a própria arquitetura democrática.

Insistir na ideia de “não tomar posição”, como uma série de líderes políticos escolheram fazer de imediato, é uma forma elegante de fugir à responsabilidade. A neutralidade, quando a democracia está sob ataque, não é isenção. É proteção passiva do agressor.

António José Seguro venceu a primeira volta porque percebeu o momento. Não se apresentou como salvador. Apresentou-se como agregador e como travão às forças anti-democráticas. Num país cansado de ruído, de bullying e de insultos, Seguro ofereceu contenção. Naquela que foi uma das suas maiores críticas – não despertar grandes paixões – o candidato democrático oferece previsibilidade institucional e respeito.

Este é o momento de derrotarmos o medo e erguermos a esperança. A nossa vitória do dia 8 de fevereiro será a vitória de Portugal. A vitória de todos os portugueses que amam a liberdade e que amam a democracia. – António José Seguro.

O seu percurso não foi fácil. Teve de se impor ao próprio partido. Teve de enfrentar um PS ainda preso a lógicas internas e receios antigos, é certo, mas avançou sem aparato, sem populismo, sem confronto gratuito com adversários que se hostilizavam. E por entre golpes de teatro e insinuações que baixavam o nível da discussão política durante a campanha e os debates, Seguro elevou-se e ganhou.

Ganhou porque existe um eleitorado que não aceita que a Presidência da República seja usada como arma política. Ganhou porque há uma maioria silenciosa que percebe o risco de normalizar o discurso autoritário.

À esquerda, a leitura foi imediata. Não houve hesitações quando LIVRE, PCP e BE anunciaram o seu apoio a Seguro na segunda volta. Perceberam desde logo que este não é o momento para purismos e para vincar diferenças entre partidos. Este é, sim, o momento para defesa ativa e responsável da democracia.

À direita, pelo contrário, o PSD e a IL preferiram uma neutralidade estratégica, mas reveladora. Luís Montenegro prefere não decidir para não provocar Ventura, de cujo apoio parlamentar tem dependido para viabilizar iniciativas do Governo. É uma escolha política, sim. Mas é ainda mais medo de perder eleitorado para a extrema-direita. E esse medo tem custo democrático, sabendo nós que no final o lobo come sempre a ovelha. E Montenegro parece caminhar para esse desfecho.

Por isso, o gesto de várias figuras da direita democrática é tão relevante. Quando antigos ministros, autarcas, deputados e dirigentes afirmam que votarão em Seguro por “clareza democrática”, estão a dizer o que as lideranças se recusam a assumir. Há linhas que não se negociam.

José Pacheco Pereira, histórico dirigente do PSD, por exemplo, disse-o sem rodeios: vota, ainda que sem entusiasmo, em Seguro, pois “um voto contra o Chega e contra André Ventura é um dos elementos fundamentais hoje da interpretação política que se possa fazer em Portugal.” Este detalhe é essencial. A democracia não se defende somente com entusiasmo, defende-se também com responsabilidade e coerência.

Também o deputado da Iniciativa Liberal, Carlos Guimarães Pinto, explicou a sua posição com algumas farpas a quem não teve a coragem de se afirmar liberal: “Vou votar em Seguro, demonstrou que consegue colocar o país à frente do seu ego e de interesses partidários.”

Importa recordar, em especial neste espaço, quem é António José Seguro quando os direitos estão em causa. Em 2008, num PS dividido e hesitante, defendeu a liberdade de voto no Parlamento sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Fê-lo quando era politicamente mais cómodo calar. Fê-lo antes da lei ser aprovada, em 2010. Esse posicionamento não foi oportunismo. Foi coerência democrática. Foi a compreensão de que direitos humanos não são acessórios. São estruturais numa democracia livre e saudável.

É urgente recuperarmos o sentido de comunidade e restaurarmos o nosso chão comum, que nos permite viver em paz e em harmonia – António José Seguro.

André Ventura, por seu lado, já obteve o que queria. Reforçou-se. Normalizou-se. Impôs o seu enquadramento discursivo. Mesmo perdendo a segunda volta – cenário que não considero único possível – sai mais forte. É por isso que cada silêncio conta. Cada hesitação conta. Cada falta de coragem conta. E muito.

Reduzir esta eleição a uma disputa entre esquerda e direita é uma manobra conhecida. Serve para esconder o essencial: que a clivagem real é entre democracia liberal (no seu significado real e não enviesado como é frequentemente usado em Portugal) e o iliberalismo. Entre pluralismo e autoritarismo. Entre Constituição e ressentimento. Pergunto a democratas que escolhem hesitar na resposta: qual a dúvida?

As democracias não caem de um dia para o outro. Corroem-se. Um silêncio aqui. Um adiamento ali. Um “não é o momento”. Até deixar de haver momento. E Portugal poderá romper de vez com um cordão sanitário contra a direita radical em tempo recorde. Pergunto a democratas que escolhem hesitar na resposta: qual a pressa?

No dia 8 de fevereiro, votar em António José Seguro não é um gesto de conforto. Pode, aliás, ser um gesto de pura racionalidade, numa política que se joga cada vez mais em termos de sensações e perceções. Mas este é o momento para o fazermos e afirmar que há limites que não se ultrapassam. É dizer que na Presidência da República se defendem os valores democráticos da igualdade e da liberdade. Não pode, como tal, estar refém de qualquer tirano. De alguém que transformou o seu percurso político numa sucessão de ilegalidades, bullying e violência contra quem é mais vulnerável, fazendo sempre vista grossa a si próprio.

Esperança de que vamos ter um futuro melhor. Esperança num Portugal que valorize o trabalho e o mérito, que não deixe ninguém para trás – António José Seguro.

Seguro pode ser a opção que faz real jus ao seu nome, mas, no meio de todo o alvoroço ruidoso e corrosivo, é precisamente esse que o país e os seus valores constitucionais precisam. Um futuro mais democrático, mais liberal e, sim, mais Seguro.

No dia 8 de fevereiro, votar será um ato de absoluta convicção democrática. E lá estaremos para a defender, seguramente.



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