
Entre o terror e a memória, O Meu Amigo Freddy Krueger é um solo de teatro escrito, encenado e interpretado por André Murraças. A peça parte da sua adolescência nos anos 90.
Em palco, acompanha-se a história de um jovem que encontra refúgio no cinema de terror. Na escola, enfrenta bullying, gordofobia e homofobia. No escuro da sala de cinema, encontra outra coisa: identificação.
Nos filmes Pesadelo em Elm Street, surge uma figura monstruosa que ataca adolescentes nos seus sonhos. Para muitas pessoas, Freddy Krueger é apenas um assassino icónico do cinema de terror. Para este jovem, tal como muitos outros, era companhia.
Um regresso à infância e ao terror
O espectáculo olha para a adolescência à distância. Questiona os traumas que se instalam nos recreios e nas salas de aula. E lança uma pergunta direta: pode o terror do ecrã ser menor do que o terror da vida real?
O lado queer atravessa a criação de Murraças. O “estranho” da sua juventude é colocado em diálogo com a própria monstruosidade de Freddy. A diferença, tantas vezes ridicularizada, ganha aqui uma dimensão simbólica.
Desde os primórdios do cinema, o terror tem sido um território fértil para leituras queer. Os monstros são corpos desviantes. Encarnam desejos, medos e transgressões à norma heterossexual e cisgénero. São alvo a abater, mas também figuras de poder.
A saga Pesadelo em Elm Street como ícone LGBTQ+
A saga A Nightmare on Elm Street, criada por Wes Craven, tornou-se um fenómeno cultural nos anos 80. Mas foi o segundo filme, A Nightmare on Elm Street 2: Freddy’s Revenge, que ganhou estatuto de culto queer.
O protagonista, interpretado por Mark Patton, é um rapaz adolescente atormentado por uma presença que quer “sair de dentro dele”. O subtexto é difícil de ignorar quando o desejo reprimido, o medo da descoberta e a tensão homoerótica atravessam todo o filme.
Durante anos, o filme foi alvo de crítica. Hoje, é frequentemente analisado como uma alegoria involuntária sobre homossexualidade reprimida na América dos anos 80. Patton assumiu-se gay publicamente anos depois e recuperou o filme como parte da memória queer do cinema de terror.
Freddy tornou-se, assim, mais do que um vilão. Para muitas pessoas jovens queer, representava uma força marginal, temida pela norma, mas impossível de eliminar. Uma figura que devolvia, de forma distorcida, poder a quem se sentia excluído.
É nesse território ambíguo que o espetáculo de André Murraças se instala. Entre o medo e a catarse. Entre a violência e a sobrevivência. Ao reivindicar o terror como espaço de salvação simbólica, O Meu Amigo Freddy Krueger afirma uma ideia simples: é possível encontrar abrigo na diferença. Mesmo quando o mundo insiste em transformá-la num pesadelo.
O meu amigo Freddy Krueger
– Um espectáculo de André Murraças
São Luiz – Teatro Municipal, Sala Mário Viegas, Lisboa
De 19 de fevereiro a 1 de março
Quarta a sábado, 19h30; domingo, 16h
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