Francisco Rodrigues dos Santos: “A família pode integrar várias geometrias” após mudar de posição sobre casamento e adoção

Francisco Rodrigues dos Santos: “A família pode integrar várias geometrias” após mudar de posição sobre casamento e adoção
Francisco Rodrigues dos Santos, via Instagram.

Francisco Rodrigues dos Santos afirmou recentemente que já não tem as posições que defendia sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção por casais homossexuais.

A declaração foi feita no podcast Inventário Pessoal, conduzido por Mafalda Anjos, e marca uma mudança relevante face ao que defendera publicamente em 2016.

Na altura, sustentava que “o casamento, por génese, é entre um homem e uma mulher” e assumia ser “francamente contra a adoção por casais homossexuais”, invocando a ideia de complementaridade entre mãe e pai. Essas posições foram amplamente divulgadas e contribuíram para a imagem pública que muitas pessoas guardam do antigo líder do CDS – Partido Popular.

Hoje, a formulação é diferente e inequívoca: “Em matéria de costumes, por exemplo, o casamento homossexual, ou a adoção por casais homossexuais, eu hoje não tenho as posições que tinha, porque a vida encarregou-se de me mostrar que eu estava errado.” Esta importante declaração é um reconhecimento vital de erro num campo onde, tradicionalmente, a política prefere o silêncio ou mesmo a reafirmação à revisão. Basta recordarmos que Luís Montenegro nunca se reviu da associação que fez entre a orientação sexual ao abuso sexual de crianças.

A psicologia e o crescimento pessoal de Francisco Rodrigues dos Santos

A mudança não surge apresentada como cedência estratégica, mas como consequência de um processo pessoal. Rodrigues dos Santos (ou Chicão, como aprendeu a abraçar) enquadra essa transformação no percurso de crescimento que viveu desde que foi eleito presidente do partido aos 30 anos. “Nós, que crescemos com a câmara apontada, somos acompanhados na nossa própria evolução”, observa, sublinhando que manter os mesmos valores não implica chegar sempre às mesmas respostas, sobretudo quando a realidade social também se transforma.

Um dos fatores decisivos que aponta é o facto de estar a estudar Psicologia. Esse contacto levou-o, segundo as suas palavras, a questionar as próprias certezas e a valorizar a dúvida como espaço de aprendizagem. “O ‘não sei’ é uma ótima resposta”, afirma, acrescentando que “mudar de opinião é bom”. Para alguém que reconhece ter tido posições “muito legitimistas e perentórias” em temas fraturantes, esta valorização da incerteza representa uma inversão relevante.

Na entrevista, recorre ainda à ideia de que “uma pessoa que vive de certezas absolutas é uma ilha” e evoca José Saramago: “É preciso sair da ilha para ver a ilha.” A metáfora serve-lhe para descrever o que considera ter sido o seu próprio percurso: sair da bolha, expor-se a outras experiências, ouvir histórias concretas e permitir-se compreender realidades que antes observava à distância.

Esse processo é descrito em termos muito ligados à linguagem psicológica: “aceitação incondicional positiva”, “escuta ativa”, “compreensão empática”. É, a seu ver, fundamental colocarmo-nos nos sapatos de outras pessoas.

A revisão das posições sobre casamento e adoção é, neste enquadramento, apresentada como consequência de um contacto mais próximo com pessoas e famílias reais, e não apenas com conceitos abstratos.

O poder da mudança num mundo polarizado

Num contexto político marcado pela polarização e pela radicalização discursiva, a admissão de erro tende a ser vista como fragilidade. No entanto, pode também ser entendida como maturidade. Rever uma posição pública, sobretudo quando foi defendida de forma firme no passado, implica reconhecer limites, aceitar a complexidade da experiência humana e admitir que a própria visão do mundo pode estar incompleta.

Nada disto apaga o impacto que declarações anteriores tiveram. Mas o reconhecimento explícito de que estava errado introduz um elemento raro no debate público: a ideia de que a evolução é possível e que as convicções não são imutáveis. Para uma sociedade que continua a discutir a legitimidade e a dignidade das famílias LGBTQIA+, ouvir alguém que antes se opôs frontalmente a esses direitos afirmar que mudou de opinião tem peso simbólico.

No fundo, esta história não é apenas sobre um percurso individual. É sobre a possibilidade de transformação. Num espaço público onde a rigidez é frequentemente recompensada, assumir que se aprendeu com a experiência e que se cresceu com o contacto com outrém é um gesto que merece ser analisado com seriedade. Porque, na política como na vida, a capacidade de mudar pode ser um dos sinais mais claros de que continuamos disponíveis para nos tornarmos melhores pessoas.


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