Spirit Day: dados mostram que bullying LGBTI+ continua a ser um problema nas escolas portuguesas

Spirit Day: dados mostram que bullying LGBTI+ continua a ser um problema nas escolas portuguesas

Assinalado esta quinta-feira, 15 de outubro, o Spirit Day volta a mobilizar pessoas, organizações e instituições contra o bullying dirigido a jovens LGBTI+.

A iniciativa, promovida pela organização estadunidense GLAAD, convida à utilização da cor roxa como símbolo de solidariedade. Em Portugal, os dados mais recentes revelam um aumento das situações de bullying nas escolas, enquanto diferentes investigações mostram que estudantes LGBTI+ enfrentam desafios específicos relacionados com a discriminação, a violência e a falta de respostas adequadas.

Criado em 2010, o Spirit Day pretende sensibilizar para as consequências do bullying motivado pela orientação sexual, identidade ou expressão de género. Mais do que um gesto simbólico, a data constitui uma oportunidade para refletir sobre o papel das escolas, das famílias e da sociedade na prevenção da discriminação e na construção de ambientes onde todas as pessoas jovens possam sentir-se seguras.

Bullying nas escolas portuguesas está a aumentar

Segundo o relatório do Programa Escola Segura da Polícia de Segurança Pública (PSP), divulgado em setembro, foram registadas 155 situações de bullying e 25 de cyberbullying no ano letivo de 2025/2026, respetivamente mais 25 e mais uma do que no ano anterior. No total, a PSP contabilizou 2.998 crimes dentro e nas imediações das escolas, um aumento de 3,5%, com as ofensas corporais e as injúrias e ameaças a registarem subidas de 10,5% e 3,1%.

Também um relatório nacional sobre bullying e cyberbullying, publicado em fevereiro de 2025, revelou a dimensão do problema. Com base nas respostas de 31.133 estudantes, entre os 11 e os 18 anos, 5,9% declararam ter sido vítimas de bullying e 6,1% de cyberbullying. As taxas de vitimização foram particularmente elevadas entre raparigas e estudantes não bináries, evidenciando desigualdades nas experiências de violência escolar.

Embora os dados da PSP não distingam as situações motivadas por orientação sexual ou identidade de género, ajudam a compreender o contexto mais alargado da violência nas escolas portuguesas. Aliás, segundo a organização europeia IGLYO, Portugal continua sem recolher sistematicamente dados nacionais sobre bullying anti-LGBTI+, dificultando o conhecimento da verdadeira dimensão do problema e a definição de respostas específicas.

O que dizem os estudos sobre jovens LGBTI+?

Uma investigação desenvolvida no âmbito do projeto europeu FREE — Fostering the Right to Education in Europe, com participação da Universidade do Porto, recolheu respostas de 1.169 estudantes em Portugal, dos quais 47,1% se identificavam como LGBTQ+. Os resultados, divulgados em 2022 e posteriormente analisados em diferentes publicações científicas, evidenciaram desigualdades significativas nas experiências escolares.

Segundo os dados destacados pela IGLYO, mais de um terço dos episódios de bullying anti-LGBTI+ ocorreu dentro das próprias salas de aula, enquanto quase metade das vítimas considerou ineficazes as intervenções das escolas. Entre estudantes trans e não bináries, quase metade declarou sentir-se insegura em balneários e casas de banho, e uma proporção semelhante relatou situações em que docentes não respeitavam o seu nome escolhido.

Uma investigação publicada em 2024, também baseada nos dados do projeto FREE, identificou uma maior presença de estudantes LGBTI+, particularmente jovens trans e não bináries, entre os grupos com níveis mais elevados de vitimização e sofrimento psicológico. Por outro lado, a perceção de segurança na escola e a aceitação por parte de colegas e docentes surgiram como importantes fatores de proteção.

Outro estudo português, publicado em 2024 na revista científica Sexuality Research and Social Policy, encontrou uma associação entre conteúdos escolares menos inclusivos e indicadores de pior bem-estar psicológico entre estudantes LGBTI+. A investigação, baseada nas respostas de 989 estudantes, concluiu que jovens LGBTI+ que consideravam os conteúdos escolares menos inclusivos apresentavam maior probabilidade de reportar sintomas depressivos, níveis inferiores de autoestima e menor resiliência.

Prevenir o bullying exige respostas de toda a comunidade escolar

Em entrevista ao Público, a especialista Kristen Varjas alertou para a influência que a normalização de comportamentos discriminatórios no discurso público pode exercer sobre crianças e jovens.

“Vemos políticos que, através das redes sociais, não estão necessariamente a respeitar certos grupos da população e estão, eles próprios, a agir de maneira que incentivam comportamentos de bullying“, faz notar.

A especialista defendeu ainda uma abordagem que combine regras claras e consequências consistentes com sistemas de apoio psicológico, acompanhamento das vítimas e intervenção junto de quem pratica bullying. Esse trabalho, sublinhou, deve envolver também as famílias e pessoas cuidadoras.

Quando não há consequências consistentes nas escolas, estudantes não sabem o que é aceitável e o que não é.

Esta necessidade de respostas abrangentes é particularmente relevante para jovens LGBTI+, cujas experiências demonstram que a segurança escolar não depende apenas da ausência de agressões. O respeito pela identidade de cada estudante, a preparação de docentes e a existência de mecanismos eficazes de denúncia e intervenção são igualmente fundamentais.

Neste Spirit Day, vestir roxo continua a ser uma forma de demonstrar solidariedade. Contudo, os dados recordam que esse compromisso precisa de se traduzir em medidas concretas. Combater o bullying LGBTI+ é mais do que impedir a violência: é garantir que nenhuma pessoa jovem tenha de esconder quem é para se sentir em segurança.


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