Tendo nascido em 1995, foram poucos os livros de literatura jovem-adulta e novo-adulta a que tive acesso enquanto crescia. Como o inglês só começou a fazer verdadeiramente parte da minha vida após algumas aulas extracurriculares, em paralelo com o que aprendia na escola durante o terceiro ciclo, passei muitos anos dependente dos livros que chegavam a Portugal através de traduções.
Com a chegada de dispositivos como o Kobo e a crescente familiaridade com a língua inglesa, adquirida ao longo dos anos, comecei, há cerca de sete anos, a aventurar-me pela leitura de autores que, até então, me eram praticamente inacessíveis. Entre recomendações literárias descobertas no velho Twitter e sugestões encontradas no Goodreads, fui conhecendo histórias e vozes que, de outra forma, talvez nunca se tivessem cruzado comigo.
E houve autores que, tendo entrado na minha vida nessa altura, acabaram por ficar. Não apenas pelas histórias que me contaram, mas também pela forma como, quase sem me aperceber, me foram moldando enquanto leitor e influenciando aquilo que, cada vez mais, procuro na literatura. Algo ainda extraordinário? Serem abertamente queer.
Adam Silvera

Adam Silvera, autor norte-americano, entrou no meu Kobo (versão portuguesa) assim que me cruzei com o seu livro They Both Die at the End (Wook, versão portuguesa). Lido no original, numa altura em que a tradução portuguesa ainda demoraria cerca de dois anos a chegar, o título rapidamente captou a minha atenção. Não só por ser uma história de literatura jovem-adulta protagonizada por dois rapazes gays e latinos, mas também pela presença de uma personagem invisível que serve de alicerce a toda a narrativa: a morte.
Partindo da premissa de um mundo onde as pessoas são avisadas, com menos de 24 horas de antecedência, de que vão morrer, Adam Silvera fala-nos, acima de tudo, da vida e da complexidade da condição humana. Das relações que construímos com familiares, amigos e desconhecidos, do perdão, da aceitação e da paz que podemos encontrar perante a inevitabilidade da morte. É uma história que, apesar de nos revelar o destino das personagens logo no título, nos desafia a refletir sobre aquilo que fazemos com o tempo que temos e sobre o que significa, verdadeiramente, viver.
Depois deste livro, publicado originalmente em 2017 e editado em Portugal em 2019, com uma nova edição em 2024, Adam Silvera continuou presente nas minhas leituras. Não apenas através deste universo literário, que conta já com três livros, mas também de obras como Tudo o Que Restou de Nós (que li no original, History Is All You Left Me), onde o autor nos aproxima de Griffin e da forma como este enfrenta o luto pela morte do seu primeiro namorado. Ou More Happy Than Not, que acompanha um jovem marcado pelo suicídio do pai, pela descoberta e aceitação da sua sexualidade e pelo receio da rejeição por parte daqueles que o rodeiam.
Para alguém que, até então, praticamente não tinha encontrado esta representação nos livros que lia, estas histórias tiveram um impacto que ultrapassou largamente a experiência da leitura. Levaram-me a procurar, a cada novo livro, personagens, vivências e perspetivas nas quais me pudesse reconhecer, numa representação que sinto ter perdido alguma visibilidade no nosso mercado editorial ao longo dos últimos dois anos.
Mas aquilo que mais me marcou em Adam Silvera foi precisamente a forma como nunca reduziu as suas personagens à sexualidade. Pelo contrário, deu-lhes espaço para serem complexas, contraditórias, imperfeitas e profundamente humanas. Para amarem, sofrerem, errarem, perdoarem e descobrirem quem são. Esta abordagem tão abrangente, sensível e madura ajudou-me também a validar a minha própria identidade, a compreender melhor quem sou e a aceitar, de forma cada vez mais plena, todas as diferenças que fazem parte de mim.
Entretanto, o autor aventurou-se por outros géneros, nomeadamente a fantasia, com uma trilogia iniciada em Infinity Son (Wook). Embora ainda tenha esta saga por ler, há algo particularmente significativo na possibilidade de encontrar personagens gays a protagonizar histórias heroicas, sem que a sua sexualidade tenha de ser o centro de tudo aquilo que as define. Afinal, também podemos ser heróis, salvar o mundo e protagonizar aventuras que, durante tanto tempo, pareceram reservadas a outros. E talvez seja precisamente por isso que Adam Silvera continuará a ocupar um lugar tão especial nas minhas recomendações literárias. Não apenas pelos livros que escreveu, mas por me ter mostrado que também havia espaço para pessoas como eu em histórias onde, até então, raramente me tinha encontrado.
Sonido Reyes

Este autor chegou à minha vida apenas este ano, depois de ter finalmente lido Guia para Lésbicas num Colégio Católico (Wook), publicado originalmente em 2022, ainda sob o nome de Sonora Reyes, e editado em Portugal em 2024. Hoje conhecido como Sonido Reyes, o autor conquistou-me com a sensibilidade das suas histórias e, sobretudo, com a forma profundamente humana como constrói as suas personagens. Importa referir que Sonora é um nome que Reyes aceita como fazendo parte do seu passado, reforçando que não o vê, pessoalmente, como um nome morto.
Foi impossível não me apaixonar por Yami e pela complexidade da sua relação com uma família conservadora. Mas foi também impossível não sofrer com ela, sobretudo pela forma como me revi na necessidade, quase inconsciente, de estar constantemente a provar o seu valor aos outros. Como se cada conquista, cada gesto e cada tentativa de corresponder às expectativas fossem uma preparação para um futuro que ainda não aconteceu, mas que vive permanentemente na sua cabeça: a possibilidade de ser expulsa de casa, afastada da família e rejeitada pela comunidade simplesmente por ser quem é.
É precisamente nesta representação do medo, muitas vezes silencioso, que Sonido Reyes me conquistou. Porque há algo particularmente doloroso em viver a antecipar uma rejeição que poderá nunca acontecer, mas que, ainda assim, condiciona a forma como nos relacionamos com os outros e connosco próprios. E há também algo profundamente libertador em encontrar essa experiência traduzida em palavras, através de uma personagem que parece compreender sentimentos que nem sempre sabemos explicar.
Todavia, foi com The Broposal (Kobo), publicado em 2025, que a minha admiração pelo autor se transformou num verdadeiro amor pela sua escrita. À primeira vista, encontramos uma premissa relativamente simples, até divertida: dois amigos que vivem juntos para dividir despesas e fazer face ao custo de vida. Mas, como tão bem acontece nas histórias que mais me marcam, esta aparente leveza esconde uma narrativa muito mais complexa.
Ao longo do livro, acompanhamos a descoberta da bissexualidade de um dos protagonistas e a forma como este começa a reconhecer a natureza abusiva da relação que mantém com a namorada. Conhecemos também Han, um imigrante sem documentos que vive diariamente com o receio de ser deportado, numa existência marcada pela insegurança e pela consciência de que a vida que construiu pode ser desfeita a qualquer momento.
E é nesta capacidade de cruzar o amor, a amizade e a descoberta da identidade com problemas sociais tão concretos que encontro aquilo de que mais gosto na escrita de Sonido Reyes. As suas personagens não vivem isoladas da realidade, nem os seus conflitos se resumem à procura de uma relação amorosa. São pessoas atravessadas por medos, desigualdades, expectativas familiares e circunstâncias que nem sempre conseguem controlar.
Talvez seja por isso que estas duas leituras me tenham marcado tanto. Porque, mesmo partindo de experiências diferentes das minhas, encontrei nelas sentimentos que reconheço, inquietações que compreendo e realidades que a literatura me permite conhecer com maior proximidade. E porque Sonido Reyes me voltou a recordar algo que considero essencial nas histórias que procuro: a representação importa, mas importa ainda mais quando nos permite olhar para lá de nós próprios, compreender a vida dos outros e, nesse processo, descobrir também um pouco mais sobre quem somos.
Com comédia à mistura, Sonido entrega uma história profunda, onde a própria componente sexual, quando existe, consegue rivalizar com certos eróticos. A amizade, e futura relação amorosa entre Kenny e Han é tão fácil de gerar identificação no leitor, que quero desesperadamente comprar, também, a versão física do livro.
Alice Oseman

Não foi intencional, mas se comecei com o Adam, terminar com Oseman faz-me muito sentido. Na verdade, Oseman foi a minha entrada no género LGBT, onde a sua banda desenhada Heartstopper (Cultura Editora) pareceu a forma perfeita de experimentar o género. Só o facto de admitir isto parece-me triste, mas demonstra muito como ainda encarava estas leituras: com vergonha de saberem, especialmente quando ainda não me tinha assumido. Talvez, por isso, ao fim destes anos e de uma série e filme de televisão, as personagens criadas por Alice ressoem tanto em mim, mesmo que, anos depois, procure a maturidade de outras histórias.
Tudo isto não só me mostra o quanto cresci enquanto leitor e pessoa, como reforça a importância de termos acesso aos livros. Uma disponibilidade que deveria ser transversal a todos os géneros literários, faixas etárias e formatos, permitindo que cada pessoa encontre histórias que a representem, desafiem ou simplesmente ajudem a compreender melhor o mundo.
Um exemplo recente são os livros da série Heated Rivalry (Penguin), disponíveis para requisição na BiblioLED, em formato digital. Um acesso que, embora possa parecer um pequeno passo nos dias de hoje, sobretudo quando falamos de literatura erótica, representa uma mudança significativa face à realidade de há três ou cinco anos. Durante muito tempo, o contacto com estas histórias e com a representação LGBTQ+ aconteceu sobretudo através da blogosfera, das redes sociais, das organizações e dos movimentos que procuravam dar visibilidade a experiências tantas vezes ignoradas pelo mercado editorial.
E isto importa. Importa muito.
Especialmente quando assistimos a contradições cada vez mais evidentes em determinadas políticas e discursos sociais que, por um lado, continuam longe de reconhecer, respeitar e celebrar a diferença e, por outro, insistem na importância da saúde mental e do bem-estar. Como podemos falar verdadeiramente de saúde mental sem reconhecer o impacto que a invisibilidade, a rejeição e a ausência de representação podem ter na forma como alguém cresce e aprende a aceitar-se?
Somos seres profundamente heterogéneos, feitos de experiências, identidades, desejos e inquietações que não cabem numa única narrativa. E é precisamente por isso que a literatura pode surgir como um abraço inesperado. Um espaço de descoberta, de conforto e, para muitos, de validação de quem somos, daquilo que sentimos e de quem desejamos vir a ser.
Estou eternamente grato a Adam, Sonido e Alice pelas histórias que trouxeram à minha vida e pela forma como, cada um à sua maneira, me ajudou a compreender melhor o mundo e a mim próprio. Espero que, nos próximos anos, esta lista continue a crescer, com novas vozes, novas personagens e perspetivas que ainda desconheço.
Até lá, continuarei a devorar os livros que tanta falta me fizeram enquanto crescia. Talvez porque, de certa forma, cada uma destas leituras seja também uma oportunidade de oferecer àquele rapaz que fui as histórias que ele merecia ter encontrado mais cedo.
Subscreve à nossa Newsletter Semanal Maravilha Aqui! 🙂
Todos os sábados de manhã receberás um resumo de todos os artigos publicados durante a semana. Sem stress, sem spam, a nossa orgulhosa Newsletter Semanal pode ser cancelada a qualquer momento! 🏳️🌈

Deixa uma resposta