O poder da juventude de Troye Sivan

A sua silhueta esguia e frágil esconde uma força quase inexplicável. Ela estreia-se apenas há uma semana na televisão para apresentar pela primeira vez nos Estados Unidos da América o seu novo álbum, “Blue Neighbourhood”. Logo no palco do The Tonight Show with Jimmy Fallon, canta “A truth so loud you can’t ignore… my youth. My youth is yours” enquanto se atira a uma dança de metamorfose quase réptiliana de libertação. Nós acreditamos nele. Troye Sivan, de 20 anos, está a dar os primeiros passos na música no que deverá ser uma carreira internacional de sucesso, com críticas da especialidade extremamente favoráveis e uma base de fãs esmagadora que já o acompanha há quase 15 anos.

Basta explorar um pouco o seu canal do YouTube, que mantém desde 2007 e já conta com quase 4 milhões de assinaturas e centenas de videos que continua a publicar semanalmente. Se no início ele se resumia à exposição do seu talento em típicos mas intrigantes versões de canções populares do momento, o Australiano de olhos mesmerizantes nascido na África do Sul cedo se juntou à geração de YouTubers que expunha a sua vida, humor e crescimento diante dos olhos de quem queria acompanhá-lo.

Mas foi apenas em 2015 que trouxe a sua verdade ao de cima num honesto depoimento de “Coming Out”, que lhe valeu mais de 6 milhões de visualizações. A importância destas confissões e da sua amplitude de alcance continua a ser uma das maiores armas da comunidade LGBT no eterno combate à inadequação e solidão que leva muitos adolescentes na posição de Sivan a tirarem as suas próprias vidas Ele próprio, numa segunda parte desse mesmo vídeo e em entrevista à Fuse, revela: “A mesma coisa que foi uma benção na minha vida pode levar alguém ao suicídio. Sempre que ouço do suicídio de um jovem LGBTQ, sinto demasiada frustração. Penso simplesmente em todo o potencial perdido apenas porque um pai ou um amigo não foi capaz de o aceitar e isso significou o fim de uma vida. Quero muito que os pais que fazem parte do meu público vejam estes videos. E percebam que a sua reacção tem uma influência enorme na vida dos seus filhos. Mostrar-lhes os dois lados da moeda: isto é como pode resultar ou isto é como pode acabar. Depende apenas de vocês”. Este poder esmagador do YouTube é algo que merece mais atenção e será objecto de uma análise mais aprofundada dentro em breve.

Voltando a foco a Troye e a “Blue Neighbourhood”, o seu primeiro álbum de originais depois de dois EPs lançados nos último ano e meio, trata-se de um delicioso e profundo sonho pop. É fácil traçar comparações com as melodias catchy de Taylor Swift ou a melancolia amorosa de Adele, duas das suas maiores fãs, mas Sivan é muito mais que um “flavour of the month”, ainda que o chamativo “WILD”, single de apresentação lançado em Setembro, já esteja a conquistar as rádios. A sua capacidade de criar paisagens de onirismo electrónico permeado de grande densidade na produção, enquanto expõe os seus sentimentos mais profundos nas palavras proferidas por uma voz cheia de corpo e emoção, é extasiante. Em muitos momentos, como nas etéreas “BITE” e “THE QUIET”, parece beber mais da fonte de inspiração de James Blake do que de Sam Smith, com o qual parece estar a ser muito comparado.

Na realidade Sivan e Smith têm apenas duas coisas em comum, ambos são músicos e ambos são homossexuais. No entanto Troye chegou ao mundo da música completamente esclarecido e sem esconder nada. Esse poder silencioso de alguém que decide nunca mentir por omissão, ignorando quaisquer obstáculos que isso possa colocar, é estrondoso e confere-lhe uma posição na música pop jovem quase única. A trilogia de videos de “Blue Neighbourhood”, que contém além de “WILD” também “FOOLS” e “TALK ME DOWN”, é um conjunto de curtas-metragens de um dramatismo cinematográfico surpreendente. Nele conta a sua história e a de um amigo de infância e pelo qual se apaixonou e, tragicamente, se afastou. Sivan diz à OUT: “Sou gay. Gosto de rapazes. Estas canções são sobre rapazes. Acho que algumas pessoas pensam que estou a tentar fazer uma grande declaração pelo facto de ter um rapaz nestes videos. Era suposto ter uma rapariga?

Na sua aparente fragilidade mora o potencial de conquistar o mundo. Tal como é, sem nunca se deixar a ele próprio para trás. Muita coisa está a mudar na visibilidade das pessoas LGBT e todos os campos e áreas e há que não esquecer que a permeabilidade formativa da juventude continua a ser o momento ideal para conquistar mentes e corações. E Troye Sivan está a actuar aí mesmo enquanto, simultaneamente, se torna universal. Continuem a existir mais exemplos como ele.

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