A história de Willem Arondeus, o resistente que combateu nazis: “Homossexuais não são cobardes!”

Comemora-se hoje o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto que pretende lembrar as vítimas do genocídio cometido pelo regime nazi e seus adeptos. Estes ceifaram a vida a, estima-se, 6 milhões de pessoas judias, 1 milhão de ciganas, 250 mil portadoras de deficiência física e mental e 9 mil homossexuais. Foi em 1945, neste dia, que se deu a libertação de Auschwitz, a maior rede de campos de concentração e símbolo máximo do Holocausto. Esta é a história de Willem Arondeus, o homem gay que, após bombardear um edifício nazi e antes de ser executado, afirmou, orgulhosamente, que “homossexuais não são cobardes!

Embora ser assumidamente gay possa ser ainda hoje sinónimo de prisão em muitos países, o século XX está repleto de exemplos de almas corajosas que se recusaram a esconder sua identidade.

O holandês Willem Arondeus é um desses nomes, embora desconhecido para muitas pessoas. Ele é um dos milhões que perderam a vida durante o regime nazi em plena Segunda Guerra Mundial. No entanto, o modo como viveu e a sua contribuição para o esforço de resistência merecem ser lembrados no dia de hoje.

Arondeus nasceu em Naarden, a leste de Amsterdão, em 1894, filho mais novo de um comerciante de combustível. Fugiu de casa aos 18 anos e fez amizade com artistas, para grande tristeza da família. Alguns historiadores acreditam que o atrito causado pela sua orientação sexual contribuiu para o rompimento com a última. Na verdade, Arondeus nunca mais teria contacto regular com ela após sair de casa.

Encorajado pelas novas amizades, tornou-se ilustrador, pintor e designer de pósteres e tapeçarias. Além de ter sido contratado para pintar um grande mural para a Câmara de Roterdão, Arondeus não obteve grande sucesso comercial como artista. Com pouco dinheiro, lutou muitas vezes para sobreviver.

No final da década de 1920, abandonou a ideia de se tornar pintor e concentrou-se na escrita. Publicou e ilustrou dois romances nos anos 30, seguidos por livros que exploram figuras famosas no mundo artístico dos Países Baixos.

Segundo os relatos, Arondeus nunca escondeu a sua homossexualidade. As relações entre pessoas do mesmo sexo são legais na Holanda há mais de 100 anos, e os primeiros registos de bares gays em Amesterdão datam de 1911. Arondeus viveu com o amante, Jan Tijssen, na capital holandesa por vários anos. Com o início da Segunda Guerra Mundial, separaram-se.

A Alemanha nazi invadiu a Holanda em maio de 1940. Encontrando-se bastante sobrecarregadas, as forças holandesas renderam-se em apenas cinco dias. Um movimento secreto de resistência holandesa estava ativo desde o início da guerra. As suas atividades foram assim intensificadas pela invasão alemã. Membros da resistência ofereceram esconderijo e abrigo a pessoas inimigas do regime nazi alemão: de aviadores feridos a judeus. Anne Frank e a família conseguiram abrigo precisamente em Amesterdão. Os nazis procuravam igualmente trazer de volta a criminalização da homossexualidade nos países que invadiram.

Arondeus tornou-se membro ativo da resistência holandesa e incentivou outras pessoas a resistir à invasão alemã. Desde o início que não acreditou na propaganda nazi que dizia que o povo judeu precisava de ser registado para segurança própria. Temia que houvesse razões mais sinistras para as autoridades alemãs quererem saber quem era judeu.

Um grupo de resistência ao qual Arondeus se juntou, Raad van Verzet (Conselho de Resistência), forjou documentos para que pessoas judias pudessem esconder a identidade.

No entanto, o regime nazi percebeu que, se comparasse os documentos falsos aos registos públicos da cidade de Amesterdão, poderia determinar quem detinha documentos falsos. A 27 de março de 1943, Arondeus liderou um pequeno grupo no bombardeio do Escritório de Registos Públicos de Amesterdão.

Arondeus, vestido como um capitão do exército alemão, levou mais de uma dúzia de combatentes da resistência ao escritório. Adormeceram os guardas, drogando-os, colocaram-nos num pátio, para que não fossem feridos, e depois colocaram as bombas que ali os levaram. Este episódio único levou a que 800 mil registos públicos fossem destruídos pelo fogo (15 % do total), recuperados 600 cartões em branco, o que fez com que o regime nazi tivesse maior dificuldade em conferir a veracidade dos documentos entregues pelas pessoas perseguidas. Este evento inspirou também a destruição de outros escritórios de registo por outras forças da resistência um pouco por todo o país.

A vitória do grupo durou pouco. Duas semanas após a bomba, a 1 de abril de 1943, Arondeus e mais de uma dúzia de outros elementos da resistência holandesa foram presos por nazis após denúncia anónima. O grupo incluiu outros dois homens gays: um alfaiate, Sjoerd Bakker, e um escritor, Jouhan Brouwer.

Foi dada clemência a dois homens do grupo de Arondeus, mas os restantes foram considerados culpados e executados por fuzilamento a 1 de julho.

Na última reunião com o seu advogado, Arondeus transmitiu uma mensagem que desejava que fosse compartilhada após o fim da guerra: “Que se saiba que as pessoas homossexuais não são cobardes!

Embora Willem Arondeus tenha recebido postumamente uma medalha de honra pelo governo holandês em 1945, historiadores acreditam que o papel de liderança que desempenhou na resistência foi subestimado nas décadas imediatas após a guerra devido à sua orientação sexual. Foi, aliás, apenas através de um documentário televisivo que, em 1990, o público holandês soube que Arondeus era gay.

Numa altura em que, um pouco por todo o Mundo, Portugal incluído, as políticas se extremam, é importante olharmos para trás e perceber o caminho que outras gerações fizeram. Perceber onde as suas convicções as levaram. Porque desta vez não temos desculpa. Porque sabemos. Porque estas ideologias não podem vingar. De forma alguma. Defendem a segregação religiosa, étnica, sexual ou política, baseando-se numa alegada verdade absoluta. Em nome dela são abertas portas para que ocorram perseguições e, em última instância, genocídios. E é isto que a História nos diz. Aprendamos com ela.

Obrigado, Arondeus.

Pormenor do projecto Queer Portraits in History.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.

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