Orange Is The New Black: A Importância De Ser Diferente

Orange Is The New Black (OITNB), uma das séries-sensação da Netflix, possui uma premissa simples: Piper Chapman é condenada a quinze meses de prisão após transportar dinheiro proveniente do tráfego de droga… realizado pela ex-namorada Alex.

A série é baseada no livro homónimo escrito por Piper Kerman, onde a autora se baseia na sua própria experiência atrás das grades. O livro foi editado em 2010, cinco anos após a libertação  da sua autora.

O livro documenta as tentativas da autora preservar a sua individualidade face a uma burocracia cinzenta e impessoal, uma burocracia baseada em torno de contagem de presos, revistas corporais, regras que regem as minúcias da vida e a lembrança permanente que os prisioneiros, por definição, não têm poder, não têm autonomia real. – Sasha Abramsky.

Tudo isto é espelhado na série, mas esta traz consigo também algo que é raro de se ver em televisão – e é aí que reside um dos maiores trunfos das produções da Netflix: maior liberdade e menos pressão comercial – a variedade das personagens que fazem o extenso elenco de OITNB. Se as produções tradicionais vivem permanentemente sobre a pressão dos anunciantes que lhes pagam a produção com anúncios, a Netflix é imune a este tipo de condicionante artística. Embora a personagem principal seja a típica estrela de Hollywood (caucasiana, bonita e atraente), a verdade é que esta se dilui, no melhor dos sentidos, com todas as restantes. Há-as negras, latinas, novas, velhas, religiosas e agnósticas, há russas, magras, gordas, trans, hetero, bi e homo. Ah, e até há um ou outro homem.

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Este tipo de elenco seria impensável numa série para o grande público, habituado a personagens brancas, cisgénero e heterossexuais nos papéis de destaque. Em OITNB acontece exactamente o oposto, mostrando uma variedade de histórias e condicionantes que não estamos habituados a ver em televisão, não assim. É por isto que esta foi uma das séries em destaque no estudo da GLAAD sobre a visibilidade das pessoas LGBT. E, sim, há muita tensão sexual, especialmente na primeira temporada. Mas a série vive para além disso, não se deixa resumir por cenas de sexo, é apenas um detalhe, tal como acontece em inúmeras outras séries, simplesmente nesta o sexo é ambicionado essencialmente por mulheres.

Não há aqui personagens perfeitas, ninguém dentro daquela prisão é verdadeiramente bom ou mau. Não há uma desculpabilização dos crimes que foram cometidos que levaram todas aquelas reclusas a serem condenadas, mas existe sempre uma perspectiva sobre o que as condicionou e as levou a chegar àquele ponto. A história humaniza-as. E pelo caminho, no meio de tantas vidas, experiências e problemas, por vezes têm que ser feitas alianças para que todas superem o dia. E ali todas sabem que é um dia de cada vez. É essa uma das lições de OITNB, a união faz, efectivamente, a força, até mesmo numa prisão.

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