‘Pá pila, seu vaginas de caca’ ou a incompetência do insulto

(Este artigo contém linguagem que pode ser considerada ofensiva para menores ou pessoas sensíveis.)

Conduzir tira qualquer pessoa do sério. Vai um condutor, a espirrar adrenalina, vermelho de raiva e fúria, quando um carro lhe passa à frente, pregando-lhe um susto que o ajuda a soltar um “foda-se, este paneleiro de merda … vai pá puta que te pariu caralho”. Logo a seguir, a morrer de pressa, tinha que estar um “banana” a fazer uma manobra para empatar. Ai o “caralho, este larilas está a enconar o trânsito, foda-se”.

Já o carro se estacionou e, ao atravessar uma passadeira ia sendo atropelado por uma “cabra” que ia a falar ao telemóvel, uma “vaca de merda” que de certeza ia “a por os cornos ao paneleiro do marido”. Logo a seguir relaxou-se um pouco o passo, cedendo uns segundos à pressa, para observar uma “mamalhuda” que ia a passar em sentido contrário. Ia toda provocante por isso é uma “badalhoca que as está a pedir”. Logo a seguir ia a “gorda de licra” ao lado de uma “bicha rabeta”. O mundo está mesmo cheio de “galdérias e panascas, foda-se”.

Chegado ao destino, à bela da repartição que fecha às 16h58 em ponto, ainda teve que levar com um “preto” a atendê-lo, por causa de uma dívida aos “brochistas das finanças” que o estavam a acusar de ser um “cigano” quando ele, na verdade, admitia-o, era um agarrado ao dinheiro, “pior que judeu”. À saída, comprou um maço no “monhé” da esquina.

Quando regressa ao carro estava uma “fufa” da polícia a multar os carros estacionados em cima do passeio, como o dele estava, aliás. Apressa-se antes de chegar ao seu. A “gaja” afinal era um homem ou quê, “caralho”? Ou era uma “camiona” ou então era uma “traveca”, fosga-se. Não é carne nem peixe. Este mundo está todo fodido com “gajas lambe-conas” e “panisgas de saias”!

Mais um dia como os outros.

Antes de mais, gostava que o leitor voltasse a ler o texto anterior mas imaginando que o protagonista desta bela, e triste, história é uma mulher. Bastam algumas alterações ao género de uns quantos substantivos e artigos e nada diz que é um homem. Pois é … mas uma mulher com esta linguagem “não cai nada bem”, pois não? Cai para o mesmo lado do homem, diria eu. E estes deviam estatelar-se no chão e “partir os cornos”, claro está.

O que eu pretendo discutir neste artigo é, contudo, outra questão. Pretendo analisar o léxico dos insultos, enquanto sub-classe da linguagem capaz de conter um universo de preconceitos ou, dito de outra forma, enquanto parte da cultura que mimetiza a imposição de um modelo misógino. É, aliás, uma das mais poderosas armas da misoginia, à semelhança do que acontece com o humor. Pergunto, então, o que é que o humor e os insultos têm em comum? A resposta não é difícil de adivinhar: o preconceito é a base da esmagadora maioria da inspiração. Tal como o humor, de forma diferente, mas nem sempre com objetivos diferentes, o insulto explora todos os pontos sensíveis da sociedade, enquanto desvios de um quadro heteronormativo, de gente branca, saudável e de sucesso, com uma matriz profundamente sexista.

Neste sentido, embora admita que o insulto varie de região para região e de contexto para contexto, o quadro é invariavelmente homofóbico, sexista, misógino e racista. Todos os insultos mais agressivos, que verdadeiramente resultam na sua capacidade de ferir e humilhar pertencem a uma, ou várias, destas categorias. Além deste quadro, os insultos em grande parte tiram partido de outros universos complementares. Alguns destes universos são o escatológico, o dos defeitos físicos das pessoas (também designado de capacitivo, por se centrar nas capacidade das pessoas, quase sempre, aliás, nas suas incapacidades) e o universo falocêntrico.

Vejamos um exemplo. Vou experimentar traduzir o primeiro parágrafo do texto anterior para uma linguagem inclusiva, mantendo embora a sua intenção insultuosa.

“Conduzir tira qualquer pessoa do sério. Vai um condutor, a espirrar adrenalina, vermelho de raiva e fúria, quando um carro lhe passa à frente, pregando-lhe um susto que o ajuda a soltar um “chiça que susto, esta abécula”. Logo a seguir, a morrer de pressa, tinha que estar um “néscio” a fazer uma manobra para empatar. Ai o “catano, este gajo está a foder o trânsito, fosga-se”.”

Como se percebe, sobretudo se pretendermos aplicar o mesmo exercício aos restantes parágrafos, há expressões que simplesmente não têm tradução para linguagem mais inclusiva. Como traduzir “gorda de licra” quando esta expressão encapsula um profundo sexismo e uma objetificação do corpo feminino? Como traduzir a expressão “monhé” sem ser racista? Evidentemente “indiano” ou mesmo “paquistanês” não são a resposta, pois substituiriam o insulto pelo seu valor nominal (a respeito deste ponto há uma famosa crónica do MEC de 2007 sobre os palavrões), levando a uma perda total da sua força. “Filho da puta” é outro exemplo de um insulto não traduzível para um universo não misógino e não puritano.

Podemos tentar sistematizar a análise dos insultos, através de uma classificação em níveis de força, que nos apresente um leque desde o mais ofensivo até ao mais leve. Este exercício é difícil, dado que a força ou intensidade do insulto advém também, ou talvez sobretudo, de um contexto cultural subjacente ao recetor, que aqui seria mais complexo de esmiuçar. Podemos, contudo, sistematizar a análise do insulto, olhando através de outro prisma, classificando-os pelo tipo de discriminação que explora. Temos, pois, expressões e insultos homofóbicos (onde se incluem os lesbofóbicos e transfóbicos), racistas, sexistas e capacitistas. Temos, ainda, os complementos expressivos falocêntricos e escatológicos.

Porém, antes de listar os principais, é importante mencionar uma questão. Há alguns insultos, cujo vocábulo, mesmo existindo no masculino e no feminino, só funcionam verdadeiramente como insulto, ou só são usados, no feminino (estamos a excluir os insultos homofóbicos), evidenciando claramente a estrutura sexista da sociedade. Um exemplo deste caso é o insulto “badalhoco/a”. A expressão ou insulto “badalhoco” para um homem é muito menos usado do que o insulto “badalhoca”, que no feminino adquire uma conotação perversa de “mulher leviana e promíscua”. No homem, “badalhoco” tem apenas a sua conotação literal, isto é, induz a falta de higiene. Claro que existem contra-exemplos de expressões ou insultos que só funcionam enquanto tal na versão masculina, mas são muito menos numerosos do que o contrário.

Vejamos, então, alguns dos principais insultos e expressões, por classe, sem ser evidentemente exaustivo:

a) Homofóbicos: paneleiro, maricas, abafa a palhinha, pega de empurrão, vai levar no cu, bicha, tricha, abichanado, banana, bichona, rabeta, frouxo, larilas, panasca, panilas, roto, brochista

b) Lesbofóbicos (existem, certamente, muito mais): fufa, camiona, camionista, lambe carpetes, sapatona, fersureira

c) Racistas (existem, certamente, muito mais): cigano, preto, judeu, monhé

d) Sexistas: conas, enconado, puta, puta que te pariu, filho da puta, vaca, cabra, galinha, badalhoca, gorda, cornudo, galdéria, histérica, lambe-conas, mal fodida, mamalhuda, maria vai com as outras, megera, mula, porca, putéfia, rameira

e) Capacitistas: cegueta, perneta, surdo/a (que nem uma porta), manco/a, def, taralhouco/a, louco/a, doido/a, totó

f) Complementos falcocêntricos: caralho, do caralho, foda-se

g) Complementos escatológicos: de merda, merdoso/a, enfezado/a, cagão, cagona, caga-tacos

O insulto é, como já foi dito acima, uma arma fortíssima na sustentação de uma sociedade homofóbica, racista e sexista. Tem a capacidade de perturbar profundamente as suas vítimas. O eco das suas ressonâncias internas e suas réplicas pode ser, até, incapacitante.

Há, contudo, casos em que o recetor do insulto pode apropriar-se dele, como forma de afirmação da sua diferença em relação ao modelo heteronormativo, racista e sexista. Um destes casos de apropriação do insulto é a expressão “bicha”, assumido orgulhosamente por alguns gays e lésbicas bem resolvidos. Outro caso desta natureza é o fenómeno das “slut walks”, nascido no Canadá em 2011, ou “marcha das galdérias”, já realizado em Portugal desde 2012. A apropriação do insulto torna-se, pois, nestes casos, um mecanismo empoderador.

É preciso lutar, contudo, com o discurso de algumas pessoas que entendem que o insulto é enriquecedor da vítima e que, pelo sofrimento ela pode crescer e tornar-se mais forte. Sobre esta questão leia-se o artigo “Gustavo Santos: A homofobia permite crescer através da dor”. A inversão da culpa é perniciosa e ajuda a fazer prevalecer os modelos injustos e discriminatórios da sociedade. É preciso combate-los sempre. Recentemente, em Portugal o parlamento legislou no sentido de penalizar o “piropo”, como ficou conhecido, e a importunação sexual, para defender as mulheres das investidas a que são, infelizmente, continuamente expostas.

Para finalizar, perceba-se que não estou a advogar que se deva, em absoluto, acabar com os insultos. Quer queiramos, quer não, eles são fruto da natureza humana e vão sempre existir, tanto na forma de interjeição, como na forma de confronto direto. Não há, aliás, nada de errado no insulto ou no vernáculo, desde que não explore a discriminação. Mas, sim, estou a advogar que a linguagem deve tomar caminhos mais inclusivos e não discriminatórios, mais respeitadores da diversidade. Há um longo caminho pela frente, para tornar o insulto mais competente neste campo, pois a matriz está de tal forma impregnada na nossa cultura que até os mais inclusivos de nós, até esses, facilmente, quando “vermelhos de raiva” ou a “espirrar adrenalina”, usam linguagem ofensiva, a evitar.



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Respostas de 7 a “‘Pá pila, seu vaginas de caca’ ou a incompetência do insulto”

  1. […] Este não é propriamente um texto fácil de escrever. Porque trata duas pessoas que, por razões distintas, sou um declarado admirador. Mais, são duas pessoas que têm estado no mesmo lado da luta contra a homofobia nas últimas décadas e por isso custa especialmente vê-las discordar num ponto que me parece tão óbvio: as palavras têm significado e este atinge pessoas. […]

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  2. […] No último mês do ano de 2016 fomos prenúncio do debate sobre ofensas e liberdade de expressão que dias depois assolou Portugal devido a uma entrevista que colocou a opinião sobre o poder da […]

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  3. […] (muitas décadas) que identificou este quadro misógino da linguagem, sobre o qual já escrevi aqui e, portanto, a luta pela igualdade nas questões de orientação sexual ou identidade de género […]

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  4. […] ou fulanas, são uns … ai espera .. eu queria insultá-los, mas como já escrevi no artigo “Pá pila, seu vaginas de caca, ou a incompetência do insulto”, os insultos são quase todos misóginos ou homofóbicos, ou ambas as coisas. Help! Estes […]

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  5. […] neste filme. Desde o sexismo enraizado, cuja génese é a mesma da homofobia (já discutido aqui), ou seja, a assunção do pressuposto de superioridade do masculino sobre o feminino, patente na […]

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  6. […] relacionados com a comunidade LGBTQI+. Claro que também se disse a palavra ‘paneleiro’ (essa nunca pode faltar), seguida de muito […]

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  7. […] Até que surgiu uma mudança no argumento, possivelmente aquando da história dos “gins cheios de paneleirices”. De repente, a retórica alterou-se. A partir dali a palavra deixava de ter importância, deixava de ter simbolismo, era vazia, oca e apenas quem se deixava incomodar ou insultar sofreria de um tal peso. Em nome de uma absoluta liberdade de expressão, a responsabilidade passou a ser da pessoa violentada e não de quem violenta. Como já aqui foi escrito pelo Nuno Gonçalves: “A inversão da culpa é perniciosa e ajuda a fazer prevalecer os modelos injustos e discriminatório….” […]

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