Dia das Mulheres, ou a misoginia encapotada

Não queria terminar o dia de hoje, dia das Mulheres, sem escrever algumas linhas sobre este dia, aparentemente tão mal-entendido. Já hoje li muitos textos eloquentes sobre o dia das Mulheres e, perante tal facto, hesito no que escrever. O que posso eu, homem cis, gay, acrescentar sobre o assunto? Decido, pois, falar no conceito de dia da mulher versus dia das Mulheres.

Hoje, além dos textos eloquentes que li sobre o dia, li também outras coisas que me deixaram irritado. Li que a Câmara Municipal de Lisboa distribuiu uma flor pelas suas funcionárias. Li que a Câmara Municipal de Coimbra fez um programa integral dedicado à mulher, com massagens, com dança do varão, com maquilhagem e unhas de gel. Vi que uma pastelaria de Coimbra inundou a montra com vários bolos com a forma de um falo. Um deles gigante. Vi, ainda, um site de classificados de automóvel a felicitar as mulheres porque foram inventados os sensores de estacionamento.

Perante estas alarvidades a reação é de what a fuck?. Estes fulanos, ou fulanas, são uns … ai espera .. eu queria insultá-los, mas como já escrevi no artigo “Pá pila, seu vaginas de caca, ou a incompetência do insulto”, os insultos são quase todos misóginos ou homofóbicos, ou ambas as coisas. Help! Estes fulanos ou fulanas são … oh well … deixa estar. Deixo a caixa de comentários para os leitores que me queiram ajudar a insultar esta gente. Please, do help me!

Este conceito de dia para assinalar a igualdade de género com a flor, a massagem, o bolo em forma de pila ou a piada dos sensores de estacionamento é, então, o conceito de dia da mulher. mulher com letra pequena, minúscula aliás. É um fenomenal mal-entendido sobre os fundamentos de celebrar, e advogar, a igualdade de género. É, ainda pior, uma forma de reiterar a desigualdade entre homens e Mulheres. É uma forma de empurrar a mulher para a estética, para a futilidade (apesar de eu não ter nada contra esta “futilidade”, mas sim de se considerar automaticamente um campo feminino), de empurrar a mulher para o domínio da casa, da maternidade e da beleza que agrada aos homens. Não. Este não é o dia das Mulheres, nem o dia que as celebra. É talvez o dia da mulher, só isso.

Ao invés, o dia das Mulheres é o dia em que recordamos que homens e Mulheres não nascem com as mesmas oportunidades. É o dia em que recordamos que, apesar de sabermos que não são mais fracas, nem produzem menos, nem lidam pior com as situações difíceis ou de elevado stress (parece-me, até, que melhor), nem menos inteligentes, mas, apesar disso, têm menos oportunidades, recebem um salário substancialmente mais baixo para as mesmas funções, são quase sempre preteridas, e também se auto preterem, e que acedem muito menos a cargos de maior relevância, quer políticos, quer económicos, quer sociais (excluem-se instituições de solidariedade, santas casas, bancos alimentares contra a fome e afins, porque, claro, é mais uma vez um campo do domínio da mulher). Basta. O dia da Mulheres é o dia em que recordamos isto tudo e é o dia em que simbolicamente celebramos, todos e todas, a resiliência de se ser Mulher, o dia em que todos e todas devíamos ser Mulher, com letra grande, gigante aliás, ou querer sê-lo, para nos engrandecermos de resistência. O dia das Mulheres é o dia em que todos e todas devíamos perceber que não é possível prescindir de metade da humanidade, porque não afeta só as Mulheres, afeta todos e todas e tudo, negativamente.

Eu dava de bom grado 1 dia por ano para ser o dia da mulher, se, e só se, todos os restantes 364 dias fossem dia das Mulheres. Tanto para fazer.

Imagem: Melyssa Griffin
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