2016 foi um ano de vitórias para a comunidade LGBT. Discriminação no acesso à Procriação Medicamente Assistida travada. Adoção plena por casais do mesmo sexo finalmente aprovada. Vedação à dádiva de sangue por homens homossexuais levantada. Foi também o ano em que nós, pessoas LGBT, nos tornamos em verdadeiros bullys. Ou assim escreve
João Miguel Tavares num
novo artigo de opinião do Público. Ainda no rescaldo da polémica em torno da
defesa do insulto por parte de
Ricardo Araújo Pereira, ele acusa a comunidade LGBT e os seus “porta-vozes” de policiarem as palavras e se vitimizarem ao ponto de ver homofobia por todo o lado.
O cronista começa por enumerar todos os eventos em que apoiou a comunidade LGBT. Até foi um entusiástico defensor do casamento gay. Como se fosse uma questão debatível. Mas também, desde que tivesse a palavra “
gay” a seguir a casamento não fazia muito mal, não é? Não vale tanto de qualquer forma. E em relação à adoção, apesar de agora se declarar a favor, sentiu manifesta
necessidade de abrir a questão da igualdade das famílias a debate público. Como se fosse preciso validar estes modernismos não heteronormativos. Mas lá estou eu a vitimizar-me. Adiante.
Seguem-se os momentos em que passou de defensor acérrimo da causa a homofóbico. Nomeadamente na forma como se manifestou em relação à dádiva de sangue por homens homossexuais ou se insurgiu em relação ao
linchamento público de Maria Vilaça, considerando este último um caso de liberdade de expressão. Aqui nomeia este espaço como um dos catalisadores desta sua ascensão a homofóbico veterano. Por muito que nos lisonjeie achar que temos capacidade de influenciar opiniões sem precisar do púlpito do “mais respeitável periódico nacional”, a acusação está totalmente errada. Não fomos nós nem qualquer outro espaço de opinião, histórico combatente ou qualquer outro aliado da causa LGBT em Portugal que o rotulamos de homofóbico. Esse foi um rótulo auto-inflingido. Tal como as micro-agressões são auto-inflingidas.
O maior de todos os erros deste artigo surge quando João Miguel Tavares se queixa de já não poder ser estúpido e não homofóbico simultaneamente quando escreve nas suas colunas, lidas por milhares de pessoas e sob a alçada da liberdade de expressão. Lá poder pode. Tal como eu, e qualquer pessoa da comunidade LGBT, também pode criticar uma posição homofóbica sem estar a chamar homofóbico ao seu perpetor. Foi o que fizemos por diversas vezes já aqui em relação ao João. No entanto, só o facto de abrirmos a boca para discordarmos de uma opinião contrastante estamos logo a gritar “HOMOFOBIA”. Isso chega a ser um bocado… ai, como se diz… homofóbico.
Termina então atirando achas para o debate do insulto e censura da linguagem que começou a semana passada e ainda não parece ter chegado ao fim. Novamente, a apropriação do insulto só pode acontecer quando ele já não tem significado e que insultos continuarão a sê-lo – sempre insultos e sempre antes de qualquer perspectiva de comédia – desde que signifiquem menosprezar UMA pessoa. Eu aguento perfeitamente que me chamem “paneleiro” ou “mariconço”. Até “fifty/fifty” como afectuosamente fui apadrinhado pelos bullys do Colégio. Eu aguento. Agora. Aquele puto que se escondia nos recreios não aguenta nem tem de aguentar. Nem de achar que ser “paneleiro” é inferior a ser qualquer outra coisa. Porque é isso mesmo que esse insulto continua a dizer. Que aquele “paneleiro” é menos. É vítima. Por isso é curioso que João Miguel Tavares tente utilizar a estratégia da vitimização do opressor e demonização do oprimido. Curioso porque durante este tempo todo, mesmo quando homofóbico, João Miguel Tavares nunca foi burro. Mas no dia de hoje acontece tudo.
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