João Miguel Tavares está zangado

Surreal. Já todos se indignaram com o Correio da Manhã e a publicação desavergonhada (e provavelmente) criminosa de um video de uma jovem a ser abusada sexualmente por um colega enquanto outros assistem. Todos os colunistas de opinião deram, naturalmente, a sua e Fernanda Câncio do Diário do Notícias não foi excepção. O artigo de opinião é violento. E impiedoso. E perfeitamente justo. E  perfeitamente fundamentado.

Justo porque é vital que se exista insurgência por parte do dos jornalistas e também público na condenação de um órgão de comunicação social quando este decide exibir um vídeo de conteúdo sensível como campanha de cliques e likes. Fundamentado porque analisa a fundo o carácter de agravamento judicial desta violação do código deontológico do jornalista. E aponta o dedo a um jornalista, João Miguel Tavares do Público, que no meio da “condenação” tão suave que soa a apoio fingido, diz:

“O Correio da Manhã comete com frequência grandes erros – que devem ser criticados e julgados. Mas – e este é um grande “mas” – é também um jornal com um historial importantíssimo no escrutínio do poder político e na denúncia da corrupção.”

Ao que Câncio ripostou:

“Não interessam os meios, quantos atropelos comete, crimes, atentados éticos, vidas destruídas. Por outras palavras, o CM pode ser corrupto e corromper tudo, desde que faça o trabalhinho. Pode até financiar-se à custa de vídeos de miúdas a ser abusadas, e ai de quem o atacar por isso”.

João Miguel Tavares não se podia, claro, deixar ofender. Particularmente se o perpetuador da mesma for uma mulher. Uma das únicas com a liberdade, editorial mas principalmente pessoal, de “chamar as coisas pelos nomes”. Sem rodeios nem papas na língua. Sim, pode ser incendiária. Mas por isso mesmo é tão importante , no panorama atual jornalístico de conluio e apaziguamento de atos vis como este, (e necessário) que assim o seja.

E pois que hoje João Miguel Tavares exibe o seu novo artigo de opinião no Público  com o título Fernanda Câncio está zangada“. E no meio de acusações de elitismo jornalístico, continua a defender o Correio da Manhã como um justiceiro, importante nas denúncias de corrupção em políticos e outras figuras públicos. E sugere que esta situação de “zanga” de Fernanda Câncio com o Correio da Manhã é uma vingança pessoal ao atos abjetos e contenciosos do jornal para com Cância na altura da exploração sensacionalista do caso Sócrates e a Operação Marquês. O cronista volta a exibir o historial de batalhas entre ambos de forma a justificar a ira (injustificada) da jornalista contra o Correio da Manhã.

Neste ponto tenho de fazer uma pausa e respirar fundo. Porque não quero ser excessivamente parcial ao ponto de ser acusado de policiamento do politicamente correcto. Mas que se dane. Toda esta suave verborreia no artigo de João Miguel Tavares é atroz. E mesquinha. E, acima de tudo, misógina. Profundamente, intrinsecamente, maldosamente misógina. Gostava de assistir a João Miguel Tavares a pôr o caráter jornalístico de um Daniel Oliveira ou de um Pedro Marques Lopes em causa por causa de “sentimentos“. Porque estão “zangados“. Amuados. Vingativos. Não o faria jamais porque são homens e estes são sentimentos atribuídos com exclusividade absoluta ao frágil sexo feminino. E estes sentimentos, como em todos os momentos da sua vida, toldam-lhes a capacidade crítica e todo o profissionalismo – aquele possível a alguém que use um soutien – se esvai como maquilhagem que não é à prova de água.

Já por diversas vezes reagimos a outros artigos de opinião de João Miguel Tavares e corremos o risco de nos impingirem todo este tempo a ele despendido enquanto “ódio de estimação”. Até porque as bichas somos como as mulheres, deixam que os sentimentos lhes toldem o juízo ao ponto do histerismo. Novamente, aquele possível a quem vai para o Trumps a noite toda dançar e esquecer a eliminação da sua queen favorita no RuPaul’s Drag Race. Ainda assim, sou capaz de sentir o cheiro fétido da misoginia, mesmo que ela esteja escondida por panos quentes paternalistas, a quilómetros de distância do outro lado do Príncipe Real. E com isto pergunto-me também como é que jornais tão respeitados como Público e o Expresso se deixam esconder de forma impune por detrás de “artigos de opinião” tão declaradamente discriminatórios.  Afinal de contas são apenas a opinião de uma pessoa singular. Pois. De uma pessoa singular que traz cliques e likes por artigos sensacionalistas. Tipo… Correio da Manhã.

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