Os brinquedos, o Natal e o género

Estamos na época do consumo desmesurado onde tudo é permitido. Todos são amigos, gostam uns dos outros, partilham a mesa e a vida. Nada de mau existe, todos se reúnem, vindos de todo o lado e a paz instala-se por uns momentos, por breves que sejam. Chegou o Natal à Terra e a criança que existe dentro de nós volta a despertar.

O Pai Natal e as suas prendas ocupa o quotidiano dos mais novos e não existe nada que os demova do querer, do pedir e do exigir. A ideia de merecer desapareceu. Fica somente a impertinência do pensar que têm direito só porque sim. Mas adiante, que a culpa não é só deles, é de quem se esqueceu de os educar.

Agora é altura das tréguas e só vamos olhar para o lado giro da coisa, o que dá muita alegria e proporciona horas de divertimento e prazer. Ou talvez não. Refiro-me aos brinquedos. As crianças estão tão habituadas a ter tanto que já não lhes ligam nenhuma e, o mais grave, é que também não sabem brincar.

Saber brincar é importante, desenvolve o raciocínio, a capacidade de se desembaraçar de situações complicadas e sobretudo a imaginação. Numa vida adulta e a prática, certamente que teremos de enfrentar tantos desafios que mais vale estar prevenido. Por isso brincar é desenvolver competências mas as crianças, de hoje em dia, entretêm-se com jogos previamente estipulados, com caminhos que são facilitados e nunca têm de resolver um caso bicudo.

Siga. A escolha do brinquedos, dos vários que as pessoas costumam oferecer, deve ser criteriosa e não aleatória. Por muito que se tenha evoluído ainda se separam as águas: brinquedos para meninas e brinquedos para meninos. erro muito comum e recorrente!

Cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos. Mas por alma de quem? Porquê? Não são as cores que fazem as pessoas mas sim o carácter e a educação. Há uns anos atrás um homem vestir uma peça de roupa cor-de-rosa era motivo para insulto, chacina e marcado para todo o sempre: maricas! A uma mulher, felizmente, era permitido usar todas as cores. Todas, todas não porque se se vestisse de roxo perguntavam se ia para a procissão do Senhor dos Passos. Enfim.

Então aparecem as bonecas, para as meninas e os carrinhos, para os meninos. O curiosos é que os bonecos até são assexuados. Há uns anos atrás fizeram uma série de bonecos tão realistas que até faziam xixi. Alguns tinham pipi e outros pilinha. Mas não pegou por isso voltaram ao básico e ficou tudo na mesma.

Eu gostava mesmo que alguém tivesse a paciência de me explicar porque se fazem diferenças deste tipo. Os meninos não podem brincar com bonecas? Os meus irmãos arrancavam a cabeça às minhas bonecas e jogavam à bola com elas. Sim, eram uns brutos mas faz parte de ser crianças, as tais experiências da vida. Porque é que uma menina não pode brincar com carrinhos? Já agora também não pode aprender a conduzir? Eu era um ás nos carrinhos de rolamentos!

Como querem que as crianças sejam tolerantes e saibam viver com todos se se aplicam logo, desde a nascença, os estereótipos de género? Um menino não pode brincar com bonecas? Ai sim? Mas quando entra na puberdade quer as bonecas ou bonecos verdadeiros, os de carne e osso e, atendendo à fraca experiência, normalmente é um desajeitado, um primitivo a lidar com eles. As meninas não podem brincar com tractores? Quando quiserem aprender a conduzir deve ser agarradas as bonecas ou a pintar-lhes as unhas. Pura parvoíce e tanto!

Para mim os jogos didácticos são sempre os melhores porque puxam pela imaginação, obrigam a criar os seus próprios enredos, a criar as suas versões da vida. Bonecas, carrinhos ou outros fazem parte do dia-a-dia. Não são perigosos para nenhuma criança. São instrumentos de aprendizagem, de conhecimento de si e dos outros. Ferramentas essenciais para o saber viver.

Children playing with toy railroad and train

Se a menina pega no brinquedo do irmão, é quase uma tragédia! Não brinques com isso que não é para ti, vai brincar com coisas de meninas. Mas porquê? Digam-me! Felizmente que existem cada vez mais mulheres em posições que eram, quase historicamente, masculinas: engenheiras, arquitectas, investigadoras e ainda tantas outras. Os homens também sofrem estigmas em profissões ditas femininas: educadores de infância, professores primários. Lá vem o rótulo e a chatice. profissão é para ser competente e não interessa o género.

Este ano foi registado o primeiro bebé filho de duas mães. É um avanço mas o caminho ainda está cheio de pedras e armadilhas. Criar uma criança é uma acto de amor, de grande responsabilidade e de dedicação. A educação vem do berço e é aí que começam as regras, aquelas coisinhas chatas que depois dão origem a adultos. Ninguém está a dizer que é fácil, que não é mesmo nada! Mas a família, a casa é a linha da frente e deve ser aí que começam os bons exemplos.

Fazer separações, criar divisões e perpetuar preconceitos parece-me errado. Muitas das vezes acaba por ser inconsciente mas o certo é que as crianças ouvem e aprendem. São esponjas e absorvem tudo o que as rodeia. Cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos já está muito demodé.

Na verdade existem cada vez mais adeptas de futebol, aquilo que costuma ser masculino e discutem o assunto de modo quase profissional. Algumas chegam a treinadoras e, apesar do espanto, são vistas com bons olhos. Também podemos observar motoristas de táxi e de autocarros, feudos masculinos que caem por terra. Claro que ainda se continua a ouvir que uma mulher conduz pior do que um homem mas as mentalidades demoram a mudar.

Não foi um taxista que teve a “brilhante” ideia de comparar as leis a meninas virgens? Espero que o senhor esteja bem visto na sua família e que a saiba proteger porque quem diz uma barbaridade destas sujeita-se. Um homem a lidar com crianças, num infantário é olhado com alguma desconfiança mas um homem, que é pai, lida com os seus filhos e isso é normal. E então? No que ficamos?

Por isso, por isto e por muito mais, quem faz distinção de género está a fazer uma separação complicada. Uma criança que não se identifique com o género com que nasceu, pode sentir que algo não está bem quando é compelida a brincar com aquilo que não gosta. Depois isso pode ter o efeito de bola de neve e descambar num problema sério. Não façam isso, deixem-nos escolher com o que querem brincar.

Não sou apologista de muito, de quantidade mas sim de qualidade. A atenção, o afecto e a companhia dos pais e familiares directos é muito importante. Moldar um ser humano é uma tarefa hercúlea mas muito gratificante. Não é obrigatório ser pai nem mãe mas se o formos que o façamos com toda a mestria e bom senso.

Uma criança quer e precisa de amor, de compreensão e de tempo. Tempo de qualidade. Quando se quer o tempo surge sem darmos por isso. E as coisas, naturalmente, acontecem. O que queremos? Uma sociedade mais justa, mais equilibrada, mais tolerante, mais alegre e mais satisfeita com aquilo que tem.

A minha sugestão é oferecer livros. Sem género. Aqueles objectos maravilhosos que falam connosco, que nos acompanham para todo o lado, que nos ensinam e que nunca nos falham. Livros de aventuras, histórias clássicas, bonecos coloridos que permitam fazer fluir a imaginação e que façam sonhar. Dizem que é uma velha tradição islandesa. Eles lá sabem porquê. O melhor país da Europa. Está explicado.

Pensem nisto não como um forma de rebaixar os nossos hábitos ancestrais mas como uma crítica construtiva. Temos muito que aprender. Como diz a filha de uma amiga minha, de somente 5 anos: “Os adultos deviam voltar à escola para aprenderem a voltar a falar uns com os outros.” Grande sábia esta menina! Aproveitem a época e estejam uns com os outros em qualidade de convívio!

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