Quebrar O Silêncio: 1 em cada 6 Homens É Vítima De Abuso Sexual

Quando ouvi falar do lançamento da Quebrar o Silêncio de imediato me lembrei do peso, por vezes abissal, que pode ser estarmos numa minoria. Esta é uma associação que apoia homens vítimas/sobreviventes de abuso sexual, menos de um quinto dos casos registados em Portugal, sendo que a esmagadora maioria das vítimas é mulher. Que implicações tem esta invisibilidade num homem que foi vítima de abusos sexuais?

Se é absolutamente fulcral protegermos aquelas que são vítimas deste tipo de abusos, é também importante não deixarmos para trás os homens que o sofrem na pele, porque a pressão social que se impõe sobre eles leva-os quase sempre para a negação e para o silêncio durante largos anos. Por isso é determinante quebrarmos o silêncio e é precisamente isso que a Quebrar O Silêncio, fundada pelo Ângelo Fernandes, se propõe a fazer.

Em quatro meses recebemos mais de 40 pedidos de apoio”, conta-nos. “Os homens vítimas/sobreviventes que chegam até nós encontram-se por vezes num estado de ruptura e necessitam de apoio para gerir e ultrapassar as consequências do abuso sexual. Também encontramos homens que não se encontram nesse estado, digamos mais “cru”, mas que sentem algum domínio do trauma sobre si, o que afecta o quotidiano e a sua qualidade de vida.

É para colmatar esta necessidade que, pela primeira vez em Portugal, temos uma entidade focada em dar apoio a homens vítimas/sobreviventes de abuso sexual, mediante grupos de apoio e de ajuda mútua e aconselhamento psicológico, tal como a realização de iniciativas de informação e formação junto de públicos diversos como escolas e empresas. A Quebrar o Silêncio é assim a primeira associação portuguesa a prestar este tipo de apoio e a trabalhar especificamente a área do abuso sexual masculino.

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“Existe um grande desconhecimento por parte do público em geral sobre o que um sobrevivente homem tem de enfrentar e gerir diariamente as consequências resultantes do trauma do abuso sexual. A existência de um grupo de ajuda mútua é uma das nossas respostas que garante uma compreensão que existe entre pares. Estes grupos, tal como os outros serviços são de acesso gratuito, anónimo e confidencial, e servem como um espaço de partilha facultativa onde são discutidos vários aspectos relacionados com as experiências sobre a violência sexual masculina.”

E que dados existem em Portugal?

Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2016 [.pdf], em 2015 foram iniciados 2409 inquéritos de abuso sexual de menores, menores dependentes e adolescentes, sendo que no primeiro semestre de 2016 foram registados 1383 inquéritos. Entre 2000 e 2007, mais de metade (51%) das pessoas agressoras tinham uma relação familiar com a criança; 42% eram conhecidas da criança e apenas 7% eram desconhecidas. Um quinto (18,7%) das vítimas são rapazes e 4,3% das pessoas agressoras é mulher.

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Segundo as estatísticas dos serviços prisionais, em 2005 estavam 200 pessoas presas a cumprir pena por crimes de abuso sexual de crianças ou de menores de 18 anos dependentes. Em 2010 o número subiu para 252 e a 31 de dezembro de 2015 o número continuou a subir para 275.

 

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Estes são dados que, contudo, podem não espelhar a realidade dos casos específicos de abuso sexual de homens. Por exemplo, “existem dados que indicam que nos casos oficialmente documentados apenas 16% dos homens considera que foi vítima de abuso sexual comparado com 64% das mulheres na mesma situação”, explicou-nos o Ângelo.

E as diferenças mantêm-se naquilo que é considerado crime, dado que “são muitas vezes mal diagnosticados no contexto da saúde ou passam mesmo despercebidos. Em países como o Reino Unido, só cerca de 4% dos sobreviventes masculinos participa o caso à polícia. Na Austrália, por exemplo, “chegou-se à conclusão de que são necessários esforços consideráveis para educar os homens da importância de denunciar a agressão sexual e é necessária mais publicidade para dissipar os mitos sobre a violência sexual masculina”.

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A criação de uma associação como a Quebrar O Silêncio traz-nos dados mais concretos em Portugal sobre quem lida especificamente com o abuso sexual masculino:

A maioria dos pedidos são da região de Lisboa, cerca de 70%. No entanto, temos vários pedidos do resto do país e pedidos de apoio vindos do Brasil, Suíça, França, etc. As idades variam entre os 22 e os 70 anos, mas a média de idades centra-se na casa dos 30-35 anos.

Em cerca de 95% dos casos que nos procuram o abuso remete para a infância. E de todos os sobreviventes, 54% está a partilhar pela primeira vez as suas experiências e 46% já procurou apoio antes de chegar à Quebrar o Silêncio. É importante referir que, tal como alguns autores apontam, no que toca aos casos de abuso sexual masculino, estes são por vezes mal diagnosticados no contexto da saúde ou passam mesmo despercebidos.”

Outro dos pontos que importa destacar é o tempo que, em média, uma vítima leva a partilhar a sua experiência de abuso sexual na infância: 22 anos, 10 a mais que no caso das mulheres.

É um período longo marcado por um sofrimento muitas vezes camuflado e vivido em silêncio. Na base deste silêncio estão muitas das vezes fortes sentimentos de vergonha e de culpa. Sentimentos estes que são alimentados por valores assentes numa masculinidade mais tradicional. Ser homem vítima/sobrevivente de abuso sexual pode desafiar o próprio estereótipo masculino de que os homens são e têm de ser capazes de se proteger a si mesmos, e isso pode representar um obstáculo para os sobreviventes exprimirem a situação de vulnerabilidade em que se encontram ou procurarem apoio.”

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Mas aquilo que estas vítimas, estes sobreviventes, vivem passados anos em silêncio é muitas vezes espelhado em sentimentos profundos, escondidos de todas as suas pessoas, inclusive daquelas que lhes são próximos.

Além dos sentimentos de culpa e vergonha, muitos homens também sentem questões de identidade, o surgimento inesperado de memórias do mesmo (flashbacks), ansiedade, baixa auto-estima, auto-desvalorização, dificuldades em estabelecer relações de amizade ou íntimas, dificuldades em dormir, perturbações de stress pós-traumático (PSPT), pensamentos e comportamentos suicidas, para referir algumas das consequências.”

Importa entender que estas dificuldades psicológicas podem não ocorrer isoladamente e devem ser vistas como um conjunto complexo de consequências traumáticas e interligadas entre si.

Metaforicamente costumamos dizer que um sobrevivente homem para chegar até nós passa por um extenso campo de minas. Essas minas estão relacionadas com o sente, mas também com as expectativas do que os outros podem sentir ou pensar. Vários homens podem sentir-se hesitantes em pedir apoio porque pode representar que são menos capazes ou menos homens. Para outros homens podem ter receio que sejam vistos como homossexuais por ter sido vítima de abuso sexual por parte de um agressor homem. Vários homens receiam ainda que sejam julgados como potenciais agressores (este receio é um mito sentido por vários sobreviventes). Estes mitos representam falsas crenças e ideias erradas sobre a violência e o abuso sexual masculino e dificultam o seu processo. No entanto, estes mitos não são exclusivos dos sobreviventes homens: são ideias e preconceitos partilhados pela sociedade em geral e que afectam a percepção de como lidar com estas questões.”

Os traumas levam estas pessoas a questionar-se sobre a sua própria identidade e, inclusivamente, sobre a sua orientação sexual. Mas o Ângelo explica-nos que essa manipulação é uma prática muitas vezes usada por quem agride:

Há homens que relacionam terem sido abusados sexualmente com a sua orientação sexual e questionam-se sobre a relação ou possível influência que o abuso teve na sua sexualidade e orientação sexual. Sabemos que em alguns casos os agressores exploram a orientação sexual da criança para a sua gratificação sexual; uma criança que tenha dúvidas sobre a sua orientação encontra-se num momento ou numa fase de vulnerabilidade. Vulnerabilidade essa explorada pelo agressor.”

A forma como estas pessoas lidam com os traumas difere igualmente entre elas, desinibindo-as ou, pelo contrário, deixando-as num estado em que evitam qualquer tipo de contacto sexual.

Quando um adulto abusa sexualmente de uma criança, além do abuso que comete pode “ensinar” e transmitir que a criança pode esperar um contacto sexual por parte dos adultos como pode também diluir a noção dos ditos comportamentos sexuais socialmente aceites. Como consequência há homens que durante o crescimento exibem uma ausência de inibições ou limites sexuais, pensamentos sexuais indesejados ou intrusivos ou comportamentos de risco que por vezes levam a sentimentos de vergonha e de culpa. No entanto há também homens que podem estar no espectro oposto e que não gostam de ser tocados de certa forma ou em certas partes do corpo, que evitam qualquer contacto sexual ou que têm dificuldade em conseguir ou manter uma erecção.”

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Uma das formas encontrada pela associação para combater estes e outros estigmas é “trabalhar com as crianças, os jovens e o público em geral de modo a sensibilizar a sociedade para as questões relativas à realidade do abuso sexual masculino”, nomeadamente “combater ideias preconcebidas sobre o tema e ultrapassar questões relacionadas com a igualdade de género.”

Para tal, a Quebrar o Silêncio trabalha em rede com um conjunto de associações internacionais congéneres, como a Survivors Manchester (Reino Unido), Living Well (Austrália), 1in6 (EUA), SurvivorsUK (Reino Unido), The Next Step (EUA), entre outras, de modo a aproveitar o conhecimento e o trabalho já desenvolvido noutros países por essas associações.

Os dados recolhidos internacionalmente apontam, por exemplo, que 1 em cada 6 homens é vítima de experiências sexuais abusivas antes dos 18 anos e, destes, apenas 3,9% participa o seu caso às autoridades. Para além destes números preocupantes, estes casos nem sempre são vistos como crime, são mal diagnosticados ou passam mesmo despercebidos. perante as autoridades.

Em Portugal a associação conta com uma relação de referenciação com a Associação de Mulheres Contra a Violência, ILGA Portugal, Instituto de Apoio à Criança e Checkpoint LX.

Os serviços prestados pela Quebrar o Silêncio não contam com qualquer tipo de financiamento. O único apoio que a associação recebe é não financeiro, através do Pelouro dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa para espaço de trabalho da associação. Como tal, qualquer ajuda é bem-vinda através de donativo e da quebra deste silêncio. Porque as centenas de crianças e rapazes que todos os anos são sexualmente abusadas precisam de uma voz que as ajude a dar um passo no sentido do seu reconhecimento e da sua libertação. Quebremos, pois e de vez, o silêncio.

Nota: Artigo escrito em parceria com a Quebrar O Silêncio.

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