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Manifesto de um homem homossexual contra o preconceito

Para mim chega! Estou farto de gente, muito emproada e senhora da modernidade, a achar que os homens homossexuais têm características que se podem e devem coletivizar.

O último texto que li, que não sendo o pior foi a gota de água, baseava-se numa ‘Ted Talk’ onde aparecia uma dessas bichas a dizer que estava farta de “tentar ser suficiente discreta”. A autora do texto, com uma prosápia notável, ensinou-me que as bichas discretas também choram e são vulneráveis. Fiquei siderado. Pensei que os sacos lacrimais das bichas discretas estavam entupidos por natureza e que a sua vulnerabilidade apenas se manifestava nas doenças venéreas e sexualmente transmissíveis ou no excesso de álcool.

Por isso quero dizer que sou discreta, homossexual e, ao contrário do que diz a bicha da Ted Talk, para espantar ou pôr de boca aberta os burgueses (épater la bourgeoisie, expressão francesa que já ninguém conhece) sou suficientemente discreto quando choro.

A bicha da TED diz que “Basicamente, este é o guião que nos dão desde pequenas: as bichonas são fracas e as discretas são fortes. Tal como aconteceu comigo, é isto que continua a ser passado a centenas de milhões de bichas discretas e bichas – uh – bichonas em todo o mundo. Como discreta, eu vim aqui hoje para dizer que isto é errado, que isto é tóxico e que tem que terminar”. Bom, não sei de que meio vem ela, se é do Texas e o pai era caubói no videoclip da Madonna, ou tinha poolboys por conta. A mim ninguém me deu esse guião, pelo contrário.

Vi o meu José Carlos chorar muitas vezes, bastava-lhe ouvir o prelúdio em Dó menor sustenido de Rachmaninov ou o Requiem de Fauré para trocar o disco por uma Gloria Gaynor. Vi-o chorar na morte da Lady Di e noutras ocasiões várias. A mim nunca me ensinaram que o não devia fazer, ou que não devia ser isto ou aquilo.

Eu sou uma chorona. Choro quando cantam a “Someone Like You” da Adele ou quando o violino solta as primeiras notas de “Amar Pelos Dois”, na final da Eurovisão, de Salvador e Luísa Sobral. E agora também choro nas músicas em que o meu José Carlos chora, porque também chorei quando a Lady Gaga foi para Las Vegas. E agora estou quase a chorar.

Nunca me disseram que tinha de ser forte, no sentido de ser diferente das bichas. Disseram-me que tinha de ser forte para resistir às contrariedades da vida. Mas isso disseram à minha mulher e a todas as divas pop que conheci.

Como Timbaland escreveu na letra da famosa canção popularizada pelo Justin:

You told me you loved me
Why did you leave me all alone?
Now you tell me you need me
When you call me on the phone

But girl I refuse, you must have me confused
With some other guy
(I’m not like them baby)
Bridges are burned, and now it’s your turn
To cry

Cry me a river

Sim, ensinaram-me a dar a volta por cima, a ter força e a ser tolerante e compreensiva; a aceitar as diferenças com naturalidade. Como ensinaram as tantas bichas com quem me dei na minha juventude; como eu tentei ensinar às minhas bichas discretas.

Por isso, deixo um conselho aos conselheiros destas coisas:
Parem de estereotipar os homossexuais! Parem de se queixar! Ou queixam-se de vós próprios, dos vossos sugadaddies, das vossas bichas amigas, acaso elas são do tipo que descrevem como sendo o ‘normal’. Saibam que a maioria dos homossexuais são vulneráveis, amam, vão ao psiquiatra, choram, têm angústias.

Um segredo: emocionalmente não temos diferenças substanciais dos heterossexuais. Há bestas e santos em todo o lado.

Os sexos não têm guerras, complementam-se, muitas vezes à canzana ou à tesoura. Não se dividem em saltos altos e sapatos de vela, em calças que realçam o pacote e saias que realçam o mesmo pacote, unem-se na vida da forma e do modo que entendem. Ver uma permanente guerra entre bichas discretas e bichas bichonas é ser cega. É não entender o mundo… das gajas, pá!

Nota: texto satírico (muito) inspirado neste.

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