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Vamos Falar de Afetos (no Masculino)?

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Uma tarde estava eu com o meu namorado a sair do Metro da Baixa Chiado e, a caminho da validação do bilhete, encontramos um amigo nosso a quem, como sempre, cumprimentámos com dois beijos. Dois dedos de conversa prosseguiram-se não sem antes eu vislumbrar a passar ao lado uma senhora de meia-idade com a sua filha mais nova, provavelmente com os seus 15 anos. O olhar na cara da mãe era de nojo a nós dirigido e segredou à filha qualquer coisa. Fez rir a filha mas ela manteve-se com a mesma cara de irritação e asco. Como um simples beijo na cara entre homens significou tanto para ela. E para nós também.

Estive muitos anos completamente desligado da comunidade LGBT e vivi aquilo que agora percebo ter sido passing privilege, a capacidade, auto-determinada ou imposta, de andar normalmente na rua sem ser detectado como pessoa L, G, B ou T. Esse tópico da invisibilidade propositada dá pano para mangas e terá de ficar para outras núpcias. Mas quando comecei a embrenhar-me na comunidade e a fazer ativismo mais concreto, comecei a querer despir-me desse privilégio que só me afastava de mim mesmo. E o derrubar de uma dessas barreiras passou pelo protocolo social de cumprimentar, todas e todos, com dois beijos. É normalizador e não discrimina X ou Y, sejam essas letras indicadores cromossomais ou não. Porque devo automaticamente cumprimentar homens de uma forma e mulheres doutra, sublinhando a virilidade crua e distante de um género e a fragilidade propensa a emoções do outro?

No entanto esta mudança de protocolo acontece apenas em contexto de pessoas LGBT. Dentro da bolha. Porque quantas vezes não estamos em grupos mistos e cumprimentamos amigos gay com dois beijos e amigos hetero com um aperto de mão? Ridículo e desnecessariamente embaraçoso. E um exemplo flagrante de code-switching (outro termo de ‘bicha moderna’, desculpem). Traduzindo, de mudança consciente da forma como devemos agir com umas pessoas e outras somente baseada na orientação sexual. Nossa e deles. Como se o nosso conforto e confiança com a outra pessoa fosse por isso ditado em terreno do socialmente aceitável. Por que raio não posso cumprimentar os meus amigos heterossexuais com dois beijos? Estou-lhes a ameaçar a masculinidade ao cumprimentá-los como faço a uma mulher ou a um homem gay? A maior parte ia dizer, provavelmente e porque tenho fé nos meus amigos, que não lhes faria confusão nenhuma. A eles. Porque a senhora do Metro ia fazer outro comentário à filha pubescente. Faça. Para a próxima se for preciso mordo-lhe a orelha. As minhas desculpas antecipadas Daniel, é por uma boa causa.

Penso que cabe a todos os homens desmistificar este paradigma tão antiquado e, claro, ultra sexista. Porque estamos novamente a perpetuar o conceito de que as mulheres devem ser tratadas de forma diferentes do homens, menosprezando-as a elas e limitando-os a eles. A génese deste texto surgir a ver material promocional dos rapazes do Queer Eye que, de tão afetuosos que são uns com os outros, me impressionaram. E incomodaram-me um pouco talvez: não é suposto homens serem tão afetuosos uns com os outros, nem que sejam os melhores amigos. Mas há que desconstruir esse incómodo imposto por uma sociedade patriarcal e perceber o quão artificial é. Não há nada de errado em dar beijos  e abraços que garantem que as ancas se tocam. Não há nada de mal em sentar ao colo de um amigo e pousar a cabeça no ombro. Não há vergonha em levantar a voz duas oitavas quando vemos alguém de quem gostamos e já não vemos há muito (ou pouco) tempo. Nós, homens gay (mais ou menos) desarmariados, temos ligeiramente menos caminho a trilhar, mas cabe-nos exatamente a nós normalizar demonstrações públicas de afeto no masculino. Independentemente da orientação sexual do destinatário e das reações cáusticas que essas demonstrações vão definitivamente ter. Beijem-se, abracem-se, toquem-se. O amor não é só entre namorados e namoradas e tem de ser disseminado e demonstrado como tal.

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