
Fosse a incoerência gramatical o único problema com esta afirmação. A verdade é que, para além de Bolsonaro, ainda muitas, demasiadas vezes, escutamos isto de familiares, de gente que nos é próxima, de gente que nos amparou ao colo, nos deu de comer, limpou, sossegou e, porventura, amou. E, no entanto, “preferia que tivesses morrido.“
Quando a realidade se torna óbvia ou se desembrulha perante as pessoas que nos viram nascer nem sempre temos a sorte de continuar a tê-las por perto da mesma forma como até aí. Podemos dizer que, se a realidade muda, também as relações perante esta nova realidade se vêem obrigadas a mudar. Mas a verdade é que este é todo um continuado processo que nos muda perante aquela pessoa, seja mãe, pai ou avó. “Preferia que tivesses morrido.“
Que expetativas retiramos para um futuro partilhado com alguém que nos disse, olhos nos olhos, estas quatro palavras? “Preferia que tivesses morrido.” Que impacto tem uma frase deste calibre sobre uma pessoa num momento de fragilidade e exposição extremos? De que vale a negação da mesma? “Não foi bem isso que quis dizer!” Então, o que quiseste, exatamente, dizer, (mãe)?
São momentos destes que ainda consigo reviver ad eternum quando o mundo cinzento se impõe no meu dia-a-dia. Sei das circunstâncias, posso até fazer um esforço para entender as atenuantes, mas é algo que me persegue mais vezes do que gostaria de admitir. E, ainda assim, há desencadeadores que me obrigam a regressar àquela noite. “Preferia. Que. Tivesses. Morrido.” Olha, vai pró caralho, Bolsonaro!

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