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Aborto ou não, eis a questão

A questão do aborto é e será sempre polémica. Se por um lado temos as vozes que se afirmam a favor, do outro estão as que defendem a vida, mesmo antes desta existir. Durante anos as mulheres foram condenadas por tomarem decisões sobre o seu corpo e vistas como umas criminosas pois a sua prática era ilegal. Não precisamos de recuar muito para relembrar imagens, quase anedóticas, de mulheres a serem acusadas, por outras mulheres, de matarem os filhos. E os homens apontavam o dedo como se tudo tivesse acontecido por magia.


Ora a questão é bem mais pertinente do que se possa pensar. Quando havia denúncia da prática da interrupção voluntária da gravidez, nome pomposo que só serve para abonecar uma realidade dura e crua, as meliantes eram levadas a tribunal e condenadas. Sempre mulheres, acusadas pelas suas iguais mas com palavras de ódio e de falta de sensatez. Qual é a mulher que toma uma decisão destas de ânimo leve? É uma mancha que fica impregnada no seu coração que não sai nem com a chegada de outros filhos amados e criados. É um reduto que envolve um questão emocional potente.
Dir-se-ia que em Portugal as mulheres engravidavam sozinhas pois a presença de homens era nula. Eram tempos impossíveis de tal acontecer pois assumir responsabilidades por actos fortuitos ou mesmo premeditados, não era uma situação que fosse do agrado geral. Umas vezes seriam relações esporádicas, outras extra conjugais e outras meramente sexuais. No entanto a mulher ficava abandonada perante o facto consumado. Sempre só e desamparada. Mulher.


Um dos filmes que aborda esta questão é Vera Drake. Passado nos anos 50 do século passado, na cidade de Londres, retrata a vida de uma mulher da classe baixa que vive com a sua família e se dedica a ajudar quem mais precisa. É duma humanidade incrível e não pensa em lucros materiais mas somente nos aspectos morais por isso tudo o que faz é para que nada falte a quem mais necessita. 


Entre as suas múltiplas actividades encontra-se a prática de libertar mulheres de gravidezes indesejadas. É extremamente carinhosa com as pacientes e não lhes cobra nada pois sabe que o que fazem nada tem de agradável. É uma espécie de mutilação psicológica que as irá acompanhar sempre. Deixa-as confortáveis e menos culpadas. O que ela desconhece é que a pessoa que a contacta é uma comerciante e cobra os seus serviços.
Na vida nada é de graça mas a bondade e o altruísmo não têm preço nem tabela de valores que possa ser negociada. Vera estava convicta que fazia o melhor por aquelas mulheres que se encontravam desesperadas. A outra senhora, que ela pensava ser sua amiga, não raciocinava do mesmo modo e por isso era remunerada por um serviço que nem executava. 


Um dia Vera é detida em casa. É um enorme choque para a sua família que não estava a par das suas múltiplas capacidades. É logo julgada por todos, os seus e acaba condenada a uma pena de prisão. A sua vida torna-se num inferno e ela penitencia-se por ter abandonado a família. Uma mentalidade ainda bem arreigada de culpa e medo. O marido, a quem ele venerava e amava profundamente, é o seu maior carrasco.


Hoje, depois de muitas lutas, avanços e retrocessos, finalmente existe uma lei que defende quem tem que se servir duma situação limite como a interrupção duma gravidez. Não foi fácil e acarretou muitos ódios e desavenças com outros que se opuseram sempre a que o estado assumisse a parte que pode ter nestas responsabilidades. E foram mais os homens que levantaram a voz. Um corpo que não é dele e que entendiam poder ser manietado com efeitos legais.


Mesmo que advoguem que as crianças podiam nascer e ser adoptadas por famílias que as possam criar, isso também implica um elevado custo ao mesmo estado que terá que criar condições para tal. Como sabemos o sistema de adopção é uma via sacra de impedimentos e de rampas que só serve para provar que não há interesse em resolver este problema enorme. Por outro lado existem crianças que nunca poderão ser acolhidas por diversos motivos e o mais comum é a idade.


Existe ainda um outro aspecto que raramente é mencionado mas convém lembrar. Grande parte dos que se opunham à legalização do aborto é quem vivia da clandestinidade do mesmo. Praticado em circunstâncias desumanas, nos chamados vãos de escada, eram a solução para muitas mulheres que se endividavam para esquecer aquela gravidez incomodativa. Claro que quem recebia esses montantes não colocava questões morais mas sim meramente económicas.


Para estes seria o fim do seu negócio milionário e da vida fácil que podiam ter. Alguns eram realizados em clínicas privadas e aí as condições eram do melhor bem como o montante solicitado. Entende-se que tenham oferecido resistência à sua perda de elasticidade monetária. Mas não condenavam a sua prática, apenas a asseguravam, como tem acontecido ao longo do rumo da história. E nestes casos não há juramento algum que seja lembrado.
Esta é uma situação que não deve ser apenas feminina. A mulher engravida com um parceiro e este deve continuar a ter um papel importante. Se a decisão é tomada, não interessando os motivos, a continuidade da relação, mesmo que acabe logo, deve permitir que não seja a mulher não fique ostracizada, que tal não aconteça em solidão. Depois da tempestade passar fica sempre o vazio que persiste e teima em aparecer quando muito bem entende.


Depois vem o recomeçar, voltar à vida que existia antes como se nada tivesse acontecido. A dor, fininha, um dia passa mas durante muito tempo, demasiado, persiste não apenas no corpo mas também na alma, aquele enorme e sensível arquivo que tudo acumula e regista para a posteridade. O corpo passa a ser a alma e a mulher é verdadeiramente um uno imperfeito mas carregado de mistérios que continuam por desvendar.

Fotografia por Oleg Ivanov.

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