E se Jesus fosse gay?

No episódio especial de Natal da Porta dos Fundos, chamado A Primeira Tentação de Cristo, Jesus completa 30 anos e leva um convidado especial para conhecer sua família: o seu namorado. Entre polémica, 1 milhão de assinaturas para a proibição do episódio e a crítica de Bolsonaro, filho, pergunto: E se Jesus fosse gay?

O que se alteraria na sua história? Em que é que o seu simbolismo mudaria? O que estaria, de facto, errado com ele?

Se não fosse todo o contexto histórico de há dois mil anos, a resposta seria fácil: nada. A mensagem de Amor, Paz e perdão manter-se-iam intactas, tal como – pasmem-se! – uma pessoa gay, lésbica ou bissexual é capaz de nela se rever e ser também símbolo desses princípios humanistas. Mas a verdade é que o contexto histórico, tanto no passado como no presente, conta e faz-se impor sem qualquer margem para dúvidas. Se há dois mil anos, fosse Jesus Cristo gay, teria sido provavelmente apedrejado ou crucificado até à morte muito antes de completar 33 anos; hoje em dia temos mais de 1 milhão de pessoas a assinar uma petição para que um episódio satírico onde Jesus é gay seja proibido. Ok, talvez hoje a reação seja um pouco mais sofisticada, mas o impulso é o mesmo do apedrejamento. Esta é uma crucificação simbólica do que simboliza ser Jesus gay. E, como tal, é profundamente reveladora da homofobia em que a sociedade ainda vive. A diferença é que hoje em dia apenas existe maior largura de banda do que antigamente. De que têm, afinal, medo? Se Jesus fosse gay, assim fosse, ora! Ao menos as vestimentas e chapéus fabulosos de cardiais e papas fariam muito mais sentido!

Todo este episódio cheira a mofo e lembra-me cada vez mais um regresso ao passado, em que A Vida de Brian (1979), dos Mounty Python, ou A Última Ceia (1996) do Herman José, ou ainda o livro Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), de José Saramago, foram recebidos com semelhante protesto. A diferença é que este gritante protesto acontece em 2019, ou seja, 40 anos depois de uma primeira polémica semelhante.

Fica assim claro que qualquer fuga ao que está escrito na pedra, qualquer reinterpretação a escrituras, qualquer desvio a uma história é vista automaticamente como blasfémia, pecado, apedrejável. Quer parecer-me que vivemos num ponto de retrocesso, um ponto de viragem, um ponto que nos quer aproximar de falsos saudosos antigamentes, de tempos em que quem era diferente era crucificado. Não matemos, pois, Jesus Cristo mais uma vez.

Atualização 26 de dezembro 2019:

Após o ataque em pleno dia de Natal às instalações do Porta dos Fundos, um grupo que se identifica como integralista reivindicou o ataque com cocktails molotov contra humoristas e o seu especial de Natal da Netflix.

Este episódio esteve em destaque no podcast Dar Voz A esQrever:

 

Atualização 9 de janeiro 2020:

Tribunal ordena à Netflix que retire o filme da Porta dos Fundos. Decisão de juiz desembargador do Rio de Janeiro obriga ao pagamento de multa elevada por cada dia que a multinacional americana demore a acatar a ordem. A decisão do desembargador Benedicto Abicair é justificada por entender ser “mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, maioritariamente cristã, até que se julgue o mérito do agravo”. Ora aqui está um ótimo exemplo da muito incompreendida censura. O Brasil é hoje um país um pouco menos livre, um pouco menos risonho.

Atualização 10 de janeiro 2020:

Supremo tribunal anula censura ao especial de Natal da Porta dos Fundos.
Presidente do Supremo decidiu que a reclamação da Netflix era válida e anulou decisão do tribunal do Rio de Janeiro. “Não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã”, diz o juiz-presidente Dias Toffoli. Haja justiça e que a resistência à censura perdure, porque o Brasil merece mais.


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