Como Se Constrói Uma Identidade Sonora? Discussão Sobre O Vídeo Cyborg, De Løyd

No seu Facebook oficial, o músico belga Løyd escreve, a respeito do estilo da música e da escolha da capa para o seu primeiro álbum: “eu queria fazer uma gravação de música eletrónica violenta, mas sonhadora & melódica ao mesmo tempo – daí a arte visual, com a parede e a câmara de vigilância (máquinas, distopia) e um céu cheio de estrelas (o lado sonhador).” Acontece que podemos usar os mesmos adjetivos para descrever o seu vídeo musical CYBORG, do mesmo álbum, o problema é que estes estão ligados à representação da mulher e, como discutirei de seguida, da questão da ocultação e/ou revelação de identidades de género em público. É um vídeo de 2019 e a música conta com a participação da cantora Annie Sama que nunca aparece no ecrã. Os realizadores são Gordon Delacroix e Maxence Lemaire e, suspeito, que a ideia por trás da conceptualização é ter como pano de fundo a mulher como ciborgue, e não questões LGBTI+ (apesar de detetar uma bem gritante!!). 

Nenhum dos músicos é um ator, porque a narrativa audiovisual, com música eletrónica de dança, foca a atenção no manequim que está no interior de um espaço doméstico. Os diversos objetos que estão à sua volta dizem-nos muito sobre esta figura. São um batom, uma pulseira de pulso e outra de braço, um cachecol, um copo alto com vinho e cartas com o logótipo do músico. Complementando o enquadramento com o tema lírico geral, é-nos dito que o sujeito narrativo “want to be your loved one” e “want to be your cyborg”. Em termos da estrutura musical, sons e imagens seguem a lógica do verso e refrão. A sequência durante o verso é estática, a câmara desliza em linhas imaginárias, mostra planos de detalhe enquanto Annie Sama canta com um timbre mais neutro. Pelo contrário, no refrão tudo é mais dinâmico e energético.

Em produtos digitais o equivalente à corrupção da fita magnética é conhecido como glitch, e são erros provocados pela má leitura e processamento dos dados. Isto gera alterações no vídeo e reflete-se no tipo de som e imagem que chega ao áudio-espetador (o que podemos generalizar como ruído de fundo ou estática). Na fita magnética, os problemas mais comuns geram grãos na imagem e linhas horizontais, e são elementos que quebram a nossa sensação de imersão, dizem-nos que estamos a ver um objeto tecnológico porque a sua nitidez desaparece. A técnica sonora de oscilador de baixa frequência que Løyd emprega no refrão constrói uma sensação de pulsação instável que joga com estas imagens de glitch. Os planos mudam rapidamente, são sobrepostos, as luzes do espaço estão intermitentes, e quando a voz de Annie canta está hierarquicamente abaixo dos outros instrumentos musicais, ela é dominada pela tecnologia. O que a cantora diz durante toda a música são frases que sublinham que quer ser amada e ser a ciborgue de alguém. Isto revela dois momentos em diálogo, o verso é tranquilo, expositivo nas imagens e na componente lírica, e a voz está ‘naturalizada’; já o refrão é rápido, tem um foco na dimensão instrumental, na manipulação da voz e procura reforçar a condição (de subjugação) em que ela se encontra. Com isto em mente, deduz-se que os marcadores de feminilidade e a associação entre ser amante e ciborgue colocam na manequim uma representação da performance de género, talvez do que é ser mulher. 

Mas isto tem muito de aparência porque a letra diz-nos que ela é dominada por alguém ou algo. Na introdução do vídeo ouvimos um breve diálogo, sussurrado e equalizado para que soe a uma gravação. O texto termina com as frases “I’m going to be your show / Showing out an MPC / I am on a nice tour”. Para compreender esta metáfora é importante ter em mente que as sílabas M.P.C., e o contexto de espetáculo, não abonam muito à emancipação da mulher. MPC é o acrónimo de music production controller, um dispositivo desenvolvido pela empresa Akai no ano de 1988. As suas funções de sampler e sequenciador tornaram-no num instrumento fundamental para o desenvolvimento da música eletrónica de dança e do hip hop, porque armazenava um conjunto de amostras sonoras que podiam ser ativadas acionando um botão. Quando a mulher sugere que irá ser o objeto de atenção de alguém (“your show”) e ainda por cima de um MPC, ela está a revelar que, das sombras (e o vídeo tem muitas), alguém a controla. Recorde-se que a letra reforça constantemente que quer ser amada, fazer parte de fantasias de alguém (não das suas!) e quem a amar pode escolher se quer que ela tenha os olhos da cor azul, castanho, cinzento, vermelho, branco ou verde (espera, o outro é que escolhe o seu corpo…?!). O que está em causa é que ela é, tal como um MPC, é o resultado dos desejos alheios…

Isto leva-nos ao último aspeto do vídeo, a revelação do corpo no clímax. Considerando que quem canta é uma mulher, as cartas de Løyd que estão na mesa podem, a princípio, sugerir que a cantora é a ciborgue/manequim e Løyd, o seu hipotético amante, é quem a controla, afinal de contas é um DJ que aciona controladores na mesa de mistura. Contudo, devemos ter em consideração que apesar de todas estas pistas musicais, líricas e visuais, a manequim permanece sentada, imóvel e com a cabeça coberta por um saco de tecido preto. Além disso, no primeiro refrão existe um plano onde as luzes da sala tornam-se intermitentes e o seu corpo é brevemente substituído por outro, desta vez de um humano. 

A conclusão do vídeo não expõe quem é esta personagem humana, mas dá-nos pistas através da manequim. A câmara, quase estática, revela a sua cabeça descoberta e é igual à de Løyd! Ora, a letra é neutra relativamente à identidade de género e até agora assumimos sempre que era uma mulher que narrava porque é, afinal de contas, a voz de Annie. Só que o corpo dificulta a atribuição de uma identidade normativa e até do binómio homem/mulher. Nesta associação entre manequim e músico cria-se um corpo queer. Pode isto querer dizer que Løyd, se for interpretado por quem observa/ouve como um homem, está a sair do armário? É essa a dimensão do sonho no vídeo? Que identidade de género esta personagem tem, deseja ou é forçada a ter? Considerando que se trata de um espaço doméstico onde muitas vezes podemos apresentar uma performance de identidade mais segura do que no espaço público, porque esconde então a sua cara? É a violência na vergonha? Afinal, das sombras que tanto abundam neste vídeo, talvez o controlador não seja Løyd, mas uma representação simbólica dos padrões sociais que forçam papéis aos humanos.

Por André Malhado

Socio-musicólogo, músico e acafã de ciberpunk.

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