
A Eurovisão sempre foi um palco para a música, mas também para as tensões políticas que atravessam o velho continente e as suas fronteiras. Em 2024 e 2025, uma dessas tensões tornou-se impossível de ignorar: a participação de Israel no festival, num contexto de guerra brutal em Gaza.
Desde o terrível ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, que matou 1.195 pessoas em Israel, a resposta do governo de Benjamin Netanyahu foi uma campanha militar de larga escala sobre Gaza. Em abril de 2025, o número de mortes ultrapassava as 52 mil pessoas. Estima-se que mais de 65% das vítimas sejam mulheres, crianças e pessoas idosas — com mais de 18 mil menores mortos e 2.200 famílias completamente dizimadas.

Mais, a Organização Mundial da Saúde denunciou que pelo menos 57 crianças morreram de fome na Faixa de Gaza desde março, devido ao bloqueio humanitário imposto por Israel ao enclave palestiniano. Trata-se de uma catástrofe humanitária que muitas organizações, como a Human Rights Watch ou a Amnistia Internacional, já classificam como crimes de guerra ou mesmo genocídio.
[Na imagem, Siwar Ashour, de 5 meses, e com apenas 2,9kg.]
O palco da Eurovisão, que se afirma como apolítico, não está imune a estas realidades. A Rússia foi suspensa do concurso em 2022 após invadir a Ucrânia. A questão que se coloca e se adensa é: até quando Israel se manterá na Eurovisão?
A pressão tem sido crescente para o afastamento de Israel da Eurovisão
Artistas e emissoras públicas têm vindo a exigir o afastamento de Israel do festival. Importa reforçar que esta não se trata de uma crítica ao povo israelita no seu todo, até porque sabemos a resistência interna existente contra o regime, mas sim à política do seu governo, liderado por Netanyahu, que tem sido acusado de crimes de guerra e de cometer atrocidades contra a população palestiniana.
A manutenção da participação israelita é assim vista por muitas pessoas como uma forma de pinkwashing e de limpeza da imagem do Estado de Israel — sobretudo num evento marcado historicamente pela celebração da diversidade e pelos direitos das pessoas LGBTQ+.
Há quem defenda, no entanto, que o afastamento de Israel poderia silenciar uma das poucas vozes livres que restam no país. A emissora pública israelita Kan, responsável pela participação no festival, tem estado sob ameaça direta do governo, que pretende encerrá-la para controlar a comunicação social. Caso isso acontecesse, Israel teria de abandonar a Eurovisão por não cumprir os critérios de independência jornalística exigidos pela União Europeia de Radiodifusão (EBU). Manter a Kan poderá ser uma forma de preservar algum espaço de liberdade de imprensa em Israel. Mas a que custo?
A cultura será sempre política, até quando se afirma apolítica
A EBU tem recusado afastar Israel, escudando-se num princípio de separação entre política e cultura. Uma posição difícil de sustentar quando a presença de um Estado em guerra — que destrói indiscriminadamente vidas civis — se faz num dos palcos televisivos mais vistos em todo o mundo.
Outro detalhe relevante: o maior patrocinador da Eurovisão é a Moroccanoil, empresa israelita que se tornou omnipresente nas edições recentes do concurso. A presença financeira israelita levanta ainda mais questões sobre a sua influência na decisão de manter o país presente no evento.
A Eurovisão construiu a sua identidade em torno de valores como a inclusão, a paz e a liberdade. A presença de Israel neste contexto levanta a premente questão: é possível continuar a proclamar esses valores ignorando o massacre de um povo?
A cultura tem poder. E, ao contrário do que por vezes se afirma, nunca é neutra. Ignorar isso é fazer parte do silêncio — um silêncio que, neste momento, mata.
A Eurovisão não é só entretenimento — é também uma escolha política, mesmo quando se tenta negá-lo. Permitir que Israel continue a ocupar o seu palco, enquanto a Palestina é devastada e silenciada, é tomar uma posição incoerente face ao seu histórico recente. É escolher o conforto de um espectáculo manipulado, que silencia protestos e proíbe bandeiras, em vez da solidariedade. Num festival que se diz celebrar a diversidade e a liberdade, é urgente perguntar: Até quando estará a Eurovisão do lado de uma Israel genocida?

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