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Como é que a Eurovisão se tornou num festival de celebração Queer?

O festival tornou-se ao longo das décadas num farol de inclusão transmitido diretamente a milhões de lares todos os anos.

Drag queens, beijo entre mulheres e homens ou uma campeã trans fazem parte da história oficial da Eurovisão, o Festival de Música Europeu que reúne todos os anos centenas de milhões de pessoas e o torna num dos maiores palcos televisivos à escala global. Lentamente, mas com certeza, a comunidade LGBTI encontrou um espaço acolhedor na extravagância musical anual europeia e não só.

Muitas das maiores e mais dedicadas fãs do festival, aquelas que acompanham a Eurovisão durante todo o ano, são pessoas pertencentes à comunidade LGBTI“, disse em 2015 Sietse Bakker, supervisor de eventos da Eurovisão.

Mas o holandês disse que a ampla base de fãs da Eurovisão dificilmente poderia ser definida pela orientação sexual. “Queremos produzir ótimos programas de TV que agradem ao maior número de pessoas: Não importa de onde sejam, não importa se são homens ou mulheres, jovens ou seniores, na Europa ou fora, brancos ou negros, homossexuais ou heterossexuais”, reforçou.

A verdade é que o festival continua a ser um evento global, assistido por mais de 180 milhões de pessoas em todo o mundo, de Portugal ao Azerbaijão e até à Austrália, que participa no festival desde 2015.

A Eurovisão começou na década de 1950 com um reportório de músicas suave e convencional. No entanto, a década de 1970 introduziu a disco e a excentricidade no concurso de música. A Eurovisão adotou o estilo irreverente e nunca olhou para trás.

Brian Singleton, professor de Drama e Teatro no Trinity College em Dublin, escreveu um artigo sobre a sociologia da Eurovisão para o Society of Queer Studies Journal em 2007. Nele disse que homens gays que cresceram nos anos 60 e 70 reencontraram-se em torno do evento anual enquanto o assistiam em casa com as suas famílias. Numa altura em que a convenção social dizia aos homens para mostrar extrema contenção emocional, a Eurovisão era uma lufada de ar fresco na vida destas pessoas.

A Eurovisão está cheia de emoção. Todas aquelas músicas sobre paixão e amor num programa televisivo em direto em que nem sempre as coisas correm bem, aumentando assim a emoção de quem assiste. E apenas uma pessoa ganha o festival, é uma ótima experiência emocional”, disse. “Essa é a diferença que tornou a Eurovisão tão atraente. O glamour, o espetáculo, são todas aquelas coisas em que os homens gays investem para fugir das normas de masculinidade”, observou Singleton.

Nas décadas de 60 e 70, a Eurovisão também era uma janela rara para a Europa, com os países ainda em grande parte isolados uns dos outros. “Na altura só tínhamos emissoras nacionais. Só tivemos acesso a uma coisa, a uma visão do mundo, a uma língua. E uma noite por ano, podíamos ver pessoas de outros países e outras culturas e como elas eram diferentes.”

Singleton, que continua um grande fã da Eurovisão, argumenta que a oportunidade de ver pessoas na TV que eram diferentes de si mesmo ajudou homens gay a aceitarem-se como sendo fora da norma e até mesmo celebrar essa diferença – um processo pelo qual muitos homens gay e queer passam.

Iluminar os diversos idiomas, estilos e culturas da Europa – e do mundo – permanece no centro do concurso hoje em dia. “Quando misturamos todas estas culturas diferentes, automaticamente criamos um ambiente onde ser um pouco diferente é aceite, onde as diferenças não importam,” explicou Bakker. “As pessoas que participam na Eurovisão não se vêem como gay ou heterossexuais. É apenas um grande caldeirão de várias origens diferentes, e ser gay ou hétero é apenas uma parte da nossa diversidade.

De Dana a Conchita

Apesar do clima de inclusão, a Eurovisão “saiu do armário” gradualmente, e que essa mudança começou com o público.

Homens gay já organizavam festas de exibição do festival há anos, quando os primeiros grupos de fãs LGBTI da Eurovisão começaram a surgir na década de 1980. A tendência só se tornaria mais forte na década seguinte.

No final dos anos 90, já havia essa associação bem estabelecida entre a Eurovisão e as identidades LGBTI em termos de fandom”, disse Catherine Baker, historiadora da Universidade de Hull.

O ano de 1998 marcou uma mudança para o festival que tornaria evidente o seu magnetismo LGBTI. Para a edição realizada em Birmingham, Inglaterra, a organização decidiu colocar o público do estúdio ao lado do palco e em frente às câmaras. “Era muito óbvio que [o público] era composto principalmente por homens gay e isso enviou um sinal por toda a Europa,” disse Singleton.

As coisas também estavam a mudar no palco do concurso. A primeira apresentação com temática LGBTI na Eurovisão surgiu no ano de 1986, dois anos antes da Seção 28 proibir qualquer menção à homossexualidade nas escolas britânicas. O cantor norueguês Ketil Stokkan fez história ao apresentar-se ao lado do grupo de drag Great Garlic Girls – proporcionando o primeiro vislumbre da identidade LGBTI no festival. Atingiu um respeitável 12º lugar.

Em 1997, o cantor pop islandês Paul Oscar tornou-se no primeiro concorrente abertamente gay da Eurovisião, embora não tenha vencido. A edição seguinte levou as coisas um passo adiante, com a cantora trans israelita Dana International a vencer a competição de 1998 com a música “Diva”, que celebra as mulheres da história e da mitologia. “Esta foi a primeira vez que o grande público teve a oportunidade de ver uma mulher trans ser bem-sucedida,” disse Baker.

Ao mesmo tempo que aconteciam estes momentos de visibilidade na Eurovisão, as instituições políticas e legislativas europeias ganhavam interesse pela igualdade das pessoas LGBTI como um valor”, acrescentou. Enquanto Dana International derrubou convenções na televisão, quem legislava também começava a derrubar barreiras opressivas contra pessoas LGBTI no local de trabalho e nas forças armadas, e abrir uniões civis e casamentos para casais do mesmo sexo.

Política no festival

Várias apresentações memoráveis de membros da comunidade LGBTI continuaram a surgir. Em 2007, a sérvia Marija Serifovic venceu o concurso naquele ano com a música “Molitva” ou “oração” em sérvio. Ela e as suas cantores colegas apresentaram-se em trajes masculinos. “Se existe uma apresentação com mulheres de smoking de mãos dadas, há definitivamente um subtexto presente”, disse Baker. Serifovic saiu do armário alguns anos depois da sua vitória.

A diversidade da comunidade LGBTI saiu reforçada com a performance da austríaca Conchita Wurst em 2014. O seu triunfo foi o primeiro no festival para uma drag queen e foi um tremendo alvoroço internacional, tendo aproveitado a sua voz para discursar mais tarde no Parlamento Europeu sobre inclusão de todas as pessoas.

A Eurovisão proíbe concorrentes de fazer qualquer tipo de declaração política durante as apresentações, mas essa regra não se aplica aos discursos de vitória, e artistas estão bem cientes disso, tendo desafiado essa proibição, como foi o caso da cantora finlandesa Krista Siegfrids, que na sua performance da música “Marry Me”, em 2013, beijou uma de suas dançarinas, tomando assim partido nos debates políticos europeus sobre casamento entre pessoas do mesmo género. Em 2021 a Eurovisão contou igualmente com a primeira apresentadora trans, Nikkie de Jager.

No palco da Eurovisão, enquanto Conchita Wurst recebia o seu prémio, ela disse: “Esta noite é dedicada a todas as pessoas que acreditam num futuro de paz e liberdade. Vocês sabe quem são! Estamos unidos e unidas e somos imparáveis!

A sua declaração foi foi vista como uma resposta direta às críticas que recebeu, notavelmente por parte de políticos russos e bielorrussos, mas também transmitiu uma mensagem de unidade que tem estado no centro da mensagem da Eurovisão desde que começou. As críticas mantêm-se até aos dias de hoje, com a Hungria a considerar o festival “demasiado gay” ou ainda comentadores liberais nacionais a fazer piadas homofóbicas em pleno 2021.

Embora muitos países europeus e mundiais permaneçam terrivelmente divididos no que toca aos direitos das pessoas LGBTI, o festival serviu – e continua a servir – como um farol de inclusão transmitido diretamente a milhões de lares todos os anos nas últimas décadas. E a verdade é que, para algumas pessoas, é uma fonte de mero entretenimento, para outras um evento espetacular seguido acerrimamente, para a maioria delas, a Eurovisão representa hoje uma celebração das identidades LGBTI e Queer. Celebremo-nos!


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O nonagésimo sexto episódio do Podcast Dar Voz A esQrever 🎙️🏳️‍🌈 é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Gonçalves. Falamos do artigo do Diogo Pereira sobre a iniciativa anti-homofobia na União Europeia, do feito pelo André Malhado a analisar o novo video de Gloria Groove e ainda falamos das Autárquicas desta semana e das nossas idas ao Queer Lisboa. No Dar Voz A… destacamos Star Crossed, o novo álbum da Kacey Musgraves e o regresso de Sex Education. https://open.spotify.com/episode/3oZ3gCsKRFi6dGnVwD6ovH Para participarem e enviar perguntas que queiram ver respondidas no podcast contactem-nos via Twitter e Instagram (@esqrever) e para o e-mail geral@esqrever.com. E nudes já agora, prometemos responder a essas com prioridade máxima. Podem deixar-nos mensagens de voz utilizando o seguinte link, aproveitem para nos fazer questões, contar-nos experiências e histórias de embalar: https://anchor.fm/esqrever/message 🗣 – Até já unicórnios 🦄 Música por Gloria Groove; Jingle por Hélder Baptista 🎧 Este Podcast faz parte do movimento #LGBTPodcasters 🏳️‍🌈
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