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Entrevista exclusiva a Gisela João: “Ser mulher aponta afincadamente a direção da história que é contada no álbum”

Não são todos os dias que entrevistamos uma das vozes mais reconhecíveis e marcantes dos últimos anos em Portugal. Por isso é que, naquela manhã fresca de maio, sentimos um agradável misto de nervosismo com excitação. A primeira vez que fora entrevistada neste espaço, havia sido em diferido. Um envio de questões e uma entrega de respostas depois de alguns dias. Foi bom. Foi mais que bom, foi ótimo! Mas nada que se aproxime ao imediatismo de vermos alguém a conversar connosco. Naquela esplêndida manhã era mesmo isso que iria acontecer. Gisela João surgiu diante dos nossos ecrãs tal como a própria manhã, fresca, de sol a bater na janela de casa e o convite de um sorriso imediato que nos deixou à vontade.

Louca, o primeiro single retirado do álbum AuRora, é também um tremendo ícone no fado, culpa do transgressor Barco Negro de Amália Rodrigues, e que nem toda a gente arrisca pisar, e que está também na iconografia operática, nos dramas e nas tramas das nossas vidas. No vídeo musical que acompanha a canção vemos duas mulheres numa cama em rutura. Porquê duas mulheres? Gisela João explicou que estava a deixá-la “desconfortável” contracenar com um homem, e essa era a ideia original. “Porque é sempre mais do mesmo”, confessou, “é eternizar aquilo que a sociedade nos diz que é normal”. 

Foi nessa inquietude que Gisela pediu então “uma menina, porque sim! Porque”, disse, “para mim é tão natural ser um casal homem-mulher, como mulher-mulher, homem-homem…” Na sua expressão, e com a ajuda de umas mãos em eterno movimento, Gisela confessou que ter que explicar isto até a “incomoda”, porque “o que é que interessa o género honestamente?” Interessam-lhe, sim, “pessoas boas” e disse não pensar “nas pessoas consoante o seu género”. 

Mas deixou igualmente o aviso, quando diz ‘não lhe interessar’ não significa que ‘não queira saber!’, apenas que “não é isso que é importante” para a Gisela. “O importante é o ser que está diante” e por isso “foi tão importante mudar a personagem” no sentido de normalizar assim todas as relações, porque, acredita, “por essa via é mais fácil mudarem-se mentalidades.”

Gisela tem afirmado que este seu novo álbum é mais intimista e, nesse sentido, nós quisemos saber como esta intimidade se relacionava com o seu trabalho enquanto artista e mulher. Gisela respondeu que “o facto de ser mulher aponta muito afincadamente a direção da história que é contada no álbum todo”, e a cantora procurou deixar isso bem claro ao desenhar com a mão um caminho, o seu caminho. As múltiplas facetas do género são muito claras para ela, porque disse-nos que “é muito grande isto de se ser mulher, é muito complexo e essa complexidade é a grande riqueza que é ser este ser vivo que sangra todos os meses, que dá vida”. Reiterou que ser mulher está na “leitura e o entendimento de todos os poemas”, na forma como os canta e na elaboração dos textos que são sempre na primeira pessoa. Gisela João expressa através da música de AuRora uma visão do mundo onde transparece o que sente que é ser mulher, os comportamentos, a maneira de falar e sentir, porque “está muito ligado ao facto de ser mulher e viver na pele de mulher” desde que se conhece.

AuRora é um disco que combina a sonoridade do fado com a eletrónica e, por essa razão, tornou-se mais tecnológico. Quando questionada sobre o que isso significa para ela, disse-nos que “na música, e em tudo na vida, acho que é uma missão que eu tenho, adoro poder desconstruir e provar que as coisas podem valer à mesma se forem apresentadas de outra forma”. Para a cantora, o fado não é rígido nem se define “pela forma como a fadista se veste, é uma mensagem, é uma forma de estar na vida, é um sentimento.” 

Para explicar onde é que a eletrónica encaixa em tudo isto, Gisela contou-nos uma breve história do seu passado: “comecei a cantar muito pequenina e quando era adolescente comecei a ouvir música eletrónica, ali nos meus 15 e 16 anos (…). Então estas duas coisas, o fado que me dá uma abrangência para todas as músicas de raiz e a eletrónica sempre viveram em paralelo comigo.” Curiosamente, o equilíbrio entre os dois géneros emerge de um pensamento que teve, disse-nos: “Gosto tanto de Thom Yorke. Como é que ele faria isto? Foi muito esse o exercício feito aqui, pensar que, como gosto tanto de música eletrónica, como a consigo encaixar aqui?”. E foi assim que surgiu AuRora, num dosear da instrumentação da eletrónica com o fado, “para que o sentimento que este género musical pede continue a viver no seu todo”. 

A conversa conduziu-nos a um dos aspetos musicais que descobrimos ser importante para a Gisela: o silêncio. Perguntámos sobre as respirações e outros pequenos sons que na música são muitas vezes vistos como ‘impuros’ a apagados no estúdio de gravação. Como resposta sobre se foram ou não propositados, a cantora fez um paralelo com a vida e disse-nos que “a música para mim é uma continuação da vida e não pode ser perfeita. Música perfeita é chata!”. De forma poética a cantora descreveu ser “muito obcecada com o silêncio” porque, tal como as pausas e as inspirações, todos “contracenam com os instrumentos” e “fazem parte da interpretação, de como estou a dizer aquela palavra”. Por isso é que aspetos que seriam ‘impurezas musicais’ para algumas pessoas, são um símbolo da autenticidade de Gisela que deseja que essa “veracidade esteja lá bem latente.”

Neste seu novo álbum, Gisela tem um dos temas mais bonitos, “Budapeste”, que escreveu em parceria com a Lilla Fadista/Tiago Lila dos Fado Bicha. Quando questionada sobre a abordagem deles ao fado, a cantora é da opinião que “Eles fazem um trabalho bom e devem ser reconhecidos por isso, cantam e tocam bem. Têm todo um universo musical em que aquilo é verdade e aquilo toca a sejam quem for, só quem tiver uma pedra no meio peito é que não o sente.“ Especificamente sobre a música, a fadista confessou-nos uma parte da sua experiência na elaboração desta música. Para contar como ligou para o músico, começou então a encarnar uma personagem, “Tiago, please, escreves-me aqui uma parte?”. Devido às limitações do contrato, Gisela “estava em estúdio, tinha timings para ontem.” Lilla Fadista com a sua naturalidade, respondeu-lhe “eu vou focar-me, isto vai acontecer!”. E o resultado foi extremamente positivo, ao ponto da Gisela admitir que “tem uma das frases mais bonitas que é ‘encontrei a língua nova que faltava ao meu coração’”.

Neste momento tivemos um pequeno interlúdio virtual. Enquanto nos preparámos para  seguir com a conversa Gisela levantou-se do sofá em que estivera sentada e viajou com o portátil pela casa à procura do melhor wi-fi num momento que nos fez lembrar um episódio exclusivo de Cribs.

Quando chegou ao seu destino, prosseguimos com a conversa sobre uma das suas músicas, “Saia da Herança”. Cheia de referências à mulher, desde a saia do título ao choro da criança e ao seu monólogo, Gisela construiu uma mensagem de memórias maternas. Ao mesmo tempo, é uma faixa com uma melodia eletrónica tranquila e melancólica que nos transporta por uma viagem pela herança. Mas que herança? Questionada sobre se estaria ligada ao feminino ou ao fado, a cantora explicou como cresceu ao ver a mãe a costurar, “cresci no meio dos trapos”. Parte da sua infância “era o barulho de crianças, o barulho dos meus irmãos a correr pela casa enquanto a minha mãe costurava”. Esta sua ligação ao universo feminino surgiu no processo de composição da música. A fadista contou-nos que “na altura recebi a música do [António] Zambujo a tocar à viola” e pediu a Justin Stanton, o músico norte-americano e atual namorado, para a tocar ao piano. Mais tarde, a própria Gisela decidiu numa manhã ir para o computador gravar a sua voz e alterou o som do piano “para um som estilo Twin Peaks”. Foi esta modificação para a sonoridade eletrónica que fez o click, e perguntou-se “o que faz parte deste universo que me toca tanto?” Encontrado o caminho para a música, Gisela construiu uma paisagem sonora para contar uma parte das suas memórias, incorporando no fado a tradição da música concreta, e terminou com um último elemento: “gravei também a minha voz como se estivesse a dar uma entrevista ao telefone sobre a minha relação com os trapos”. 

Sou muito regida por uma frase que gosto muito: “não é por te vestires da feira que és da feira, não é por te vestires de médico que és médico, não é por te vestires de pessoa séria que és mais séria que as outras”. Na música, e em tudo na vida, acho que é uma missão que eu tenho, adoro poder desconstruir e provar que as coisas podem valer à mesma se forem apresentadas de outra forma.

A semana que se aproximava aquando da entrevista fazia adivinhar, e bem, um alvoroço eurovisivo. Foi por isso inevitável perguntarmos qual a sua ligação ao Festival da Canção e à Eurovisão à qual disse-nos ter um “especial carinho” e que, tal como milhões de pessoas, “era o momento em que parava frente à televisão, eu e os meus vizinhos e Portugal inteiro”. Sobre as mudanças à própria comitiva portuguesa, que convida e promove os talentos nacionais de forma mais diversa e inclusiva que nunca, Gisela confessou que fica feliz de “ver o festival ganhar de novo uma importância geral, até porque”, conclui, “é a prova de que a música em Portugal é feita com muita qualidade”. É por isto que vê com “grande expetativa” quando o festival acontece.

Sobre o vencedor português da Eurovisão, Gisela João disse-nos que considera que o Salvador Sobral “fez um trabalho muito importante na música” e que, com a irmã Luísa Sobral, levaram ao festival aquilo que já costumam fazer: “música boa, com brio.” É neste sentido que considera que “a Eurovisão é um reflexo das músicas que cantam, o que prova que em Portugal há muito boa música a acontecer.” Lamentou, ainda assim, quando somos as últimas pessoas a acreditar no nosso próprio valor.

Com um único concerto próximo, dia 30 de maio em Ovar, Gisela João não escondeu, talvez mais do que a frustração, o lamento em não poder, para já, promover este AuRora nos palcos como habitualmente. Alternativas, como performances online, não lhe são favoráveis. “Tenho pensado em muita coisa, mas nada substitui um concerto…”, suspirou.

O tempo voou naquela manhã e quando demos conta restava-nos tempo apenas para uma despedida, mas Gisela não quis despedir-se sem antes deixar uma mensagem a quem ler esta entrevista. E não podia ser mais clara, desejando “muitos sorrisos na cara, muita esperança!” Recordando que, “por mais que as coisas não estejam bem – e às vezes estão na merda – nas nossas vidas, as coisas vão ficar melhores. Por isso”, concluiu de sorriso enorme, “um sorriso na cara, por favor!”

Este é um apanhado livre da entrevista conduzida para o Podcast Da Voz A esQrever. Recomendamos por isso a audição completa da mesma, porque, e aqui mais que nunca, a voz faz toda a diferença. Não percam!

André Malhado
Pedro Carreira


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