A importância das referências femininas nos gays

Existe realmente uma relação entre homens gay e mulheres de personalidade forte?

O tema das divas é um tema visitado e frequentemente revisitado nas conversas entre gays e sobre gays. Por que razão exercem estas mulheres uma influência tão forte na vida dos homens homossexuais?

Não havendo desejo, em traços gerais, o que não quer dizer que não haja tensão sexual, importa-me entender essa influência que, não poucas vezes, é essencial para perceber as opções e as idiossincrasias dos gays.

Creio que a resposta está no paralelo (metáfora nem por isso certeira) que podemos estabelecer entre a libertação por que as mulheres lutam, contra a misoginia e o sexismo, e a libertação por que os gays lutam, contra a homofobia. Há um pré conceito cristalizado de que são, mulheres no geral, e homossexuais também, fracos por natureza, inferiores aos homens heterossexuais. A coragem inspira. Subsiste, pois, diria mesmo, floresce, da nossa parte, um misto de admiração, com mistura de glamour e um apontamento de erotismo.

Para abordar este tema vou analisar, ainda que superficialmente, pois qualquer uma destas mulheres seria o bastante para um ou vários artigos (teses, diria), quatro personagens da ficção, desde a ópera à literatura, passando pelo cinema, assumindo o risco das escolhas, pois não são as mais óbvias. Opto pela ficção, não porque a vida real não esteja bem fornecida destas mulheres (sabemos bem que a realidade é pródiga) mas porque sabemos mais destas mulheres, idealizamo-las interiormente, fazendo-as, em muito, à medida das nossas aspirações e inseguranças interiores.

Começando por duas personagens de ópera, um oceano de misoginia, razão que me faz ficar zangado com alguns libretos ou papéis, destaco duas personagens bem conhecidas: Tosca e Carmen. Personagens muito diferentes, com destinos iguais, partilham a luta contra o despotismo misógino e violento.

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A ver, Tosca. Mulher bonita e sensual, desperta nos homens desejo e admiração. Sabe-o e faz uma gestão inteligente disso (provoca o seu amado dizendo-lhe “Arde in Tosca un folle amor!”). Encostada a um violento dilema de decidir entre a entrega a um homem odioso e déspota ou, na recusa, a condenação à morte de Cavaradossi, o homem que ama, Tosca toma a difícil decisão de entregar o seu corpo, não a alma, para salvá-lo. Mas Tosca sempre viveu livre e porque cumprido estava esse desígnio de libertação (assim o achava), assassina Scarpia, o tirano que se quis apoderar dela, porque para si a liberdade era um estado inegociável (“Ti soffoca il sangue? E ucciso da una donna! … Guardami! Son Tosca! O Scarpia!“). No fim, goradas as expectativas de libertação de si própria e de Cavaradossi, que morre segundo ordens deixadas pelo tirano rival, Tosca suicida-se, num ato de arrebatamento absoluto.

Esta ópera de Puccini, que invariavelmente me leva a um estado de comoção profunda (embora isso não seja muito difícil, na verdade), cria uma personagem que admiramos pela força, pela violência do seu caráter, única capaz de enfrentar Scarpia, o odiado tirano que se quer apoderar dela, respeitando-a pela abnegação e amor à liberdade. Choramos porque o seu destino é injusto e causa frustração e revolta.

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Destino semelhante tem Carmen. Mulher bonita e sensual que, tal como Tosca, sabe da influência que exerce nos homens, usando-o, e bem, para seu proveito. É uma mulher de amores fugazes e intensos, sempre verdadeira e para quem a veracidade dos sentimentos e desejos é inegociável. Tem uma relação com um homem possessivo, com ímpetos de a dominar e que, quando Carmen lhe comunica o fim da relação entre ambos, responde violentamente, assassinando-a. Destino de muitas centenas ou milhares de mulheres em todo o lado e, infelizmente, muito frequente em Portugal, Carmen simboliza todas as mulheres presas numa relação que não querem, ligadas a homens que não amam, mas temem, de morte. Carmen simboliza-as, não porque temesse José, pois é totalmente destemida, mas porque morre às suas mãos, enfrentando-o. Carmen nasce livre e livre morrerá (“Jamais Carmen ne cédera! Libre elle est née et libre elle mourra!“).

Bizet dá-nos uma Carmen forte e corajosa. Sensual e verdadeira, que causa admiração pela forma como encara de frente o perigo, sempre verdadeira e nunca se subjugando à misoginia. Carmen é castigada, causando revolta e frustração. Quantas Carmens existem por aí anónimas?

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Bem conhecida dos portugueses é uma outra figura feminina da literatura de Jorge Amado – Tieta, popularizada com uma novela da Globo com o mesmo nome. Tieta é expulsa da sua terra natal por ser “libertina” (coisa de que não acusam os homens) estabelecendo-se em São Paulo, onde enriquece. Regressa, 20 anos depois, rica, poderosa e sensual. Mas magoada (“Aprendi com o sofrimento. Uns trancam o coração, outros abrem, o meu se escancarou.”), porque a mágoa da rejeição, numa menina que apenas quis ser feliz, nem sempre se consegue lavar com o tempo. Apimentado com o sentido de humor de Jorge Amado, Tieta vira Santana do Agreste de pernas para o ar, não cedendo a ninguém, nem aos mais fortes homens da cidade, um milímetro do seu poder e independência. Consegue atingir um patamar de respeito e admiração, sendo temida até pelos homens, pouco habituados a que uma mulher seja tão empoderada.

Tieta, na sua versão telenovela, no início dos anos 90, foi uma pedrada no charco português de sexismo. Com um destino bem diferente do que Carmen ou Tosca, Tieta vence e alenta a esperança de quantos se sentem oprimidos por silenciamento, e por uma sociedade secular apodrecida nos cânones do machismo. Já não estamos nos século XIX de Carmen e Tosca; estamos em pleno século XX onde, porém, muito ainda há a fazer. Várias gerações ter-se-ão esquecido de muitas personagens até hoje, mas não de Tieta, cabrita.

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Por último, do cinema, no virar do século XXI, escolho a personagem de Hermione Granger, interpretada por Emma Watson, uma destacada feminista hoje em dia (“if not today … when? if not me … who?”). Miss Granger representa outra faceta de se ser mulher. É preciso esforço a dobrar para se conseguir um posto que os homens conseguiriam com metade do empenho (“The truth is that you don’t think a girl would have been clever enough!”) – valores arbitrários, evidentemente, mas metaforicamente representativos dos obstáculos adicionais impostos às mulheres. Hermione, no ficcional mundo da saga Potter, é simultaneamente sangue de lama (filha de um cruzamento entre feiticeiros e não feiticeiros) e mulher. Duplamente castigada por estas condições, Hermione é o aluno mais inteligente da escola e dá em perspicácia dez a zero aos outros. Luta contra o sexismo (recordemos Krum, um namorado que a quis forçar) e contra muitos outros preconceitos. Hermione vence e inspira muitas pessoas com a sua postura forte e determinada. Não associamos tanto esta personagem à beleza e ao glamour, porque a conhecemos desde os 10 anos, mas é uma agradável surpresa quando ela aparece sensual e glamorosa para o baile de gala, já uma jovem crescida.

O que podemos agora tirar destas quatro personagens femininas? Que inspiram elas nos gays?

Como disse no início, um motivo muito forte para a admiração é a coragem com que enfrentam os preconceitos em geral e, em particular, os homens, dominadores, os tais que não se conseguem controlar e por causa de quem é preciso tapar as mulheres, escondê-las, massacrá-las ou castrá-las. Recordemos que o feminismo tem décadas de avanço em relação à luta pela igualdade da população lgbt.

Mas, falta outra razão. Por si só, creio que o exposto anteriormente não é suficiente para explicar este fascínio.

O corpo explica o resto. Sendo óbvio que qualquer generalização é uma generalização, e que o género, ou a sua identidade enquanto expressão do self, é, em última análise, um modelo de construção da nossa sociedade, a generalidade dos homens gay é mais livre (mesmo que o não consigam admitir) para se projetar num universo mais feminino, ou que está no imaginário rotulado dessa forma e que, por força do hábito, nos habituámos a associar às mulheres. Quer isto dizer que estou a admitir que os gays são transsexuais por natureza ou têm essa tendência? Nada disso. Estou simplesmente a admitir que a internalização dos arquétipos binários é tão forte nos homens heterossexuais (e nos gays também, apesar de uma supostamente maior facilidade de se libertarem deles) que estes jamais se conseguirão projetar num universo mais feminino. Experiencie-se observar o comportamento masculino quando estes já beberam uns copos a mais e vejam como o corpo da maioria dos homens se liberta gradualmente, e como muitas vezes entram por campos que não querem admitir. É por isso que para os gays, e para as mulheres também, o corpo é o seu campo de batalha. Tudo parte do corpo, tudo termina no corpo. Em suma, mulheres cuja atitude, corpo, ou intelecto, bem vistas as coisas, conseguem controlar o seu próprio universo, não se subjugando à vontade dos outros, mulheres empoderadas, portanto, inspiram esse empoderamento noutras mulheres e, evidentemente nos gays.

Antes de terminar, há dois disclaimers a fazer. Por um lado, lutar contra a misoginia, o sexismo e a homofobia, não é lutar contra os homens heterossexuais. Há de tudo. Por outro lado, acredito que a existência deste fascínio seja muito comum nos gays, mas também há os que não o sentem. Há de tudo também.

Por fim, somos, todos, bombardeados constantemente com referências masculinas, mas isso é tão simplista quanto empobrecedor. Há, pois, que reescrever a narrativa das referências. E como dizia a canção ‘viva la diva’.

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