
Hannah Caldas, nadadora portuguesa trans a residir na Califórnia, foi suspensa durante cinco anos pela World Aquatics — antiga Federação Internacional de Natação — após recusar submeter-se a um teste de cromossomas exigido para confirmar a sua elegibilidade na categoria feminina.
A atleta de 47 anos, que compete em ligas veteranas sem prémios monetários, viu também todos os seus resultados entre junho de 2022 e outubro de 2024 serem anulados. O pedido da federação surgiu durante a verificação da sua participação no Masters World Championship 2024, apesar de Caldas ter apresentado uma certidão de nascimento que a identifica como mulher.
“O meu seguro recusa-se a cobrir um teste deste género, já que não é clinicamente necessário. Nenhum estado norte-americano exige testes genéticos para eventos desportivos como estes”, afirmou Caldas em declarações ao Público. “É o preço a pagar para proteger a minha informação médica mais íntima — fico feliz por pagar esse preço, por mim e por todas as mulheres que não querem ser submetidas a testes invasivos.”
A World Aquatics justificou a sanção com base no seu Código de Integridade, alegando que a recusa do teste configura uma violação das regras sobre elegibilidade e honestidade na categoria feminina.
O regresso das verificações de género
O caso de Hannah Caldas ecoa um passado sombrio do desporto feminino. Durante grande parte do século XX, atletas cuja aparência ou desempenho fugiam aos padrões normativos foram submetidas a exames humilhantes e pseudocientíficos — desde inspeções genitais a testes de cromossomas que produziram falsos positivos e destruíram carreiras.
Um relatório de 2023 concluiu que “as federações continuam a enviesar as regras para excluir mulheres trans e intersexo, apesar de não existir evidência científica de vantagem competitiva”.
A decisão da World Aquatics reforça essa tendência. Em 2022, a federação já tinha banido mulheres trans das provas femininas de elite, prometendo criar uma categoria “aberta” que, até hoje, nunca foi concretizada.
Entre a ciência e o preconceito
Estudos recentes continuam a desmentir a narrativa de “vantagem biológica” das atletas trans. No entanto, a pressão política e mediática — alimentada por figuras como J.K. Rowling, que tem visado publicamente Caldas — mantém vivo o debate em moldes cada vez mais punitivos.
Mais do que uma questão de elegibilidade, este caso expõe a forma como o corpo das mulheres, sobretudo trans e intersexo, continua a ser alvo de suspeita e controlo.
Como conclui Caldas, “não se trata apenas de competir, mas de ter o direito de ser reconhecida como quem sou”.
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