‘The Last of Us’ terá uma atriz cis a interpretar Lev, um rapaz trans

'The Last of Us' terá uma atriz cis a interpretar Lev, um rapaz trans

Lev, interpretado por Ian Alexander, no jogo The Last of Us Part II (2020).
Lev, interpretado por Ian Alexander, no jogo The Last of Us Part II (2020).

A decisão da HBO de escolher uma atriz cisgénero para interpretar Lev, um rapaz trans central na terceira temporada de The Last of Us, reacendeu o debate sobre a representação autêntica na ficção.

A escolha, justificada como a que “melhor encarnou o personagem”, ignora o precedente estabelecido pelo jogo original, onde Lev foi interpretado por Ian Alexander, um ator trans. Este caso não é apenas uma questão de casting, mas um reflexo de como a indústria do entretenimento lida — ou falha em lidar — com a representação de minorias.

Lev: Do jogo para a série

No jogo The Last of Us Part II (2020), Lev é um personagem trans cuja identidade é parte da narrativa, mas não o seu único definidor. Ian Alexander, ator trans que deu voz, movimento e rosto a Lev, representou um marco: um personagem trans interpretado por um ator trans num blockbuster. A série, ao optar por Kyriana Kratter (atriz cisgénero), desconsidera este avanço e a oportunidade de reforçar a visibilidade trans num meio ainda dominado por narrativas cisnormativas.

A justificação dada levanta uma questão fundamental: quem define o que é uma representação “autêntica”? A autenticidade aqui não se resume à qualidade da interpretação, mas à oportunidade de dar voz a quem vive a experiência retratada. Mais, escolher uma mulher para representar um homem trans, reforça a ideia de que esse homem é, aos olhos da produção, uma mulher. Por que não, ao menos, um homem (cis) a desempenhar o papel de um homem (trans)?

O casting transfake está longe de ser uma novidade, muito pelo contrário. Aliás, a última vez que um papel trans foi interpretado por um ator cis numa produção mainstream terá sido em Transparent (2014–2017), com Jeffrey Tambor. Desde então, tem havido uma luta para mostrar a importância de artistas trans poderem representar personagens trans. O próprio Tambor declarou, após controvérsias, que esperava ser “o último ator cis a interpretar uma mulher trans na televisão”.

Um Retrocesso em Tempos de Avanço

A decisão de The Last of Us não é um caso isolado, mas um sintoma de como a indústria ainda trata a representação trans como negociável. Enquanto o jogo original avançou as mentalidades ao normalizar a identidade de Lev sem o reduzir a um estereótipo ou a uma “lição de moral”, a série corre o risco de aumentar a invisibilidade de artistas trans, numa indústria onde papéis trans são, já de si, escassos.

O jogo, elogiado pela sua abordagem sensível, teve Ian Alexander como parte ativa da construção de Lev. Ignorá-lo é também ignorar o legado do personagem.

A polémica em torno de Lev não é sobre “politicamente correto”, mas sobre justiça narrativa. Enquanto a indústria insistir em tratar a representação trans como opcional, perderemos oportunidades de normalizar a diversidade e de combater preconceitos. O casting de Kyriana Kratter pode resultar numa boa interpretação, mas a mensagem enviada é a de que as histórias trans ainda podem ser contadas sem pessoas trans.

Numa série que teve um profundo impacto na normalização de relações gay e lésbicas e que tem no papel principal Bella Ramsey, em 2026, isto não é apenas uma mera deceção, é um forte retrocesso.


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