
Há um momento que se repete todos os anos na Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa. Pouco antes da hora marcada, a Rotunda do Marquês de Pombal parece demasiado vazia para aquilo que está prestes a acontecer. Este sábado não foi diferente.
Às 16h00, meia hora antes do início previsto da concentração, o trânsito ruidoso continuava a circular pela Avenida da Liberdade e o espaço onde, em breve, se contava que aparecessem milhares de pessoas parecia longe de antecipar a dimensão do dia. É um nervosismo familiar para quem regressa ano após ano: a dúvida silenciosa sobre se as pessoas vão aparecer.
Mas apareceram.
Com o habitual atraso das grandes multidões, a rotunda começou a encher-se. Primeiro pequenos grupos de amizades e famílias. Depois associações, coletivos, pessoas aliadas e participantes vindas de diferentes pontos do país e do mundo. Em pouco tempo, as bandeiras arco-íris, trans, bissexuais, lésbicas, não binárias, intersexo e de tantas outras identidades coloriam o espaço. O que parecia vazio transformou-se numa multidão impossível de ignorar.
60.000 mil diversidades
Segundo a organização, cerca de 60 mil pessoas participaram na 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, que este ano decorreu sob o lema “Nem Silêncio, Nem Medo: Existimos e Resistimos”.
Ao som dos tambores dos Ritmos de Resistência, ou da Colombina Clandestina, dos aplausos, dos leques coloridos e das palavras de ordem que ecoavam pela cidade, a marcha iniciou a descida da Avenida da Liberdade. Pelo caminho, multiplicavam-se mensagens de orgulho, resistência e reivindicação. Cartazes lembravam a importância da autodeterminação de género, da igualdade no acesso aos direitos e da proteção das famílias LGBTI+, enquanto outras mensagens celebravam simplesmente o amor e a liberdade de existir.
A edição deste ano aconteceu num contexto particularmente desafiante para a comunidade. Num comunicado divulgado antes da manifestação, a Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho de Lisboa alertou para os riscos de retrocesso nos direitos conquistados nas últimas décadas, sublinhando os ataques crescentes às pessoas trans e de género diverso e as tentativas recentes de reverter legislação já aprovada.
Ao longo do percurso, muitas das pessoas participantes destacaram precisamente essa preocupação. Houve quem falasse do crescimento da extrema-direita e do discurso de ódio, quem lembrasse que continuam a existir países onde as pessoas são perseguidas ou criminalizadas pela sua orientação sexual ou identidade de género, e quem reforçasse a importância de ocupar o espaço público num momento em que vários direitos parecem novamente sujeitos a contestação.
Mas a Marcha do Orgulho nunca é apenas uma resposta ao medo
É também um espaço de encontro, de comunidade e de celebração. Um lugar onde diferentes gerações se cruzam, onde pessoas que talvez durante grande parte do ano se sintam isoladas encontram milhares de outras com experiências semelhantes. Um lugar onde famílias caminham ao lado de ativistas históricas, onde crianças brincam rodeadas de bandeiras coloridas e onde amizades, relações e redes de apoio ganham visibilidade.
A longa coluna humana atravessou o centro da cidade até desaguar no Terreiro do Paço. Ali, a programação continuou ao longo do final da tarde, combinando momentos culturais e políticos. Atuações artísticas e DJ sets alternaram com a leitura do manifesto da Comissão Organizadora e com intervenções das associações e coletivos presentes.
As mensagens repetiram-se sob diferentes formas: a memória das lutas passadas, a preocupação com os direitos atualmente ameaçados, a solidariedade com quem continua a enfrentar discriminação e violência, e a convicção de que a igualdade não é um processo concluído.
Foi também recordado o caminho percorrido desde as primeiras marchas, quando a participação era significativamente menor e muitos dos direitos hoje existentes pareciam ainda distantes. Ao mesmo tempo, ficou óbvio que nenhuma conquista é definitiva e que a mobilização continua a ser necessária.
A 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa terminou já ao início da noite, mas deixou uma imagem difícil de ignorar: dezenas de milhares de pessoas a ocupar uma das principais avenidas e praças do país para afirmar algo simultaneamente simples e profundamente político.
Que todas as pessoas merecem viver as suas vidas com dignidade, segurança, liberdade e amor.
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