Darwin já fazia transformismo no Brasil há mais de 100 anos. Novo livro recupera a sua história

Darwin já fazia transformismo no Brasil há mais de 100 anos. Novo livro recupera a sua história

Muito antes do transformismo brasileiro ganhar algumas das figuras que hoje fazem parte da sua memória cultural, um artista espanhol percorria os palcos do Brasil a cantar e apresentar-se com figurinos femininos luxuosos.

Conhecido simplesmente como Darwin, tornou-se uma figura popular nos cineteatros brasileiros no início do século XX. Em 1923, chegou também ao cinema, numa participação que constitui um dos mais antigos registos conhecidos do transformismo no cinema brasileiro.

Mais de um século depois, a sua história é recuperada pelo investigador Sancler Ebert em Darwin: O imitador do belo sexo, publicado no Brasil pela editora O Sexo da Palavra.

Resultado de sete anos de investigação, o livro procura devolver visibilidade a um artista que alcançou notoriedade no seu tempo, mas praticamente desapareceu da memória cultural brasileira.

Dos palcos para o cinema

Darwin era espanhol, mas construiu grande parte da sua carreira no Brasil. A investigação de Ebert documenta apresentações nos cineteatros do Rio de Janeiro entre 1914 e 1933, com particular destaque durante a década de 1920.

Na época, estes espaços não se limitavam à exibição de filmes. As sessões podiam incluir números musicais e outras atuações ao vivo, criando um circuito onde artistas como Darwin encontravam público.

Nos seus espetáculos, apresentava canções, diferentes representações femininas e figurinos elaborados. A atual descrição da editora recorda que chegou a atuar de norte a sul do país e a ter o rosto reproduzido em capas de partituras.

Essa popularidade acabaria por levá-lo também ao grande ecrã. Em 1923, Darwin participou em Augusto Annibal Quer Casar, uma comédia muda realizada por Luiz de Barros.

Darwin já fazia transformismo no Brasil há mais de 100 anos. Novo livro recupera a sua história

Na história, Augusto Annibal procura insistentemente uma mulher com quem casar. Depois de várias peripécias, acaba por casar com Darwin, que interpreta a mulher apresentada como sua futura noiva.

Nenhuma cópia conhecida do filme sobreviveu. A participação de Darwin é hoje reconstruída sobretudo através de jornais, publicidade e outros documentos da época.

Ainda assim, há um dado revelador: apesar de ter uma presença relativamente curta no filme, Darwin foi utilizado de forma destacada na sua promoção, segundo a investigação de Ebert.

Uma história queer que ficou fora da história

Foi precisamente esse desaparecimento da memória coletiva que levou Sancler Ebert a aprofundar a investigação.

O trabalho começou em 2017, durante o doutoramento do investigador sobre personagens travestidos nos primeiros anos do cinema brasileiro. As referências encontradas sobre Darwin acabariam por justificar uma investigação centrada na sua trajetória.

A tese, defendida em 2024 no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, recebeu o título Uma ilusão de modernidade: a trajetória do transformista Darwin pelos cineteatros brasileiros no início do século XX.

“Darwin teve uma grande relevância para a cena cultural brasileira. Ele se apresentou em muitos lugares, teve público, participou de um filme e foi uma figura conhecida em sua época. O que me incomoda é perceber que alguém com essa importância foi apagado da história.”

Para Ebert, recuperar Darwin pode também despertar interesse por outras figuras que desapareceram das narrativas dominantes sobre a cultura e as dissidências de género e sexualidade.

Essa recuperação obriga igualmente a olhar para o passado nos seus próprios termos. As categorias usadas atualmente para falar de drag, transformismo, identidade de género ou cultura queer não correspondem necessariamente às utilizadas, ou vividas, no início do século XX.

Darwin já fazia transformismo no Brasil há mais de 100 anos. Novo livro recupera a sua história

Darwin era anunciado como “imitador do belo sexo”, expressão que dá agora título ao livro. A sua trajetória mostra, porém, que performances que colocavam em jogo género, feminilidade e transformação já encontravam públicos relevantes no Brasil há mais de cem anos.

Recuperar vidas esquecidas

Darwin: O imitador do belo sexo integra a coleção Vidas Sequestradas, dedicada a recuperar trajetórias das artes, literatura e ativismo que ficaram obscurecidas pelas grandes narrativas históricas, particularmente no campo das dissidências sexuais e de género.

E talvez seja este um dos elemento mais interessante desta redescoberta: perceber que aquilo que muitas vezes imaginamos como manifestações culturais recentes possui genealogias bastante mais longas.

Antes de várias das grandes referências do transformismo brasileiro entrarem em cena, Darwin já cantava, mudava de figurino, imitava mulheres e levava essa arte dos palcos ao cinema. E, durante algum tempo, foi uma estrela.


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