Da igualdade ao direito à cidade: Festival Política põe a Constituição em palco em Lisboa

Da igualdade ao direito à cidade: Festival Política põe a Constituição em palco em Lisboa

O Festival Política regressa esta semana a Lisboa com quatro dias de cinema, música, teatro, oficinas, exposições e debate. Entre 23 e 26 de setembro, vários espaços da freguesia de São Vicente recebem uma programação inteiramente gratuita, este ano dedicada aos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.

Na sua 10.ª edição, o festival toma a Constituição como ponto de partida para olhar não apenas para os direitos inscritos no texto aprovado em 1976, mas também para a forma como são vividos — ou permanecem por cumprir — no quotidiano. A igualdade, as migrações, a habitação, o direito à cidade, a participação, a liberdade e o ambiente atravessam uma programação que procura aproximar cidadania e criação artística.

A edição começa na quarta-feira, 23 de setembro, com a estreia em Portugal de Príncipe do Gueto, às 21h30, no Mercado de Santa Clara. Escrita e interpretada por Roni Sousa, com direção de Humberto Pedrancini, a peça acompanha um jovem marcado pela herança migrante, pela periferia de Brasília e por ciclos de violência, desejo e sobrevivência. O espetáculo terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa.

Corpos, migrações e o direito à cidade

Na quinta-feira, 24 de setembro, a programação cruza território, literacia mediática, música e cinema. Às 17h, uma oficina dramatizada aborda a desinformação e a literacia para os media, enquanto António Brito Guterres dinamiza um mapeamento coletivo do Bairro Azul, construído a partir das memórias e experiências de quem ali vive.

Às 18h30 chega Política às escuras: nem o nome do artista nem o local são divulgados antecipadamente. A atuação parte de artigos da Constituição para cruzar as suas aspirações com canções de intervenção contemporâneas.

O cinema ocupa depois o Mercado de Santa Clara. A sessão Corpos em trânsito, às 19h, reúne três curtas que passam pela identidade, desejo, migração e pertença: Inbecoming, the art of becoming no one, de Tiago Filipe Gomes Mota; O Meu Amor do Rancho, de Miguel De; e Quem se move, de Stephanie Ricci.

Às 21h30, Direito à Cidade olha para Lisboa e Porto através de quatro trabalhos sobre migração, precariedade e habitação. Entre eles estão Lisbone Baas Kora, sobre a comunidade do Bangladesh em Lisboa, e Irregular, que acompanha uma artista brasileira a viver num limbo administrativo em Portugal.

Igualdade constitucional transformada em música

A sexta-feira, 25 de setembro, volta a ligar território e criação artística. Uma oficina sobre “Lisboa e a Graça na cidade neoliberal” procura construir coletivamente um mapa da freguesia de São Vicente, identificando transformações, contrastes e formas de resistência local.

À noite, a música ocupa um lugar central. Nayr Faquirá apresenta Artigo 13.º, uma performance criada a partir do princípio constitucional da igualdade. Canções originais e palavra falada servem para discutir como igualdade, liberdade e dignidade são experienciadas no quotidiano.

Segue-se Artigo por Artigo, concerto-conversa que junta Selma Uamusse e Ana Markl. A partir das canções de Uamusse, as duas artistas discutem a distância entre os direitos inscritos na Constituição e as desigualdades que continuam presentes na sociedade portuguesa.

Constituição também para crianças e famílias

O último dia começa com duas propostas às 11h. A Constituição em Cartas convida crianças a partir dos seis anos e famílias a transformar conceitos como liberdade, igualdade, educação, habitação e participação num baralho coletivo ilustrado. Em paralelo, Roni Sousa conduz uma oficina de expressão corporal e teatral aberta a diferentes idades.

À tarde, alunos do Curso Básico de Teatro da Casa Pia apresentam Luzes da Liberdade, espetáculo que atravessa diferentes momentos da história constitucional portuguesa e questiona desafios atuais como migrações, trabalho e redes sociais. Há também uma visita guiada ao Panteão Nacional centrada nas mulheres ligadas à história do monumento.

O trabalho de cartografia desenvolvido durante o festival culmina, às 16h, numa apresentação e discussão pública do chamado Mapa da Cidade, procurando tornar visíveis territórios e experiências habitualmente ausentes das representações oficiais.

Depois de uma nova sessão de cinema dedicada às ligações entre continentes, o encerramento musical cabe a Emmy Curl. Em Solar Punk, a artista propõe imaginar um futuro em que política ambiental, tecnologia e bem-estar humano possam coexistir de forma regenerativa.

“A nossa Constituição é a mais bonita do mundo”

A programação estende-se ainda à Galeria Arte Graça, onde estão patentes duas exposições até 26 de setembro.

A Nossa Constituição É a Mais Bonita do Mundo. Fotografia por Frederico Martins.

A Nossa Constituição É a Mais Bonita do Mundo transforma dez princípios constitucionais em fotografias protagonizadas por figuras como Margarida Corceiro, Virgílio Castelo, Paulo Pires, Catarina Maia, Luísa Oliveira e Luís Borges. O projeto parte de uma ideia da Edson Tech & Soul, com fotografias de Frederico Martins e curadoria de Tó Romano.

A proposta procura aproximar a Constituição das pessoas através de uma linguagem menos institucional, fazendo convergir fotografia, moda, cinema e design com conceitos como dignidade, liberdade e igualdade.

A segunda exposição, Constelações Parlamentares, de João Bernardo Narciso, transforma milhares de votações no Parlamento Europeu em mapas de proximidade política, permitindo visualizar alianças e divergências entre eurodeputados.

Todas as atividades do Festival Política são gratuitas. Algumas oficinas, a visita guiada e Política às escuras recomendam inscrição antecipada. Os espetáculos têm interpretação em Língua Gestual Portuguesa, os filmes são legendados em português e pode ser solicitada interpretação para oficinas e debates até 72 horas antes.

O Festival Política é uma iniciativa da Associação Isonomia e, em Lisboa, resulta de uma coprodução com a Junta de Freguesia de São Vicente. Depois de Lisboa, a edição de 2026 segue para Loulé, Coimbra e Torres Vedras.

Toda a informação no site do Festival Política.


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