Famílias queer, liberdade trans e desejo: os destaques LGBTQ+ do Doclisboa 2026

Macho Dancer, de Lino Brocka (1988) no DocLisboa 2026.
Macho Dancer, de Lino Brocka (1988) no DocLisboa 2026.

O Doclisboa – Festival Internacional de Cinema regressa a Lisboa entre 15 e 25 de outubro para a sua 24.ª edição, com 198 filmes de 51 países. Entre estreias, novas obras e uma ampla retrospectiva dedicada ao cineasta filipino Lino Brocka, a programação volta também a abrir espaço a histórias LGBTQ+ que atravessam temas como família, pertença, liberdade e desejo.

Entre os destaques está I Plant My Hand in the Garden, de Boris Hadžija e Hoda Taheri. O filme acompanha Hoda, uma refugiada iraniana a viver em Berlim, e Boris, um homem queer sérvio.

Perante uma gravidez, decidem casar-se e criar a criança em conjunto, tentando imaginar uma família construída segundo as suas próprias regras. Mas burocracia, expectativas familiares e ideias herdadas sobre amor, parentalidade e papéis de género obrigam-nos a interrogar o significado de serem um casal. A estreia portuguesa pode ser vista a 18 de outubro, às 15h30, e 24 de outubro, às 19h30.

A liberdade assume contornos muito diferentes em A Song Without Home, de Rati Tsiteladze. Durante 11 anos, Adelina, uma jovem mulher trans, viveu praticamente confinada à casa da família na Geórgia, num contexto marcado por fortes restrições aos direitos LGBTQ+, conservadorismo religioso e violência de grupos de extrema-direita. Quando consegue fugir para Viena, descobre que escapar fisicamente não significa necessariamente deixar o passado para trás.

O filme acompanha essa procura de pertença e autonomia através, também, da relação entre Adelina e a mãe. A sessão está marcada para 16 de outubro, às 14h00, no Cinema São Jorge.

Duas obras da retrospectiva dedicada a Lino Brocka trazem ainda diferentes representações queer do cinema filipino. Em My Father, My Mother, de 1978, Coring, um esteticista gay, cria como seu um bebé abandonado. Ao tentar proteger a criança do preconceito que enfrenta, acaba também por reproduzir dentro de casa algumas das normas que o marginalizam. Entre comédia popular e melodrama familiar, Brocka questiona quem pode ser reconhecido como família e quem tem legitimidade para cuidar. O filme é exibido a 21 de outubro, às 19h30, na Cinemateca Portuguesa.

Dez anos depois, em Macho Dancer, Brocka mergulha na vida de um jovem que chega a Manila e começa a trabalhar como bailarino num clube. Desejo, exploração económica e trabalho sexual cruzam-se numa narrativa em que os corpos são simultaneamente espetáculo, mercadoria e instrumento de sobrevivência.

A versão restaurada tem sessões a 17 de outubro, às 21h30, e 22 de outubro, às 19h00, também na Cinemateca.

A programação inclui ainda a sessão “Amor, Desassossego”, composta por Happy Valley, de Simon Liu, N’s Last Game, de Desirée Alagna, e Are We Monsters?, de Thunska Pansittivorakul. As três curtas aproximam amor, memória, violência e resistência. Em Are We Monsters?, a homossexualidade surge diretamente confrontada com o estigma religioso numa região fronteiriça entre a Tailândia e a Malásia, onde pessoas LGBTQ+ são associadas ao pecado e à monstruosidade.

A sessão pode ser vista a 16 de outubro, às 21h00, e novamente a 23 de outubro, às 11h00, na Culturgest.

Entre diferentes geografias e épocas, estes filmes mostram como as experiências LGBTQ+ podem servir também de ponto de partida para pensar questões mais amplas: quem define uma família, o que significa viver livremente e de que forma normas sociais, económicas e religiosas condicionam os corpos e os afetos.

O DocLisboa decorre em Lisboa entre os dias 15 e 25 de outubro nas salas da Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema, Cinema Ideal e Centro de Arte Moderna Gulbenkian e os bilhetes já estão à venda.


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