
O ator irlandês Andrew Scott defendeu que a crescente presença de histórias LGBTI+ felizes no cinema e na televisão não deve significar o esquecimento dos capítulos mais dolorosos da história da comunidade. Para Scott, recordar períodos como a crise da SIDA não significa perpetuar uma narrativa de sofrimento, mas reconhecer onde deve realmente ficar a vergonha: no preconceito, no estigma e nas instituições que falharam às pessoas afetadas.
A reflexão surgiu durante uma conversa no BFI London Film Festival, a propósito da estreia europeia de Elsinore, o novo filme de Simon Stone no qual interpreta o ator escocês Ian Charleson. Questionado sobre as críticas dirigidas a algumas produções recentes por continuarem a retratar personagens LGBTI+ através da perda, solidão ou tragédia, Scott sublinhou a importância de representar toda a diversidade da experiência queer.
“Recebo de braços abertos coisas como Heartstopper, Heated Rivalry e Red, White & Royal Blue, e todas essas histórias alegres. Recebo-as mesmo“, afirmou o ator, acrescentando que considera “extraordinário” existirem atualmente tantos tipos diferentes de histórias gays no cinema e na televisão.
No entanto, Scott mostrou-se preocupado com a possibilidade de a valorização da chamada queer joy (alegria queer) conduzir a uma rejeição das narrativas que abordam os períodos mais difíceis da história LGBTI+. Segundo o ator, essa resistência pode surgir do desejo de não revisitar tempos marcados pela discriminação, pela violência ou pela epidemia de VIH/SIDA, mas também de um sentimento de vergonha que nunca deveria recair sobre as próprias vítimas.
“A vergonha não está nas pessoas gays. A vergonha está nos governos que ignoraram a crise da SIDA, no estigma que rodeava as pessoas e no preconceito inerente que existia na sociedade. Essa vergonha pertence a outras pessoas“, declarou Scott, numa intervenção recebida com aplausos pelo público.
Elsinore: recordar a vida e a coragem de Ian Charleson
A reflexão ganha particular significado com Elsinore, filme biográfico que acompanha os últimos meses de vida de Ian Charleson, ator escocês conhecido internacionalmente pelo papel de Eric Liddell em Chariots of Fire (1981), mas também por uma importante carreira no teatro britânico.
Diagnosticado com VIH em 1986, Charleson continuou a trabalhar e, em 1989, interpretou Hamlet no National Theatre, em Londres, enquanto enfrentava uma doença relacionada com a SIDA. Morreu em janeiro de 1990, aos 40 anos, cerca de oito semanas depois da sua última representação. A sua morte foi uma das primeiras de uma figura pública britânica a ser abertamente atribuída à SIDA.
O filme, que conta também com Olivia Colman, Joe Locke, Billie Piper e Johnny Flynn no elenco, procura recuperar não apenas os últimos momentos da vida de Charleson, mas também o seu talento, humor e determinação. Olivia Colman interpreta Margaret Johnson, médica pioneira no tratamento de pessoas com VIH/SIDA, que esteve presente na estreia europeia do filme.
Scott descreveu Charleson como uma pessoa “extraordinariamente divertida” e “enormemente corajosa“, destacando o esforço físico e psicológico necessário para continuar a representar num período em que a doença estava associada a uma forte estigmatização social.
“A coragem, numa altura em que ter aquela doença parecia trazer consigo uma espécie de culpa“, recordou o ator, sublinhando a importância de reconhecer a humanidade e a resistência de quem viveu aquele período.
Entre a alegria queer e a memória coletiva
As declarações de Andrew Scott surgem num momento em que a representação LGBTI+ no audiovisual se tornou mais diversificada. Durante décadas, muitas personagens queer foram retratadas sobretudo através do sofrimento, da rejeição ou de finais trágicos, um padrão frequentemente associado à expressão bury your gays. Hoje, produções centradas no romance, na descoberta pessoal e na felicidade oferecem outras possibilidades de identificação, particularmente às gerações mais jovens.
Mas, para Scott, estas diferentes abordagens não precisam de competir entre si. Histórias como Heartstopper podem mostrar futuros em que jovens LGBTI+ encontram amor, amizade e aceitação, enquanto obras como Elsinore preservam a memória de pessoas que viveram num contexto profundamente diferente.
A crise da SIDA, em particular, deixou marcas profundas na comunidade LGBTI+. Durante os anos 1980 e 1990, a epidemia foi acompanhada por desinformação, discriminação e respostas governamentais frequentemente insuficientes. No Reino Unido, a aprovação da chamada Section 28, em 1988, que restringia a abordagem da homossexualidade pelas autoridades locais, contribuiu para um ambiente de silêncio e estigmatização.
Recordar esse passado não significa reduzir as vidas das pessoas LGBTI+ à tragédia, nem ignorar os progressos entretanto alcançados. Significa também reconhecer as relações, a solidariedade, a resistência e as conquistas de quem enfrentou esses períodos.
É essa a distinção que atravessa as palavras de Andrew Scott: celebrar a alegria queer e preservar a memória das suas tragédias não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, ambos fazem parte de uma representação mais completa da história e das experiências LGBTI+.
E, sobretudo, recordar essas histórias permite questionar a vergonha que durante tanto tempo foi imposta à comunidade, devolvendo a responsabilidade a quem alimentou o preconceito, a discriminação e o silêncio.
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