Madonna, Para Além Do Nome

Madonna é das poucas pessoas no mundo que dispensa apresentações e, no entanto, apesar de toda a sua calculada exposição, nunca deixou de ser uma figura envolta em mistério. Desenganem-se aqueles que julgam conhecê-la, até porque quase sempre são esses que têm o intuito de minorar os feitos artísticos e sociais, em particular, das mulheres. E, como já ficou bem claro, não apoiamos qualquer tipo de preconceito, seja com Madonna, seja com outra qualquer mulher.

E com isto não está em causa o nosso gosto pessoal, goste-se ou não da obra de Madonna ou até da Madonna mulher, não é essa a questão, a questão é dar-lhe o reconhecimento devido, independentemente do resto. E isso não é fácil, especialmente para uma das figuras mais famosas (e polarizadoras) do mundo, mas vale a pena tentar.

O primeiro contacto que Madonna teve com o mundo LGBT foi através do seu professor de ballet Christopher Flynn no liceu, em finais da década de 1970. Christopher foi o tutor que, segundo reza a lenda, viu nela algo de especial e, numa idade de rebeldia, conseguiu apresentar-lhe a sua admiração pela arte, pela performance e ajudá-la a focar-se a encontrar a sua expressão artística. Foi através de Christopher que Madonna visitou aos seus primeiros bares e discotecas gay em Detroit, nos Estados Unidos Da América. Foi também ele que convenceu Madonna a abandonar a sua bolsa de estudo e perseguir o sonho em se tornar numa bailarina profissional na cidade de Nova Iorque.

E foi isso que ela fez. Entre reviravoltas e becos-sem-saída, como é costume acontecer nas vidas de qualquer pessoa, Madonna perseguiu o seu sonho e pelo caminho encontrou o seu gosto e jeito para a música. Curiosamente, começou como guitarrista e baterista e só mais tarde se arriscou como vocalista. E, entretanto, tinha já trabalhado em várias demos que a ajudaram a conseguir o contracto discográfico no início da década de 1980. Pelo caminho conheceu imensos amigos e artistas, muitos deles gays. O resto, como se costuma dizer, é história.

Beautiful Photographs of Madonna in New York City 1982 (10)

Mas uma coisa importa realçar, e que nem sempre é recordado, e é para isso que escrevemos este texto. Desde que Madonna conheceu Christopher nunca abandou a procura pela liberdade de expressão, pela liberdade artística e foi absolutamente influenciada pela cultura dos bares e discotecas que frequentou. Muitos dos elementos artísticos que dominavam a subcultura gay de Nova Iorque no início da década de 1980 Madonna conseguiu com sucesso trazer para o grande público.

E não foi apenas esta a influência que recebeu de uma comunidade que a aceitou e adorou desde o início tal como ela era. Numa altura em que a homossexualidade ainda era um tabu, mesmo em grandes centros ocidentais, Madonna nunca se desvinculou daqueles que acreditaram nela. E a sua lealdade seria testada até ao limite quando o VIH e a SIDA se tornaram sinónimos de doença de gays e de morte.

Madonna Martin

Martin Burgoyne (em cima) foi um artista plástico com quem Madonna se tornaria amiga chegada pouco depois de chegar a Nova Iorque. Martin acabaria por trabalhar na sua primeira digressão e lhe desenharia a capa do EP Burning Up. Faleceu em 1986 por complicações do vírus da SIDA, tendo Madonna lhe dedicado a canção In This Life do álbum Erotica.

Três anos depois Madonna perdeu, pelo mesmo motivo, o seu primeiro tutor e amigo, aquele que acreditou nela antes de qualquer outro. Christopher Flynn faleceu das mesmas causas do seu amigo Martin e estes acontecimentos iriam mudar, mais uma vez, a vida da agora estrela pop.

Numa altura em que nem o então Presidente dos Estados Unidos se atrevia a mencionar o assunto e a sociedade em geral mostrava um preconceito fortíssimo aos doentes do VIH/SIDA, Madonna aproveitou todo o seu poder e publicidade para angariar fundos e organizar eventos que educassem o público sobre o assunto, distribuindo, por exemplo, panfletos nos seus concertos.

E a sua voz, tal como na música, nunca mais se separou das causas dos direitos humanos e, em particular, das pessoas LGBT. Madonna tornou-se assim uma das primeiras apoiantes activas, numa altura em que, ao contrário dos dias de hoje, mostrar qualquer tipo de ligação a tornava num alvo fácil de ódio (basta recordar os rumores sensacionalistas de que Madonna teria contraído o vírus na altura). O seu apoio e a sua voz nunca cessaram de se fazer ouvir a favor dos direitos humanos (seja a nível LGBT, feminista, educacional, a mensagem é, como bem sabem, una).

Por isso não, não podemos aceitar aqueles que atacam agora a Madonna por ela se colar aos gays para se autopromover, para vender o seu produto. Não, Madonna foi efectivamente das primeiras figuras públicas, ao lado de, por exemplo, Elizabeth Taylor, a mostrarem o seu apoio à luta do preconceito sexual, a combater o estigma do VIH/SIDA e a angariar fundos para o seu tratamento. O seu apoio permanece tão forte como no início e isso não pode ser, de forma alguma, esquecido.

Terminamos da melhor forma que a Madonna se consegue expressar e, se são as suas grandiosas produções que dão que falar por todo o mundo, são também momentos simples como o seguinte que tornam os seus espectáculos em janelas para além do seu nome:

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