De Yanis Para O Mundo

A definição atribuída pela sociedade do que é ser-se gay acarta com uma série de noções pré-concebidas de alguém que possui uma maior ou menor sensibilidade feminina, várias vezes demonstrada com trejeitos e formas ‘afectadas’ de discurso. Este preconceito parte não só da população geral mas também da própria comunidade, que lida com o assunto muitas vezes também desprezando estes “estereótipos”.

Tudo isto provém de um patriarcado regente que desde o início da civilização dita como um homem se deve comportar e descarta qualquer desvio ao estandarte da virilidade como uma aberração. Um comportamento mais feminino por parte de um homem é deplorável. Porque uma mulher com algumas características masculinas até pode ser aceite, mas o contrário é impensável, como se ser-se feminino fosse pouco aceitável.

E assim se debatem muitos homens gay com esta dicotomia entre ser quem são e aquilo que esperam que eles sejam. Até no mundo das artes, e da dança contemporânea em particular, as posições extremam-se. Ou se é masculino ou se é feminino, sem meio termo. Por isso é sempre uma lufada de ar fresco quando surgem novos talentos como Yanis Marshall, um jovem coreógrafo e bailarino francês que tem vindo a fazer as rondas no YouTube com os seus vídeos.

A realidade é que, num olhar mais fugaz, Yanis pode parecer apenas mais uma sensação da Internet e nem está a fazer nada de novo. Podem até dizer que o grupo de bailarinos Kazaky já o fizeram e com maior pompa e circunstância, ainda que altamente eróticos, e também parece servir-se de inspiração de outro coreógrafo americano, Brian Friedman. Mas a sua formação em bailado contemporâneo aplicado a coreografias urbanas alcançou um outro patamar. Porque a dança street jazz e hip hop, estilos que segue, é altamente masculinizada e ele não o é. Mas em toda a sua androginia assumida, quase todas as suas danças acontecem do alto de saltos vertiginosos, não é também feminino. Apesar de muitos ainda serem altamente adversos a essas demonstrações de feminilidade por parte de um homem, como esteve bem patente aquando da actuação de Marshall e do seus regulares colaboradores, Arnaud e Mehdi, no programa Britain’s Got Talent, que causou repulsa ao júri Simon Cowell.

A categoria gender-bending parece assentar-lhe melhor, mas a verdade é que a sua dança está inesperadamente a desafiar rótulos. Com os seus movimentos altamente serpentinosos e sensuais mas carregados de agressão e força desafia-nos a todos a olhar o que é ser-se desinibidamente gay e honesto no cimo de um palco ou no meio de uma pista. Sem preconceitos impostos por parte de outrem.

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