As Fortes Também Choram

A Presidência de Barack Obama está a chegar ao fim. No dia 22 de Novembro, numa cerimónia protocolar, foram entregues as Medalhas da Liberdade. Esta distinção foi iniciada pelo Presidente John Kennedy e, além de simbólica, tem o condão de chamar a atenção não só para as personalidades distinguidas como também para as suas causas e motivações.

Como se sabe, o futuro Presidente, Donald Trump, deixou bem claro na sua campanha que não defende os mesmos ideais que o seu antecessor, o que poderá ser um claro retrocesso no sistema democrático e nos direitos humanos e civis. No entanto Obama fechará com chave de ouro os seus dois mandatos e a entrega das medalhas foi um momento emblemático.

Várias foram as personalidades presenteadas mas uma delas, pelo seu carisma e postura perante a vida, tornou-se ainda mais mediática. Estou a falar de Ellen Degeneres, a única e verdadeira, tão real e igual a si própria. Sou fã dela desde que me deparei com uma série, muito antiga, onde ela era protagonista. Era a proprietária de uma livraria, com cafetaria e o conceito encantou-me logo. Relatava as suas peripécias e as do seu primo, uma relação familiar do tipo the girl next door.

Desde essa época que vou sabendo da sua vida. Primeiro porque é uma actriz e depois porque teve a coragem e o “desplante” de se assumir como lésbica. Ora bem, é aqui que vamos parar e analisar a situação. Que se saiba da vida de uma actriz é perfeitamente normal e as revistas cor-de-rosa exploram o assunto até à exaustão. No entanto ouvir mais sobre o facto de ser lésbica é que me deixa sem palavras!

Ser lésbica é algum crime? É uma desgraça? Lesou alguém? Vai terminar o mundo? Custa a crer que, em pleno século XXI, ainda existam mentalidades tão fechadas e retrógradas que pensem assim. Infelizmente existem e Trump é uma delas. A notícia foi dada como se se tratasse de algo de invulgar, uma delinquência ou um desvio. Um disparate!

O ser humano é um ser social e vive em comunidade. Todos temos corpo, coração, sentimento e paixões. Quem nunca se apaixonou então não sabe o que é viver, não conhece a grandeza do ser humano, o seu lado solar e mágico. Ela, disse para quem quis ouvir, que estava apaixonada e que amava alguém. Que bonito. Batem-se palmas e as lágrimas afloram ao rosto. Desejam muitas felicidades. Que bom! Quem é? A Portia. Ah!!!!! Um gigantesco ah!!!!

O rapaz conhece a rapariga e dá-lhe a mão. Ela envergonha-se mas gosta dele. Ele dá-lhe uma flor e ficam namorados. Estereótipos que nunca cairão! Porque não pode ser rapaz conhece rapaz ou rapariga conhece rapariga? O casamento tem como função a procriação. Mais outro disparate! Quantos casais heterossexuais não têm filhos? Muitos. Está tudo invertido. Não se manda nas emoções e muito menos nos sentimentos. Não existem regras!

O seu programa televisivo aborda inúmeros temas e questões bem pertinentes. É visto por milhares de pessoas e, tanto quanto se sabe, nunca ninguém saiu de lá nem magoado e muito menos danificado. Também é bem verdade que as ralações, hoje em dia, são muito mais eclécticas e diversificadas. Ninguém tem nada a ver com isso. Se a Ellen “abriu o armário” foi para arejar o mofo de uma sociedade que não quer ver o que está à frente dos seus olhos.

Agora vem a miúda destravada e engraçada que ela nunca deixará de ser. Ao chegar à Casa Branca reparou que não tinha documento de identificação. A quem é que ainda não aconteceu isto? Depois de ultrapassada esta barreira, entrou na sala dos nomeados. Simples e simpática. Não levava nenhum vestido espampanante, pois não. Não é essa a sua praia nem a sua onda. Calças, confortáveis e práticas.

Ao ouvir o seu elogio comoveu-se, como qualquer pessoa sensível. É sempre bom saber que agradamos mas ouvir tem outro sabor, outro valor e mexe de uma forma diferente. Reconhecerem os nosso esforços, o dela, em prol de minorias, de desfavorecidos, de espoliados de sentimentos, é uma mais valia. E que fez ela? Comoveu-se e chorou. Obama, a seu lado, passou-lhe o braço pelos ombros, como um amigo faz com outro, num momento de maior fragilidade.

Foi uma imagem muito forte! Amigo que conforta amigo, como é suposto ser feito. E o que vimos? Duas minorias tão diferentes e tão iguais! Um homem, negro, que chegou a Presidente dos Estados Unidos da América e uma mulher, loira, que é assumidamente lésbica e rompe com todas as convenções e preconceitos sociais estabelecidos.

Elle Degeneres mostrou o seu lado mais sensível, mais feminino, dirão alguns. No que me concerne, ela mostrou ser uma pessoa com P maiúsculo. Os seus belos olhos azuis ficaram ainda mais brilhantes e foi difícil esconder aquela rapariguinha que nunca sairá da sua maravilhosa mente. Ia pedir desculpa do quê? De ser humana? As pessoas fortes também abalam, não com o vento nem com as tempestades mas com a resolução das situações porque lutaram.

Ela é uma vencedora. Todos o foram e estamos a falar de Robert de Niro, Bruce Springsteen e Bill Gates, entre outros. A mais alta condecoração americana é icónica e foi bem merecida. Ellen é e será sempre um símbolo de luta e de determinação numa América que se pretende civilizada e evoluída.

Só tenho pena de não a conhecer pessoalmente, de não ser a sua vizinha, de não ia à sua livraria tomar café com ela, de lhe contar os meus mais íntimos segredos, de não a ter como amiga. Nem sempre vejo o seu programa mas , quando o faço, fico, inevitavelmente, mais bem disposta e cheia de vontade de um dia a conhecer pessoalmente. Isso é que seria de valor! Mas como ainda não aconteceu, sou amiga dela nos seus propósitos e lutas.

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