Não Voltas A Falar Assim Comigo (mulher)

O soco que ele me deu varreu-me a cara como se tropeçasse em cheio no mais fundo poço de um pântano de pedras. Durante o tempo em que o meu corpo tombou não fui eu, perdi-me na queda, no vazio, no eco, no chão. Os ossos da sua mão direita a embaterem nos da minha face esquerda e a rasgarem toda a pele e carne pelo meio, a escurecerem na sombra tudo o que eu possuía e que podia chamar de meu. Abraçada à minha dor caí como um prato e no chão estatelei-me toda e espalhei-me aos pedaços minúsculos de mim, nenhum era eu, mas eu era-os todos, cacos dispersos. Caída no chão, senti-me deslizar pelo verniz das tábuas como se na realidade não acreditasse naquilo que o meu corpo estava a viver. E por isso, deixei-me deslizar, apagada em mim e no que aquele soco me tentou impor. Não voltas a falar assim comigo, mulher. Mulher. Mulher. Mulher. Não voltas. Não. Comigo. Mulher. Esmurrada. Agora. Aqui. No chão. Estou eu e todas as mulheres, nestes pedaços. De mim. Não voltas a falar assim comigo, mulher! Não! Não me deitaste abaixo pela forma como a tua mão, fechada, grossa, pesada, me tocou a face, rasgando-a toda. O que me destruiu por inteiro foi a forma como cuspiste o nome mulher à minha frente. Não voltas. Porque fizeste-me deixar de acreditar nas outras vezes em que a tua boca, sussurrante, beijo, língua, a proferiu ao meu ouvido. Comigo. Porque fizeste-me deixar de acreditar no que a tua boca possa agora dizer, arquejante, dentes, ira. Mulher. E eu prefiro desmaiar-me frente a essa mão que dantes me acariciava os cabelos do que acreditar no que ela acabou de destruir dentro de mim. Não voltas a falar assim comigo, mulher. Ainda te oiço repetir, em dúvida, hesitante, de um lado para o outro, com sangue meu no punho a pingar neste meu chão em que, espalhada, me deixo verter sem um gemido. Ao apagar-me sei que, tal como me exigiste com a força do teu punho que tantas vezes beijei, não volto a falar assim contigo, homem.

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