IDAHOBIT 2026: ILGA World alerta para retrocessos globais nos direitos LGBTQIA+

IDAHOBIT 2026: ILGA World alerta para retrocessos globais nos direitos LGBTQIA+

Mais de 60 países assinalam o 17 de maio num momento de crescente pressão sobre direitos LGBTQIA+

O Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia (IDAHOBIT) assinala-se este sábado, 17 de maio, com iniciativas previstas em mais de 60 países e territórios, segundo a ILGA World. A data, celebrada desde 2005, marca o aniversário da decisão histórica da Organização Mundial da Saúde (OMS), que em 1990 retirou a homossexualidade da lista de transtornos mentais.

Mais de três décadas depois, o dia continua a ser um momento de visibilidade, denúncia e mobilização perante a persistência da discriminação, da violência e das desigualdades que continuam a afetar pessoas LGBTQIA+ em todo o mundo.

Para 2026, o tema escolhido é: No coração da democracia.

Quando os direitos LGBTQIA+ se tornam alvo político

A escolha do tema surge num contexto internacional particularmente tenso. Nos últimos anos, e com especial intensidade em 2025, vários governos e movimentos autoritários ou de extrema-direita têm usado os direitos das pessoas LGBTQIA+ como terreno de confronto ideológico e político.

Num comunicado divulgado a propósito da data, o grupo consultivo do IDAHOBIT alerta para a instrumentalização da diversidade sexual e de género como teste à resistência democrática.

“Não importa onde vivamos, quem sejamos ou quais sejam as crenças que nos movem, a maioria das pessoas deseja cultivar bairros e comunidades onde todas as vidas possam florescer.”

Mas o mesmo grupo deixa um aviso contundente:

“Hoje, governos reacionários em todo o mundo estão a envenenar os nossos jardins com as ervas daninhas invasivas das suas políticas autoritárias e legislações excludentes.”

A mensagem é inequívoca: a defesa dos direitos LGBTQIA+ é inseparável da defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos.

Criminalização aumenta pela primeira vez em anos

Os dados mais recentes da ILGA World ajudam a perceber a dimensão do problema. Pela primeira vez em vários anos, aumentou o número de países que criminalizam relações sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Atualmente, 65 Estados-membros das Nações Unidas mantêm legislação criminalizadora.

A repressão não se fica por aí:

  • pelo menos 62 países impõem restrições à liberdade de expressão relacionada com diversidade sexual e de género;
  • 63 países têm legislação sobre crimes de ódio com proteção baseada na orientação sexual;
  • apenas 40 incluem identidade de género;
  • apenas 10 protegem expressão de género;
  • apenas 8 incluem características sexuais.

Os números revelam um padrão preocupante: mesmo onde existem avanços legislativos, a proteção continua profundamente desigual.

Apesar dos ataques, há sinais de progresso

Nem tudo são retrocessos. A ILGA World destaca várias conquistas alcançadas no último ano. Por exemplo, Santa Lúcia descriminalizou relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Também a República Dominicana eliminou essa criminalização no contexto militar.

Na Europa, o Tribunal de Justiça da União Europeia proferiu decisões relevantes sobre direitos das pessoas trans e sobre o reconhecimento de casamentos entre pessoas do mesmo sexo entre Estados-membros.

Na Hungria, dezenas de milhares de pessoas desafiaram a proibição da Marcha do Orgulho de Budapeste, num gesto amplamente visto como resistência democrática.

Também houve avanços para pessoas intersexo, com o Conselho da Europa a estabelecer, pela primeira vez, standards específicos de direitos humanos nesta área.

Atualmente:

  • 17 países proíbem nacionalmente “práticas de conversão”, incluindo Portugal;
  • 9 restringem intervenções médicas desnecessárias em jovens intersexo;
  • 18 permitem reconhecimento legal de género sem pré-condições restritivas;
  • 37 garantem igualdade no casamento.

O significado político de existir

O IDAHOBIT continua a ser mais do que uma data simbólica. Num momento em que a visibilidade LGBTQIA+ é retratada por setores conservadores como ameaça, provocação ou agenda ideológica, a existência pública, a reivindicação de direitos e a celebração da diversidade tornam-se atos profundamente políticos.

A mensagem deste 17 de maio é precisamente essa: democracias reais não se medem apenas por eleições ou instituições, mas também pela capacidade de proteger populações que foram e são, historicamente, marginalizadas, silenciadas e atacadas.

Porque, como a própria história do movimento LGBTQIA+ mostra, direitos nunca foram oferecidos voluntariamente. Foram conquistados.


Subscreve à nossa Newsletter Semanal Maravilha Aqui! 🙂
Todos os sábados de manhã receberás um resumo de todos os artigos publicados durante a semana. Sem stress, sem spam, a nossa orgulhosa Newsletter Semanal pode ser cancelada a qualquer momento! 🏳️‍🌈


A esQrever no teu email

Subscreve e recebe os artigos mais recentes na tua caixa de email

Deixa uma resposta

Apoia a esQrever

Este é um projeto comunitário, voluntário e sem fins lucrativos, criado em 2014, e nunca vamos cobrar pelo conteúdo produzido, nem aceitar patrocínios que nos possam condicionar de alguma forma. Mas este é também um projeto que tem um custo financeiro pelas várias ferramentas que precisa usar – como o site, o domínio ou equipamento para a gravação do Podcast. Por isso, e caso possas, ajuda-nos a colmatar parte desses custos. Oferece-nos um café, um chá, ou outro valor que te faça sentido. Estes apoios são sempre bem-vindos 🌈

Buy Me a Coffee at ko-fi.com