A manteiga não foi um detalhe, foi violência.

Quase 45 anos depois da exibição do polémico filme O Último Tango em Paris (1974), a famosa cena da “manteiga” volta ao debate público, mas desta vez com novas declarações.

Porque é que o tema volta a ser discutido e tem que ser discutido? Ora precisamente numa numa época onde tanto se fala em consenso sexual para eliminar a chamada rape culture, o realizador de um dos filmes mais polémicos da história do cinema, Bertolucci, veio publicamente esclarecer a controvérsia  sobre se a cena de violação exibida com a atriz Maria Schneider e Marlon Brando teria sido consentida ou não.

Vejamos por partes as suas declarações:

“Eu gostaria, pela última vez, de esclarecer um mal-entendido ridículo que continua gerando polémica em torno de O Último Tango em Paris”

Não é um “mal-entendido ridículo”. É violência de género que marcou toda a vida de Maria Schneider. E considerar que deva ser a “última vez” que esclarece esta situação como se fosse algo desnecessário, mostra a falta de respeito para com a já falecida atriz. Imagine-se só todas as perguntas e comentários que a atriz Maria Schneider não teve que responder durante toda a sua vida e que pensou várias vezes como gostaria que fosse a “última vez” que tocassem no assunto.

“A cena da “manteiga” foi uma ideia que tive com Marlon na manhã antes da filmagem (…) decidi com Marlon Brando não informar a Maria que utilizaria manteiga. Queríamos que a reação dela fosse espontânea àquela utilização imprópria”

A pessoa em questão não foi questionada, não foi informada, foi simplesmente objetificada em nome de uma “reacão” espontânea. Reação espontânea de quê? Raiva, lágrimas? Humilhação filmada para exibir ao mundo como um caminho para os Óscares para melhor actor principal e melhor realizador?

Para piorar a situação, nas declarações que deu, Bertolucci refere-se a um simples “(…) detalhe do uso da manteiga”

Não é detalhe. É respeito pela dignidade da atriz e da mulher em questão. Se fosse um simples detalhe não teria mudado toda a carreira da atriz e a sua própria vida.

“Maria sabia de tudo, porque estava tudo descrito no guião. A única novidade foi a ideia da manteiga”

Não pode haver “novidades” quando se trata do corpo de outras pessoas. Não pode haver novidades num contrato de trabalho. Não pode haver novidades quando será exibido a nível mundial e se sabia à partida que seria uma cena extremamente polémica. Não pode haver novidades quando dois homens decidem sobre o corpo de uma mulher.

Na época das filmagens, Marlon Brando tinha 48 anos, enquanto Schneider tinha apenas 19.

Apenas 19 anos. É possível imaginar o que é aos 19 anos ter uma cena destas exposta a nível mundial e com uma polémica tão generalizada em seu redor? É possível imaginar o que são centenas de revistas e artigos a divulgar fotos da maior humilhação da nossa vida? Pior: imaginar que uma inteira carreira de um ator ou de atriz possa ser reduzida a apenas uma imagem, a de humilhação.

“Para obteres qualquer coisa, acho que tens de ser completamente livre. Eu não queria que a Maria representasse a sua humilhação, a sua raiva. Queria que ela sentisse a raiva e a humilhação. E depois odiou-me durante toda a vida”

Onde ficou a liberdade de Maria Schneider? Quando ela própria disse há cerca de 10 anos que se sentiu violada?

Inspirando-nos no pensamento existencialista de Sartre, ser “livre” não significa obter o que se quer, mas sim determinar-se a escolher. Bertolucci e Marlon escolheram e selecionaram a forma como aplicar a “ideia”, para obterem aquilo que queriam. Schneider não teve se quer a possibilidade de escolha.

Maria Schneider estava em estúdio como profissional, como atriz. A sua função era representar, não era de sentir raiva e humilhação.

“Senti-me culpado, mas não arrependido (…) para fazer filmes as vezes temos que ser completamente frios”

Miko Brando, filho de Marlon Brando, veio também a público manifestar-se em defesa de seu pai sobre a acusação de violação n’O Último Tango em Paris.

“Esse não é meu pai, ele não era esse homem de jeito nenhum. Ele era a favor de direitos humanos, direitos civis. Ele marchou com Martin Luther King. Ele era a favor do povo, não contra o povo. Isso não é verdade, esse não é o ser humano que ele é”, disse Miko Brando para a TMZ.

A responsabilidade não estava apenas nas mãos do realizador. Marlon Brando também escolheu não falar com Maria Schneider. Marlon também escolheu compactuar.

Se somos livres para escolher, também somos responsáveis pelas nossas ações.

E o argumento de que “esse não é o meu pai”, como se apenas um “monstro” pudesse compactuar com uma cena de violência de género, mostra como estas realidades se encontram longe aos olhos de quem não as sente na pele, e como está enraizada no pensamento cultural a culpabilização da vítima e não a responsabilização do opressor.

Em 2007, numa entrevista ao Daily Mail, Maria Schneider acusou o realizador de a ter enganado e Brando de a ter violado:

Devia ter chamado o meu agente ou mandado vir um advogado ao ‘set’ de filmagens porque não se pode forçar ninguém a fazer uma coisa que não está no guião, mas nessa altura, eu não sabia disso. O Marlon disse-me: ‘Maria, não te preocupes, é apenas um filme’, mas durante a cena, muito embora o que Marlon estava a fazer não era real, eu chorava lágrimas de verdade. Senti-me humilhada e, para ser honesta, senti-me também um tanto violada, tanto pelo Marlon como pelo Bertolucci. Depois da cena, o Marlon não me consolou nem pediu desculpa. Felizmente, houve apenas um ‘take’”.

Se a vitima se sentiu violada, é porque foi violada.

Maria quando gravou o “Último Tango em Paris” tinha apenas 19 anos.

Maria teve uma vida marcada por drogas, tentativas de suicido e internamentos em centros psiquiátricos.

 

A manteiga não foi um detalhe, foi violência.

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