Gosto del@, e agora?

Sou lésbica (um ser humano) e gosto desta miúda, que faço? Avança, sê honesta contigo e diz-lhe o que sentes! Esta seria a minha resposta à questão, contudo existem muitas condicionantes, bem como consequências, associadas a esta honestidade e expressividade emocional entre os indivíduos.

Uma das condicionantes, é nomeadamente o facto de os sujeitos não saberem distinguir o gostar do precisar. Existe o precisar de atenção, o precisar de companhia aquando dos momentos mais solitários, o precisar de valorização por parte do seu par, o precisar de conforto, o precisar de afecto, entre muitos outros precisares… Enquanto que o gostar não é mais do que querer partilhar o afecto, o carinho, o dia-a-dia, as experiências negativas, o silêncio, as ansiedades, as vitórias, as preocupações, os sorrisos, e tão mais!

Outra das condicionantes, que inviabiliza este processo bastante simplificado de interação social, na qual subjacente tem a necessidade de satisfação de um desejo intrínseco de conhecer o outro que de algum modo nos atrai, é a apresentação (e exposição) da nossa vulnerabilidade, do nosso lado mais frágil! Socialmente falando, coloca-nos numa posição bastante enfraquecida, pois a verdade é que uma grande parte de nós fica exposta automaticamente, sendo a resposta do outro bastante relevante para o posterior desenvolvimento da interação.

Infelizmente, e na grande maioria das vezes, existe um aproveitamento dessa mesma exposição e afirmação de um papel de controlador por parte do indivíduo, ou seja, existe um aproveitamento e utilização da atenção, do afecto e do carinho que lhe é fornecido. Em vez, de promover o seu hetero e auto-conhecimento, de lapidar o diamante colocado à sua frente, de tentar construir algo de maior intimidade com o outro…

Claro que ao falarmos deste tipo de interações a principal consequência é a falta e/ou total ausência de correspondência, ou seja, o sentimento pode não ser correspondido, pode não ser igual, existindo a possibilidade da rejeição! Sendo este um dos resultados possíveis, torna-se então importante o indivíduo consciencializar-se, de que não é errado demonstrar a sua vulnerabilidade, bem como fragilidade, não é errado de todo, acreditem!

Não faltamos ao respeito nem ofendemos ninguém, e o mais importante é que somos honestos e sinceros com nós próprios! Este processo de procura de uma relação com um certo nível de intimidade com o outro torna-se extremamente doloroso para um indivíduo gay. É cada vez mais complicado para o indivíduo homossexual interagir com os demais e procurar estabelecer estas relações com um certo grau de intimidade. Torna-se impossível de todo cruzar-se com um indivíduo e com o estabelecimento prévio de uma conexão e/ou ligação procurar, ou formar, algum tipo relação com uma intimidade próxima das relações amorosas.

Num cenário de natureza heterossexual, aquando desta tentativa, corremos o risco de sermos rejeitados, já num cenário de natureza homossexual corremos o risco de ser induzidos a erro, ou seja, de o seu par não ser gay, e consequentemente, sofrer várias consequências, nomeadamente a repulsa e a humilhação. Assim sendo, existe assim uma dupla preocupação, aquando da sua procura por algum tipo de intimidade mais elevada, 1) confirmar se o seu par tem um igual interesse e 2) se tem a mesma orientação sexual. Em pleno séc. XXI, continuo sem verificar uma igualdade plena na liberdade sexual e social, entre os homossexuais e heterossexuais!

Mas por que existe esta mesma dificuldade? Para mim, esta é a questão fulcral e não compreender a origem da homossexualidade, e se é ou não uma doença… A natureza humana, nomeadamente a sexualidade, deve ser encarada de forma aberta e simplificada, devemos promover a existência de um mundo colorido, um mundo diversificado, onde todos os indivíduos são igualmente livres, sexual e socialmente. A felicidade reina neste mundo utópico, que tanto ambiciono!

Por exemplo, a sociedade tem ao seu dispor várias formas de actuar, nomeadamente através da indústria cinematográfica, que consegue alcançar milhões de indivíduos mundialmente, e assim promover a normatividade das relações homossexuais. Esta mesma indústria, poderia realizar mais filmes que expressam e espelham a natureza das relações homossexuais, e tal não se verifica. Salva excepção dos filmes de acção, em que verifica-se a utilização das relações lésbicas, mas de um modo errado.

Sendo estas relações melhor aceites pela sociedade do que as relações gays, uma vez que apresentam um cariz sensual, ou seja, uma grande percentagem de homens heterossexuais, até os mais homofóbicos, excitam-se e consideram atraente ver duas mulheres a beijarem-se, a tocarem-se, os filmes de ação adoptam assim como estratégia a conjugação destas relações com carros, adrenalina, e lutas, atraindo uma percentagem enorme de sujeitos masculinos, promovendo um elevado lucro.

Também na indústria pornográfica se constata um abuso na utilização das relações lésbicas, sustentando assim esta visão errada das relações homossexuais. Se efectuarmos uma selecção de filmes pornográficos onde se constata e seja referenciado as relações lésbicas, concluiremos que existe uma grande e variada gama, o que é assustador porque fora deste ecrã/tela e desta indústria a homossexualidade não é de todo aceite.

Este mesmo contraste é aterrorizador, e reflectindo sobre ele constatamos que os indivíduos na sua natureza mais íntima ”aceitam” a homossexualidade, utilizando-a para satisfações e necessidade básicas, sexuais, mas na sua natureza mais superficial, mais mecanizada, mais social, no seu dia-a-dia em que se encontra inserido em específicas esferas sociais, tais como o trabalho, a universidade, a família, o círculo de amigos, adopta um comportamento congruente com os preconceitos sociais, que assentam na homofobia.

Portanto, temos de efectuar mudanças a um nível mais abrangente, alterar estes ideais, preconceitos, estereótipos e visões sobre a homossexualidade! Como podemos mudar os mesmos? É aqui que nos devemos focar e trabalhar. Nomeadamente, podemos utilizar e abusar dos media, uma vez que são uma das melhores formas para atingir e alcançar uma grande percentagem de indivíduos.

O objectivo, na minha opinião, é alterar esta visão altamente preconceituosa da sociedade, para que consequentemente, os indivíduos homossexuais se consideram capacitados para se exprimir livremente a nível sexual e social, promovendo uma maior facilidade na procura de relações de cariz íntimo com os seus pares.

Concluindo, se esta miúda consegue atrair-me, cativar-me, despertar o melhor em mim, promover o meu auto e hetero-conhecimento, promover o meu crescimento enquanto ser humano, então sim eu gosto firmemente dela! Assim sendo, eu vou demonstrá-lo, vou ser honesta e dizer-lhe o que sinto, vou expor sem qualquer receio o meu lado mais frágil e vulnerável. E, vou demonstrá-lo através de várias atitudes, que me preocupo com ela, que desejo-lhe o melhor, e que estarei sempre disponível para a partilha de maus e bons momentos.

Acima de tudo, vou tratá-la como uma flor, com carinho, com delicadeza, com atenção, sendo a minha tarefa regá-la diariamente, promovendo o seu desabrochar e demonstrando a sua beleza! Confesso, que sentirei a tua falta não só de madrugada, ou seja, nos momentos de maior solidão, mas também nos momentos de maior agitação social, onde estou rodeada de pessoas! Acreditas em mim quando te digo que é tão simples assim? Mas, ainda assim, eu vou pedir ajuda à sociedade, peço que exista a alteração de todos os preconceitos homofóbicos e a promoção da liberdade individual, tanto a nível social como sexual, para que eu e a minha miúda consigamos construir algo deveras marcante e emocional!

Concluo, citando Simone de Beauvoir, “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

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