set de 7 #13

A semana eurovisiva já chegou ao fim, e uma das melhores músicas da noite foi a vencedora, e foi também a prova de que também é possível fazer e mostrar boa música portuguesa, e inclusive na nossa própria língua. Com este enquadramento, a playlist desta semana tem uma intenção muito clara, que é ilustrar uma questão que tem sido muito debatida e opinada: o facto da grande maioria dos participantes da Eurovisão optar por cantar em língua inglesa ao invés da sua língua materna.

Antes de mais, há que esclarecer o meu ponto de vista pessoal, que se resume, na essência, a concordar com a liberdade de escolha, seja no palco da Eurovisão seja em qualquer outro. Ou seja, os artistas devem poder cantar na língua que bem entenderem, porque eles, acima de quaisquer outros, saberão a mensagem que querem passar ao público e qual será a melhor forma de o fazerem. Não vejo mal na generalização do inglês dada a sua quase universalidade, e percebo, do ponto de vista de construção de uma carreira, especialmente a nível internacional, que parecerá uma escolha mais racional optar pela língua inglesa do que favorecer a língua materna, partilhada por uma audiência significativamente menor. No entanto, se há uma coisa que a participação dos manos Sobral na Eurovisão deste ano deixou clara (e falo nos irmãos porque além da interpretação do Salvador há que lembrar que foi a Luísa quem esteve por trás da composição da canção), é que nem sempre é necessário perceber as palavras que são cantadas para que uma música ressoe em nós e nos faça sentir uma ligação especial, e isso é válido tanto para os estrangeiros que conseguiram sentir essa ligação a uma música cantada em português, como nós portugueses ao ouvir uma música cantada numa outra língua, em particular numa com a qual tenhamos menos familiaridade do que o inglês, que já nos é mais usual. Dito isto, também reconheço uma grande mais-valia em conhecer a língua na qual uma música é cantada, que é conseguir perceber o significado das palavras. A música é uma linguagem universal, é verdade, mas conseguir perceber o significado do poema associado a essa música aumenta o valor dessa música e a eventual ligação emocional que se possa estabelecer com ela. Voltando ainda ao exemplo dos manos Sobral na Eurovisão, vimos o exemplo dessa universalidade da música, que conseguiu tocar a sensibilidade de pessoas que não percebiam o significado das palavras, mas tenho a certeza (quase) absoluta que terá sido sentida de forma diferente por quem fala português e consegue apreciar a beleza, simplicidade e emoção do poema de “Amar pelos dois” e assim partilhar do sentimento que se reflete na música. Em suma, encontro razões válidas para ambas as opções, cantar em inglês ou na língua materna, e parece-me extremamente redutor criticar um artista pelo simples facto de não adotar a sua língua materna.

Em qualquer caso, a verdade é que hoje em dia é muito difícil ter acesso, pelo menos de uma forma mais generalizada, a música que não seja cantada ou em inglês ou na língua do próprio país. Em Portugal, julgo serem raras as músicas que têm airplay na rádio e que acabam por entrar nos ouvidos da maioria do público português que não sejam em inglês ou em português – a exceção mais recente terá ocorrido talvez em 2013-2014 em que Stromae e a sua “Papaoutai” se ouviam em todas as rádios – o que não significa, de todo, que não exista música (muito) boa a ser criada por esse mundo fora, nas mais variadas línguas.

Tendo em conta tudo isto, optei por criar esta semana uma playlist composta apenas de canções em que nem o inglês nem o português têm lugar – um set de 7 #13 que podem considerar como uma espécie de versão alternativa da Eurovisão, um formato “micro” apenas com sete participantes que, julgo, não envergonhariam nenhum dos seus conterrâneos. Comece-se assim o espetáculo com uma breve apresentação dos participantes:

Das Ilhas Faroé chega-nos BYRTA, um duo que se aventura no universo electro-pop, composto por Guðrið Hansdóttir e Janus Rasmussen, dois artistas que tinham já uma carreira a solo bastante sólida antes de terem decidido investir numa colaboração que se concretizou no lançamento do seu primeiro álbum em 2013, intitulado simplesmente “BYRTA”, com uma receção bastante positiva tanto por parte dos críticos como do público em geral. Atualmente Guðrið e Janus continuam a desenvolver o projeto BYRTA simultaneamente às suas carreiras a solo.

Representando a Polónia temos Artur Rojek, alguém com uma experiência significativa no meio musical, que iniciou uma carreira enquanto músico e vocalista em grupos de rock alternativo e dream pop em 1992 e que é atualmente o diretor artístico de um festival anual de música na Polónia, o “Off Festival”. Artur Rojek mantém também uma carreira a solo, tendo lançado o seu álbum de estreia a solo, “Składam się z ciągłych powtórzeń”, em 2014.

Xavier Naidoo é o representante da Alemanha, também conhecido pelo nome artístico Kobra. Xavier é um cantor e compositor, produtor discográfico e também, em ocasião, ator e, além de tudo isto, é um artista algo controverso. Na verdade, Xavier quase participou na Eurovisão em 2016, representando a Alemanha, mas a sua seleção foi alvo de inúmeras críticas dada as suas alegadas visões políticas de direita e o facto de uma das suas músicas ter letras com teor homofóbico. Tal levou à criação de um abaixo-assinado para evitar a sua representação da Alemanha, que recolheu quase 15 mil assinaturas e que se concluiu com a emissora alemã optando não prosseguir com a sua participação, apesar de ter refutado as acusações, e do próprio Xavier ter publicado um comunicado pouco após esta decisão indicando que a sua paixão pela música e a sua dedicação ao amor, liberdade, tolerância e coexistência não se alterariam. Tendo em conta este enquadramento, ainda pensei em tomar uma decisão similar à emissora alemã e eliminá-lo desta playlist, mas, inspirado provavelmente pela visita papal, optei por virar a outra face e dar-lhe outra oportunidade nesta micro-Eurovisão.

Para contrabalançar o alegado historial associado ao artista anterior, chega-nos da França Christine and The Queens, designação artística de Héloïse Letissier, uma cantora e compositora nascida em Nantes que dedica grande parte do seu trabalho à comunidade drag queen. Tal deve-se ao facto de Héloïse referir como grande fonte de inspiração o trabalho de drag queens que conheceu em Londres, que inclusive a vieram a acompanhar como banda de apoio, dando assim origem ao nome deste projeto: Christine, a própria Héloïse, e as suas (drag) Queens. Christine and the Queens lançou o seu álbum de estreia, “Chaleur Humaine”, em 2014, o qual foi posteriormente reeditado em 2016, em versão inglesa, numa tentativa de penetrar no mercado americano. Christine and the Queens é uma das artistas mais interessantes a ter surgido no panorama musical recente, com um álbum de estreia que merece uma audição atenta e com videoclips e apresentações ao vivo absolutamente hipnotizantes. A música integrada na playlist desta semana é da versão inglesa do álbum, já que a versão francesa não está disponível no Spotify, mas nos destaques visuais deixo-vos com a versão original, para poderem apreciar em toda a sua opulência francesa.

Da Letónia chega Agnese Rakovska que chegou, de facto, a participar na Eurovisão. E muito recentemente, até: Agnese é a vocalista do grupo Triana Park, que participou na primeira semi-final da Eurovisão 2017 mas que acabou por não seguir para a final. De qualquer modo o seu trabalho não é inteiramente representado pela música que os Triana Park levaram à Eurovisão deste ano, conseguindo alcançar sonoridades distintas. Como prova, podem escutar o seu EP de estreia a solo,  “Vienaldzības”, lançado em dezembro passado.

Tal como a Eurovisão atravessa o mundo para chegar até à Austrália, também a playlist desta semana atravessa o planeta, mas para viajar até à Coreia do Sul, com Taeyeon. A Coreia do Sul é um bem conhecido (e fértil) berço de música pop, abundante em boy e girlbands, que mereceu inclusive a criação de uma designação própria, K-pop. Taeyeon fez parte de uma das girlbands de maior sucesso da Coreia do Sul, Girls’ Generation, antes de se ter dedicado a uma carreira a solo em 2015 com o lançamento do EP de estreia, “I” e de vir a ser considerada o ídolo mais popular da Coreia em 2016, para o que terá contribuído não só a sua carreira musical mas também a sua participação em alguns programas de televisão, inclusive alguns reality shows. Já este ano, Taeyeon lançou o seu álbum de estreia, “My voice”.

Como não poderia deixar de ser em qualquer espécie de Eurovisão, a Suécia não poderia deixar de estar presente. Assim, trago-vos Laleh, uma cantora e compositora sueca que, após uma breve carreira como atriz, entrou no mundo da música em 2005 com o lançamento do seu álbum de estreia, auto-intitulado, que atingiu o número um dos tops da Suécia e se tornou o álbum mais vendido desse ano. Desde essa altura Laleh lançou mais cinco álbuns em que canta não só em sueco, mas também em inglês e ainda em persa, a língua materna dos seus pais. Laleh tem vindo também a colaborar com outros artistas de renome internacional, tendo co-escrito músicas com Demi Lovato e Adam Lambert, tendo lançado o seu álbum mais recente, “Kristaller”, em 2016.

Este é o set de 7 #13, e com ele damos início ao desfile de canções desta micro-Eurovisão, escolhida a dedo. Se quiserem deixar a vossa pontuação, de 1 a 7, podem fazê-lo deixando um comentário.

Os destaques visuais desta semana vão para BYRTA, Christine and the Queens e Agnese Rakovska, com vídeos originais que captam a atenção, como poderão comprovar por vocês próprios, com um ênfase particular para a estética do vídeo de Agnese e para toda o conjunto de Christine and the Queens.

Enjoy!

[BYRTA – Norðlýsið]

[Christine and The Queens – Christine]

 

[Agnese Rakovska – Vienaldzības]

 

 

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