A Mama Do Feminismo

Em plena cervejaria de Lisboa no aniversário de uma amiga não deixei de ir espreitando o jogo de futebol masculino que passava na televisão. Era a final da Supertaça e assisti – algo incrédulo e perante garfada de polvo frito e arroz de feijão – ao grande plano no final da partida ao símbolo do Benfica da camisa de uma adepta. A mulher, por sinal, sustentava, e bem, umas enormes mamas que o realizador fez questão de dar explícito foco num plano de zoom out. O que estranhei no plano (e uma fotografia não é suficiente para fazer entender) foi a clara intenção de quem o filmou e conduziu. Era cinematográfico, com técnicas fluídas de movimento e de focagem. Era absolutamente premeditado. 

O realizador, Ricardo Espírito Santo e que por sinal é dos melhores que temos, pediu de imediato desculpa, reconhecendo que aquele plano “não devia ter sido emitido“. Erros acontecem e todos e todas nós os cometemos, o rápido esclarecimento do realizador foi, para mim, suficiente para encerrar o assunto. Acontece que, estranhamente, apanhei nos dias seguintes muitos comentários que se limitaram a ignorar o reconhecimento do erro e o pedido de desculpas do realizador. E, pior, limitaram-se a tecer provocações a quem, alegavam, tanto se tinha indignado com a situação.

O alvo dessas provocações eram as pessoas feministas, aquelas que, talvez por acaso, apenas vi em minoria entrarem na discussão. A maioria dos comentários que encontrei era explicitamente machista e pretendia humilhar quem se tinha indignado pelo grande plano do peito daquela benfiquista em plena televisão pública. Não deixa de ser irónico que, apesar de toda esta histeria, a verdade é que quase não li comentários indignados com a escolha da realização da RTP. Parece que quem se indignava fazia-o presumindo uma indignação em grande escala do outro lado da discussão. Não foi isso que vi, pareceu-me mais uma discussão cega em que um lado atirava as suas piadolas e provocações para o outro lado que, tanto quanto pude ver, se remetia ao silêncio. Estavam, digamos, ali à mama. E,  para se fazerem ouvir numa imaginária discussão viral, publicaram fotografias de homens em tronco nu nas bancadas desportivas – como se a intenção fosse a mesma num caso e noutro e, repito-me, uma fotografia não basta para entender o ponto que foi feito naquele instante. Questionaram igualmente se as ditas feministas não tinham mais nada com que se preocupar? E, por fim e ao descobrirem que a mulher em causa possuía também um nariz de grandes proporções, insultaram o seu aspecto.

É este o sentimento,  socialmente aceite, de apropriação do corpo da mulher. Este serve para ser olhado e admirado pelo homem, independente do contexto e da contribuição que essa mulher, dona desse corpo, possa ter, seja num plano cultural, desportivo, político ou científico, por exemplo. Aquela mulher não era apenas ali adepta, era adepta das mamas grandes. E ela poderá querer efectivamente sê-lo, mas quando foi sujeita ao tratamento que recebeu, primeiro, por parte da RTP e, depois, por parte de muitos comentadores nas redes sociais e sites de informação, ela foi forçada a ser isso e tão só isso, a adepta das mamas grandes. E isso, tal como o realizador, ao contrário de outros, admitiu, deverá ser decisão da própria. E, não, nunca de outrem.

ImagemPormenor de quadro de Salvador Dali

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