Uganda, novamente

Há coisa de um ano escrevi um texto sobre o Pride no Uganda. Ou melhor sobre a impossibilidade de existência de uma manifestação de orgulho e celebração, neste país.

Desde 2012 que o Pride tem sido celebrado no Uganda, ainda que de forma diferente que na Europa. Não conta com milhares de pessoas LGBTI ou apoiantes a marchar por uma avenida fora. É muito menor, conta com umas poucas centenas se tanto. Há efetivamente uma aposta para o evento se desviar de grandes multidões e espaços públicos para evitar confrontos, segundo Frank Mugisha diretor da ONG “Sexual Minorities Uganda”  a principal organização de direitos LGBTI no país.

Frank conta ao The Guardian que as autoridades ugandesas nunca reconheceram o Pride, tendo sido interrompido logo em 2012 alegando ser um casamento homossexual, o que devemos relembrar que é considerado ilegal no Uganda, tal como qualquer ato ou comportamento não heterossexual. Sim, o “Ato Anti-Homossexual” (fevereiro de 2014) mais conhecido pelo ato que permitia a pena de morte a pessoas não heterossexuais, ainda que tenha sido cancelado em agosto do mesmo ano, não permitiu construir um ambiente mais seguro para os LGBTI, mas sim agravou a perseguição e opressão policial a todos os eventos e/ou os ativistas relacionados com a causa. Reacendeu-se o discurso absurdo do repúdio à “ocidentalização” dos costumes não-tradicionais e considerados não-normativos.

Foi neste clima que foi organizado o Pride no Uganda em 2015 e 2016. Porém, este último ano foi o mais conhecido pelas piores razões. A organização do Pride foi feita não só para celebrar a existência da comunidade LGBTI, mas também e sobretudo num clima de resistência e de força de todos os envolvidos na comunidade e na luta pelos seus direitos e condições de vida.

Se se lembram do que aconteceu, o Pride 2016 foi interrompido violentamente pelas forças policiais. Fortes jatos de água, ativistas e manifestantes foram feridos, homens e mulheres trans foram humilhados na tentativa dos policiais restabelecerem o seu “verdadeiro” género – What is this? This is women’s hair; you are a man.

Há uma ordem explícita para impedir eventos LGBTI. O Governo do Uganda não pode tolerar a “propaganda gay”. Esta posição é defendida pelo Ministro de Ética e Integridade do Estado, Simon Lokodo, evocando o código penal, que contraria em simultâneo o direito de liberdade de associação e reunião supostamente garantidos pela constituição do Uganda.

“We wish to emphasise that whereas the promotion of homosexuality is criminalised under the penal code, there is no violence against the LGBTI community in Uganda – contrary to some claims made loosely by proponents of this movement (…).“A programme to rehabilitate members of the LGBTI community, with the ultimate aim of giving them a chance to lead normal lives again has been developed.” (Simon Lokodo)

Porquê trazer este assunto? Porquê trazê-lo novamente?

Para não esquecermos.

Para que a comunidade internacional denuncie a ilegalidade, a opressão, a violência. É preciso mostrar visibilidade, fazer pressão, enfrentar o ódio. É preciso mostrar solidariedade para com aqueles que como nós luta todos os dias.

Para que cada um e cada uma de nós denuncie.

E é importante salientar outro aspecto: o discurso do medo e do ódio encontra-se em todo o lado.

Este ano, o Pride no Uganda fica novamente sem efeito.

 

Fonte: Imagem.

Outras Fontes:

https://amp.theguardian.com/commentisfree/2017/aug/21/lgbt-ugandans-pride-uganda

https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/aug/10/uganda-violence-police-lgbt-pride

https://www.theguardian.com/global-development/2017/aug/21/no-gay-promotion-can-be-allowed-uganda-cancels-pride-events-lgbt

http://www.pinknews.co.uk/2017/08/22/us-embassy-condemns-uganda-for-forcing-cancellation-of-pride/

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