Homens Gay e Dismorfia Corporal: uma aliança tóxica e indestrutível?

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Enquanto fruto da realidade portuguesa dos anos 90, a minha adolescência foi passada a esconder-me de tudo e todos. A missão principal, especialmente no liceu, consistia em passar despercebido. Porque ser eu próprio estava fora de questão, logo cedo denunciado por ter trejeitos pouco próprios dos padrões masculinos, pouca apetência para jogar futebol no recreio e predileção em passar o meu tempo com as raparigas. Tudo frequentemente denunciado por colegas e vigilantes no ambiente opressivo que é um colégio católico. Percebi que ser quem eu era era inaceitável. Como tal escondia-me. E uma das melhores maneiras de ser invisível de qualquer desejo de outras pessoas nesta época, fossem elas rapazes ou raparigas, era através da maneira como me viam. Desfavoravelmente. Como tal debati-me com problemas de excesso de peso desde aí. Até me sentir, muito lentamente, mais confortável com o meu corpo e a trabalhá-lo de forma a torná-lo mais desejável. Por mim e por outros.

Aqui reside uma das raízes do problema que não é somente efeito direto de um narcisismo desmesurado ou de um complexo de Adónis. Um equivalente ao que as mulheres já vêem ditar as suas vidas e os seus corpos desde os primórdios e que agora chega também aos homens. Mas a rejeição e vergonha associadas a ser-se homossexual transfiguraram-se numa necessidade pouco saudável para nos enquadrarmos num padrão socialmente aceitável de masculinidade, musculosa e viril. Essa tentativa de compensação de inseguranças passadas e presentes está em todo o lado na comunidade LGBT e, muito especificamente, na comunidade gay. Somos diariamente bombardeados com mensagens de que o nosso corpo não é próprio para consumo. E parte desse consumismo é ditado por regras impostas em aplicações de engate ou encontros como o Grindr, populados por mais troncos nús lisos que uma galeria de arte greco-romana. Por um lado escolher um parceiro sexual pelas características faciais não deixa de ser igualmente problemático ou superficial. Mas uma selecção com base no conjunto de peitorais e abdominais transforma-nos em nada mais que um pedaço de carne. Um talho na ponta dos dedos. Fast-food criada em ginásio. E nem sempre isso é bom. Até poder ser.

Todas estas construções erróneas do que um corpo masculino deve ser levam à proliferação de um mal que sempre existiu na comunidade gay: a dismorfia corporal. Aliada ao facto de uma percentagem elevadíssima das pessoas homossexuais ou LGBT sofrerem de problemas de saúde mental, relacionados com discriminação e intolerância socialmente aceites e alimentadas desde tenra idade, leva a uma estigmatização acrescida do corpo que nos calhou nas cartas. Porque é das poucas coisas, sendo física e de perceção extrínseca, que podemos de alguma forma alterar para ganhar amor próprio. Mas até que ponto? Quando é que as idas aos ginásio deixam de ser para manutenção de saúde e passam a ser carne para canhão – literalmente – de uma visão desenquadrada de nós mesmos através da comparação direta com os outros?

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Neste campo não há maior perpetrador da masculinidade tóxica (e delicadamente frágil) na comunidade gay do que o Instagram. Já falámos várias vezes desta rede social minada de problemas que, ultimamente, têm crescido exponencialmente. E num Instagram que condena a exibição de mamilos exclusivamente femininos, os masculinos proliferam como um vírus contagioso. Os influencers gay, os que fazem publicidades a hotéis de luxo, produtos direccionados ao sexo anal (entre muitos outros), são quase todos eles homens perfeitamente musculados, cis e brancos. Não muito diferentes dos que são celebrados na maioria da pornografia ou em todas as paradas de Orgulho. Cada vez que seguimos um destes homens lindos de tronco nú são-nos oferecidos dez outros e o nosso feed acaba por ser por eles exclusivamente dominado. Porque nós o queremos e desejamos. Mas não nos ocorrem os sacrifícios diários que fazem, os suplementos e anabolizantes esteróides que tomam para assim aparecerem num quadrado fugaz, as manipulações visuais com Photoshop, Facetune e afins. No Instagram, a quantidade de publicidade a apps para muscular artificialmente fotografias de corpos menos musculados é assustadora e sintomática de uma epidemia incontrolável. Mas, acima de tudo, não pensamos também no quão cáustico é para a nossa saúde mental sermos inundados de corpos ridiculamente perfeitos. Não é por acaso que a dismorfia corporal leva a uma elevada incidência de depressão e também ansiedade relativa a atos sexuais.

No entanto, pomos – ponho – likes exaustivos nestas fotos de thirst-trapping, secretamente desejando ter a aceitação, medida em corações, que eles têm. E que se calhar nunca virá. Porque, por muito que me olhe ao espelho – vezes demais – e tente modelar o meu corpo para se aproximar do aceitável para os padrões do consumo homossexual, existirá sempre aquele adolescente gordinho no reflexo. Aquele que entretanto cresceu para ver defeitos no seu reduzido pneu abdominal, nos seus braços ligeiramente flácidos e que agora gera uma série de expectativas para o seu corpo que são inatingíveis. Vou continuar a pôr likes em todas estas fotos. E a deixar que a minha atração por outras pessoas se encaixe nesta masculinidade mesquinha. Não consigo evitá-lo. Mas simultaneamente vou refletindo e tentando dar a entender que dismorfia corporal não é um problema de primeiro mundo, de alguém que nada mais tem para se queixar. É um efeito nefasto de uma insegurança que jamais se irá embora. De vergonhas e repressões antigas, de um isolamento forçado e de uma constante necessidade de aceitação e pertença a um grupo. A uma normatividade qualquer. Mesmo que ela seja também ela perfidamente tóxica.

Imagens: Men’s Health e Instagram

Contraponto (13 julho 2019):

Como as coisas mudam num espaço de seis meses depois de introspecção profunda e de apropriação dos complexos acerca do meu próprio corpo. Nesse processo fui-me sentindo cada vez mais à vontade com ele. Contra todas as probabilidades e experiências passadas. Fui aceitando lentamente as imperfeições e celebrando todos os pontos que me orgulhavam. Aprendi que posso sorrir sem fazer caretas. Que posso mostrar o meu tronco nú sem me sentir julgado. E sendo-o, constantemente, não me importar (tanto) com isso. E nessa tentativa de me sentir bem com o meu corpo fui vendo cada vez mais pessoas no Twitter se foram juntando a mim. Corpos diferentes, pessoas diferentes. Começou como uma piada: #teambiscoiteira. E claro, tal como eu acusei acima os modelos de Instagram, fomos também alertados para a toxicidade potencial dessa nova celebração pessoal. Porque estamos a alimentar a cultura do corpo idealizado. Porque estamos a publicar as melhores fotografias que temos. Porque estamos a querer ser gostados. Sem vergonha disso. Compreendo perfeitamente a crítica. Mas somos pessoas normais, que podem, ou não, ir ao ginásio e que estão a tentar anular anos de desconforto e vergonha de mostrar uma nesga que seja de pele. Se calhar daqui a uns meses vou mudar novamente de opinião. E isso não tem de ser negativo. Por enquanto fico feliz em mostrar que me sinto bem com o que tenho e ainda mais extasiado em ver outras pessoas nas redes sociais portuguesas, ainda minadas de julgamento e falsa autoridade moral, a fazerem o mesmo e a saírem dessa experiência ligeiramente mais confiantes. Para todos sermos melhores versões de nós próprios. Qual é o mal nisso mesmo?

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