Deputado Bruno Vitorino, que porcaria é esta?

“Sensibilizar” alunos de 11 anos sobre “diferentes orientações sexuais”? Que porcaria é esta?

O deputado Bruno Vitorino achou por bem criticar a existência de uma palestra numa escola do Barreiro que tratou as questões LGBTI. Na sua visão esta “sensibilização” (as aspas são do próprio) sobre “diferentes orientações sexuais” (idem) é uma “porcaria” (estas são minhas). “DEIXEM AS CRIANÇAS EM PAZ!”, rematou do fundo do seu preconceito!

 

Ora, ataques políticos à parte, gostaria de saber o que incomoda tanto o deputado. Será que ele acha que é cedo demais para que haja uma discussão sobre a identidade de cada pessoa? Achará ele que crianças e adolescentes não devem ser submetidas a este tipo de propaganda com o risco das mesmas se tornarem de forma mágica em LGBTI? /s Achará o deputado que a linguagem e o conteúdo de um evento dirigido a crianças não serão apropriados às suas idades? Aparentemente não, porque “cada um pode ser o que quiser, mas DEIXEM as CRIANÇAS ser CRIANÇAS”, desde que estas não sejam lésbicas, gays, bissexuais, trans ou intersexo, não é, caro deputado?

 

Chamar uma iniciativa destas de “perversa” é, sim, uma grande porcaria. Porque não se trata aqui de corromper ou tornar imoral, muito pelo contrário. É dar espaço e visibilidade a identidades que poderão ser uma realidade para estas crianças. E se não for o caso para a maioria delas, ao menos tomam conhecimento sobre a existência das várias identidades sexuais e de género. Já lá vai o tempo do silêncio e do armário, hoje não há desculpas para criticar uma iniciativa que se pretendeu inclusiva e informativa, apropriada ao seu público.

 

A diretora do agrupamento de escolas de Santo André, Arlete Cruz, notou que “o barulho que está a ser feito nas redes sociais” não teve origem nos pais e mães das crianças da sua escola, acusando assim o deputado de utilizar o episódio unicamente “para fazer ataques políticos.

 

Trata-se pois de jogo sujo, à custa de um tipo de iniciativa que, por fim, começa a espalhar-se pelas várias escolas do país. Por fim, alunos e alunas têm a possibilidade de abordar um tema que até há pouco tempo lhes era vedado em contexto escolar por mero preconceito. E isso deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha, muito menos lançada por um deputado que, quando questionado, reitera que “não aceita” aquele modelo de sociedade – seja lá o que isso for, não é verdade? Mas, descansem, Bruno Vitorino garante que “não lhe choca nada quem é homossexual”, porque “é uma opção de cada um.” *suspiro*

 

Para terminar, nos comentários o deputado esclarece que “se quiserem educar assim os filhos deles, que eduquem. Agora deixem as crianças fora disto. É só isto.” Pois eu tenho uma novidade para o político barreirense: eu, tal como a esmagadora maioria das crianças, fomos educadas e, muitas vezes, bombardeadas com exemplos heterossexuais, não só na escola, como na televisão, na literatura, no cinema, na política, em todo o lado, basicamente. E, sabe que mais?, esse seu modelo de sociedade criou ainda assim milhentas pessoas LGBTI.

Eu, por exemplo, cresci, desde bem novo, com a sensação de ser um pária, isolado e detestado. Porquê? Porque não tive na altura exemplos de pessoas, LGBTI como eu, a quem olhar. Porque não tive na altura acesso a informação fidedigna sobre a minha identidade. Tive, sim, exemplos de histórias de vergonha e armário. Tive, sim, acesso a alegados pecados e tabus. E tudo isto foi um obstáculo tremendo no meu desenvolvimento, porque, tal como outras pessoas LGBTI, foi uma vida de crescimento silencioso. E isso, sim, minora qualquer pessoa.

 

Mas preciso, dentro de mim, deixar realmente a coisa clara. É que, sabe, deputado Bruno Vitorino, quando ouvimos porcaria como a que acabou de escrever, é-nos validado o quão fracos e fracas somos, porque uma parte de nós acredita no que lê. Porque não conseguimos ser invencíveis todos os dias. E isso pode derrubar-nos. E, sim, desde crianças. Perceba isso. Tomara que haja mais eventos, formações, vozes, notícias. Tomara que haja mais visibilidade orgulhosa para que tenhamos a força de continuar a viver de cabeça erguida, apesar e – ironicamente também – por toda a merda que nos é lançada. Muito, muito obrigado pelo seu contributo!

Atualização 12 de março 2019:

O Bloco de Esquerda vai avançar com uma queixa à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.

Sandra Cunha lamentou que Bruno Vitorino ache “uma ‘vergonha’ educar para a igualdade e contra a discriminação em função de um dos princípios consagrados na Constituição da República” e que considere que “‘sensibilizar alunos de 11 anos para as diferentes orientações sexuais’” seja “uma ‘porcaria’ ‘perversa’”.

Atualização 15 de março 2019:

A rede ex aequo, a associação LGBTI em questão, já lançou comunicado:

 



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Respostas de 11 a “Deputado Bruno Vitorino, que porcaria é esta?”

  1. Visto que a ESCOLA ignora o “ser”, varrendo-o por sistema para debaixo do tapete, e privilegia “saberes” ad-hoc, desligados, atomizados, está sempre à distância do que é mais importante na educação e, logo, é uma promotora de deseducação. Não é de agora, é antes um sistema que vem de longe e se perpetua. Creio não ser original se constato que, face ao avanço tecnológico produzido, o avanço psico-social da espécie humana é relativamente débil.

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  2. Não é esta a escola se pretende ter para a sociedade. Uma escola que desensina por temas direcionados. O que é isto? Onde está o respeito pela dignidade humana? E estas pessoas que se prestam a ir às escolas fazer figura de quê? A que título? Que sectorização é esta? Já não estamos capaz de ensinar e formar a personalidade humana para ser livre? Para saber ser digna? Responsável? Capaz de pensar e agir numa sociedade de valores éticos, morais, culturais, creativos e racionais. Estamos muito mal, se nem as escolas transmitem conhecimento e passam futilidades para o imaginário humano juvenil, porque não passará disso mesmo e não suportará a estrutura humana que precisa de fortes pilares do conhecimento e culturais. Haja mais deputados atentos e que não se calem como este senhor, não por ser contra as pessoas mas por ser a favor de um ensino baseado no conhecimento. Não perca a força Sr. Deputado!

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  3. Avatar de Antonio Ferreira
    Antonio Ferreira

    É só nojeira. Gosto

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  4. […] Procuradora conduzida pela Clara de Sousa. Aproveitou assim o seu espaço para se pronunciar sobre a ida de associações LGBTI a escolas. Para começar, a comentadora – tal como outros seus colegas, aliás – não acerta no […]

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  5. […] unissexo: é a exigência de deixar as crianças em paz, chavão popularizado por várias pessoas, nomeadamente um atual deputado à Assembleia da República. Ora a marca foi apontada ao apoiar uma alegada ideologia de género com o lançamento desta nova […]

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  6. […] sem resolução à vista? Quando temos um Bruno Vitorino, deputado pelo PSD, a considerar “uma porcaria” a palestra de sensibilização dada pela rede ex aequo, uma associação de e para jovens […]

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  7. […] Um grupo de 85 deputados e deputadas do PSD e CDS-PP entregou no Tribunal Constitucional um pedido de fiscalização da norma que determina a adoção de medidas no sistema educativo português sobre a identidade de género. O requerimento foi elaborado por Miguel Morgado, Nilza Sena e Bruno Vitorino, sendo este último o deputado que em março passado considerou que a “sensibilização sobre “diferentes orientações sexuais” é uma “porcaria.” […]

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  8. […] Rowling reagiu ao backlash e, após reações de várias pessoas ligadas à saga Harry Potter, como Daniel Radcliffe, insistiu que pretendia uma discussão subtil sobre o assunto, mas, no final, as suas preocupações pareciam resumir-se às casas de banho. Qual deputado Bruno Vitorino! […]

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  9. […] Contra críticas bacocas, o relatório indica que as sessões do Projeto Educação LGBTI da rede ex aequo têm uma receção positiva dentro da comunidade escolar, demarcando a importância da juventude LGBTI ser reconhecida em ambiente escolar com as suas especificidades: a formação da identidade, a falta de abertura no ambiente familiar e escolar para falar sobre as questões de orientação sexual, identidade e expressão de género, a eventual exclusão social e a falta de apoio pedagógico e psicológico em situações de bullying e violência. É de notar que as sessõesdo Projeto Educação têm também a especificidade de serem moderadas por jovens que interagem e dialogam com outros e outras jovens, permitindo assim uma maior proximidade a nível de vivências, referências e capacidade de se identificar com o seu par. É de notar que muitas das pessoas inquiridas referiram que as questões discutidas não são suficientemente abordadas na escola nem em casa. […]

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  10. E paradoxal quando a gente que tem vivência, com mais de 50 anos, percebe que na prática da alvorada da sexualidade até quando a libido aflorar, nos possibilitam a viver a homossexualidade! Em todos os tempos! Que vai além de frequentar sempre banheiros por gênero! Vai até na consulta médica, o médico nos sugerir avaliação preventiva da região sexual, também! Em agosto, em check-up, até disse ao médico, a “casinha” que muitas vezes, homens buscam, por terem se visto, muitas vezes, compartilhando banheiro! E ele disse que a Andrologia, surgiu como opção, quando na Faculdade, homens diziam a ele, nem tudo são flores sempre, como pedido de desculpa, por irem ao box defecar! Ai disse a ele, que ele refletiu que assim como o pênis, o anus tinha dupla função! Discreto, alisou minha prostata e cruzei as pernas, segurando dedo dele!

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  11. […] Importa contextualizar que este é o mesmo deputado que, em 2019, considerou que “sensibilizar” alunos de 11 anos sobre “diferentes orientações sexuais” era uma porcaria. […]

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