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#culturaqueer_1 Representações de feminilidade: menstruação e aborto na obra de Joana Falcão

Joana Falcão (1992 – )
Visto-me
2018
Máscara de látex pigmentado, alguidar de alumínio, água e pigmento vermelho
Créditos de imagem: Liliana Carvalho

#culturaqueer é uma proposta de rubrica mensal com reflexões críticas sobre objetos artísticos que interliga cultura visual e literária e questões de género, sexualidade e feminismo. Escrevo com a intenção não de tornar as minhas palavras uma verdade absoluta, mas de proporcionar um diálogo saudável entre membros da comunidade LGBTQIA+ e seus aliados, funcionando também como uma plataforma de aprendizagem pessoal. Por isso, convido-vos a enviarem as vossas propostas de análise, sejam exposições, obras de arte, obras literárias, música, teatro ou filmes – sharing is caring! – ou a partilharem as vossas opiniões. Começamos?

#culturaqueer_1: Representações de feminilidade: menstruação e aborto na obra de Joana Falcão

Há algum tempo, numa sessão informal de discussão com a artista Joana Falcão no âmbito da exposição “Sem verso não há face”, que se realizou no Convento do Carmo, em Torres Novas, na qual tive o prazer de participar como curadora, falámos sobre algumas obras específicas que tratam temas que, geralmente, têm a ver com a feminilidade, nomeadamente menstruação, gravidez e aborto (tanto voluntário como involuntário), e a sua relação com a temática mais geral da mostra expositiva, o trauma. Enquanto ávida feminista autoproclamada, o tema, claro está, é do meu interesse. Contudo, evito ter este tipo de discussões publicamente devido à minha impulsividade e fervor naturais, que não fazem de mim a melhor oradora e defensora daquilo que declaro. Por isso, prefiro escrever.

Joana Falcão (1992 – )
Visto-me
Registos fotográficos de performance
2018
Créditos de imagem: Liliana Carvalho

As obras que este texto trata especificamente são registos da performance “Visto-me” (2018), constituídos por um alguidar de metal com água e pigmento vermelho, uma máscara de latex encarnada com a textura de tripa de bovino [em destaque acima] e duas fotografias (a primeira na qual figura um corpo comummente designado como feminino, cuja cara se encontra totalmente coberta pela máscara referida anteriormente, e a segunda, na qual aparentemente figura a mesma pessoa ajoelhada junto ao dito alguidar, a lavar uma peça de roupa, também ela encarnada) e “deixou-a cárpida” (2018), um díptico fotográfico representando um corpo comummente designado como feminino, utilizando cuecas de latex com a mesma textura da tripa de vaca e com a mesma cor encarnada. Na primeira fotografia, observamos a zona pélvica, mãos e braços relaxados; contudo, na segunda fotografia, observamos todo a zona do torso, braços contraídos e mãos junto ao ventre, com as palmas viradas para cima.

Na performance “Visto-me”, que decorreu na Fundação Serralves em 2018, Joana Falcão envergou uma máscara e cuecas de latex vermelhas, despindo as últimas a meio da intervenção artística e lavando-as no alguidar, o que conferiu à água límpida a cor encarnada. Simbolicamente, o ritual de lavagem de algo torna puro aquilo que é profano, sendo que a menstruação é algo que, infelizmente, é um assunto ainda tabu na sociedade contemporânea. Tendencialmente, observa-se por parte do homem cis uma expressão de nojo e repulsa pelos fluidos menstruais e por parte da mulher cis uma certa vergonha e vontade em esconder que se encontra “naquela altura do mês”. Aliás, muitos casais evitam relações sexuais durante a fase menstrual. A questão que surgiu foi: conseguiria um homem captar, artisticamente falando, “desta maneira” (desgosto do uso desta expressão, mas utilizo-a porque foi usada durante a discussão) aquilo que é a experiência da menstruação?

Joana Falcão (1992 – ) Deixou-a cárpida
Impressão a jato de fotografia analógica de 120mm 2018
Créditos de imagem: Joana Falcão

Ora, a primeira resposta foi, de imediato – não. Concordo, até certo ponto. Um homem cis não consegue retratar a experiência da menstruação da perspetiva de quem a tem por uma simples razão: porque nunca a teve. Contudo, a história muda um pouco se falarmos de um homem trans, que durante algum tempo da sua vida foi socializado como mulher cis e que menstruou. Penso que, nesse caso, o homem terá legitimidade para se expressar artisticamente sobre a questão da menstruação da perspetiva de uma mulher cis, embora possa escolher não o fazer. Aliás, poderá ainda ter outro ponto de vista: aquele do homem trans que menstrua, no caso pré-operatório ou de quem prefere não passar por este processo. Além disso, existe toda uma panóplia de identificações de género não-binárias em que as pessoas menstruam e não são mulheres; novamente, poderão ter sido socializadas como mulheres cis até um certo ponto da vida, o que lhes convém a experiência para retratar este fenómeno corporal, podem fazê-lo da perspetiva de um indivíduo não-binário ou não fazê-lo de todo, porque não é relevante ou porque gera algum tipo de disforia. É um caso de biologia? É, até certo ponto. A primeira condição é a de possuir um sistema reprodutor dito feminino (e sublinho o dito) funcional. A segunda relaciona-se com género e com a socialização da pessoa enquanto mulher cis na sociedade numa certa altura da sua vida.

A história complicou-se um pouco quando se começou a falar de gravidez e aborto. Foi nesta altura que decidi meramente escutar, sabendo que, muito possivelmente, aquilo que iria ouvir me provocaria algum tipo de reação. E tinha razão. Nesta discussão, imperou o essencialismo biológico que tanto repugno (esta é uma frase um pouco forte, todos se ouviram e respeitaram, o diálogo foi aberto, livre de julgamentos e bastante construtivo; mas às vezes é giro dramatizar). Em “deixou-a cárpida”, a representação do ventre, despido de mediação, seguido da representação do útero através da postura das mãos aparentemente ensanguentadas na segunda fotografia, mostra a ausência do que outrora existiu: a gestação de uma vida humana. O trauma advindo de uma interrupção voluntária da gravidez ou de um aborto espontâneo é algo que nunca experienciei, mas que acredito que seja um acontecimento cujo luto é profundamente pessoal. Dito isto, colocou-se novamente a questão: conseguiria um homem representar este trauma “desta maneira”?

Novamente, uma resposta negativa. O homem cis não possui o sistema reprodutor designado como feminino, pelo que não poderá carregar um ser em desenvolvimento num saco amniótico durante cerca de 9 meses. Deste modo, poderá expressar o seu luto, independentementedo seu género (o que é válido para todas as pessoas, claro), mas não o trauma físico do aborto. As intervenções sobre o essencialismo biológico, de que as mulheres cis possuem no seu código genético um atributo maternal a priori, que diferencia as restantes experiências de gravidez, foram várias. Penso que esta perspetiva não é válida, pois pode minorar o luto de outras pessoas com diferentes identidades de género que, no final, acabam por ter experiências semelhantes. Penso que este ponto de vista assume, em primeiro lugar, que o género depende dos cromossomas e que, por isso, também o luto. É um argumento transfóbico e queerfóbico por natureza. Contudo, assumindo que o género é uma questão social e não biológica, e considerando a condição necessária para ocorrer uma gravidez (a existência de útero, trompas de Falópio, ovários, entre outros órgãos que tais), nesse caso, todas as pessoas com um sistema reprodutivo funcional terão uma predisposição genética para a maternalidade e, consequentemente, para sofrerem com a perda de um filho. Assim, o trauma físico que tal evento acarreta é tão legítimo como o de uma mulher cis, o que possibilita a sua representação artística “daquela maneira”. O mesmo é válido para pessoas com identidade não-binária e que possuam este tipo de sistema reprodutor. O luto psicológico, esse, não depende do género. Depende de qualquer coisa mais que não tenho coragem de indicar, pela possibilidade de pecar por ignorância. Aliás, todo este exercício de reflexão sobre a representação artística do aborto acaba por ser uma tentativa fútil da minha parte de tentar entender algo que nunca experienciei, podendo parecer mais crua do que pretendo, na verdade, ser.

Concluo, declarando aquilo que é óbvio: embora as experiências aqui descritas possam ser semelhantes, estes traumas não deixam de ser altamente subjetivos. A relação de uma pessoa com o seu corpo, com a forma como faz o luto e a forma como vê a parentalidade é algo muito íntimo. Poderiam existir dois trabalhos iguais? Pouco provável. É de acrescentar que esta reflexão em nada tira o mérito ao trabalho de Joana Falcão, que aplaudo. Colocou-me a pensar e deixou-me com mais perguntas do que respostas. Da mesma forma que questiono a legitimidade de uma pessoa que não tenha experienciado a menstruação de representar esse evento, me pergunto sobre a minha legitimidade para discutir o assunto do aborto, de um ponto de vista privilegiado de quem nunca abortou e de quem passa por mulher cis no quotidiano. Assim termino, de um modo desajeitado de quem desconfia da veracidade das suas próprias afirmações.


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